A ascensão dos blockchains modulares: Celestia, EigenDA e o impacto no ecossistema brasileiro
Ponto-chave
A arquitetura modular quebra o monopólio das redes monolíticas ao separar a execução da disponibilidade de dados (DA). Celestia e EigenDA derrubam os custos transacionais em mais de 90%, viabilizando que fintechs e tokenizadoras brasileiras criem suas próprias redes de alta performance e baixo custo para o mercado local.
O Ethereum engasgou. A Solana já sofreu apagões. O Bitcoin continua com taxas proibitivas para microtransações. Se você tenta construir uma aplicação financeira descentralizada para atender 200 milhões de brasileiros, a infraestrutura tradicional de blockchain simplesmente não aguenta o tranco. Durante anos, o mercado tentou resolver o chamado 'trilema da escalabilidade' otimizando redes monolíticas — aquelas que tentam fazer tudo ao mesmo tempo. A conta não fechou.
Agora em 2025, observamos uma mudança sísmica na forma como a infraestrutura cripto é construída. O mercado abandonou a ilusão do supercomputador mundial único e abraçou a especialização extrema. A arquitetura modular não é apenas uma atualização de software; é a fragmentação da cadeia de valor do blockchain. Camadas específicas agora cuidam apenas de execução, enquanto outras lidam exclusivamente com consenso ou disponibilidade de dados.
Se você opera uma fintech, um banco digital ou uma tokenizadora no Brasil preste muita atenção aqui. Essa mudança arquitetônica derruba o custo de lançamento e operação de infraestruturas on-chain em níveis estratosféricos. Estamos falando da capacidade de processar milhares de transações por segundo com custos que começam a rivalizar com os do Pix. O jogo mudou, e nomes como Celestia e EigenDA estão ditando as novas regras.
A anatomia da revolução: Dissecando o Blockchain Modular
Para entender a ruptura, precisamos olhar para o passado recente. Blockchains monolíticos como o Ethereum (antes dos rollups) ou a Solana fazem quatro coisas simultaneamente: Execução (processamento de smart contracts), Liquidação ou Settlement (resolução de disputas), Consenso (ordenação das transações) e Disponibilidade de Dados ou Data Availability - DA (garantir que todos os dados da transação estejam acessíveis).
Exigir que cada nó da rede global faça todas essas tarefas para cada transação é como forçar o chef de um restaurante cinco estrelas a cozinhar, lavar os pratos, atender as mesas e ainda manobrar os carros dos clientes na rua. O restaurante não escala. A fila dobra o quarteirão. O preço do prato dispara. Essa era a realidade das taxas de gas no Ethereum em períodos de alta demanda.
A arquitetura modular divide esse restaurante em departamentos especializados. Redes de Camada 2 (Layer 2) como Arbitrum e Optimism assumiram a Execução. O Ethereum manteve o Consenso e o Settlement. Mas sobrou um gargalo brutal: a Disponibilidade de Dados. Publicar os dados das transações na camada principal do Ethereum representava até 90% do custo de operar um rollup.
Aqui está a verdade nua e crua: sem baratear a Disponibilidade de Dados, a promessa de taxas de centavos nunca seria real. O mercado precisava de redes construídas do zero apenas para armazenar e disponibilizar dados temporários, sem se importar com a execução de contratos inteligentes. É exatamente nesse vácuo que nasceram as soluções de Data Availability (DA) dedicadas.
A Guerra da Disponibilidade de Dados (DA): Celestia vs. EigenDA
Duas abordagens distintas dominam o mercado hoje, cada uma com suas vantagens técnicas e modelos econômicos. De um lado, temos redes independentes construídas do zero; do outro, sistemas que alavancam a segurança pré-existente do Ethereum.
Celestia: O pioneiro preguiçoso (mas incrivelmente eficiente)
Lançada no final de 2023, a Celestia cunhou o termo 'modular blockchain'. A genialidade da Celestia está na sua preguiça proposital. A rede não executa nenhum contrato inteligente. Ela faz apenas duas coisas: ordena transações e verifica se os dados estão disponíveis. Pense nela como um gigantesco mural de avisos público.
O pulo do gato tecnológico da Celestia é o Data Availability Sampling (DAS). Em vez de obrigar cada computador da rede a baixar todos os blocos de dados (o que exige máquinas potentes), o DAS permite que 'light nodes' — que podem rodar até em um smartphone comum — verifiquem se os dados estão disponíveis baixando apenas minúsculas amostras aleatórias. Quanto mais light nodes participam, mais segura a rede fica, e maiores podem ser os blocos. É uma escalabilidade que cresce junto com a demanda.
EigenDA: A força bruta alavancada pelo restaking
Do outro lado do ringue, temos o EigenDA, desenvolvido pela equipe da EigenLabs. Enquanto a Celestia criou uma rede totalmente nova com seu próprio token ($TIA) e conjunto de validadores, o EigenDA atua como um Serviço Ativamente Validado (AVS) dentro do ecossistema do EigenLayer.
O EigenDA pega emprestada a segurança econômica trilionária do Ethereum. Validadores do Ethereum podem 're-apostar' (restake) seus ETH para também validar os dados do EigenDA. O resultado? Uma largura de banda colossal. Enquanto a Celestia foca em descentralização extrema e verificação via light nodes, o EigenDA foca em throughput bruto, prometendo taxas de transferência de dados na casa dos 15 megabytes por segundo, muito superior à capacidade nativa do Ethereum mesmo após atualizações como a EIP-4844.
Por que isso muda o jogo para o mercado brasileiro?
Na nossa análise, a tecnologia blockchain só fará sentido para o varejo financeiro brasileiro quando a infraestrutura for invisível e o custo for irrelevante. O Brasil tem o Pix, um sistema gratuito para o usuário final e que custa frações de centavo para as instituições financeiras. Qualquer iniciativa de tokenização que exija taxas de rede de R$ 5,00 ou R$ 10,00 nasce morta.
As empresas brasileiras estão agressivas na tokenização de ativos reais (RWA). Vemos o BTG Pactual com a Mynt, o Itaú Digital Assets estruturando operações bilionárias, e fintechs como Mercado Bitcoin, Liqi e Vórtx QR operando sob a Resolução CVM 161. Atualmente, tokenizar recebíveis agrícolas (CRA) ou cotas de fundos imobiliários em redes públicas esbarra no custo de emissão e transferência.
Com blockchains modulares, uma tokenizadora brasileira não precisa mais se sujeitar às variações de custo do Ethereum, nem sacrificar a segurança usando redes centralizadas. Elas podem lançar seus próprios rollups (as chamadas AppChains) otimizados para regulamentação local, usando a Celestia ou EigenDA como camada de disponibilidade de dados. O custo transacional despenca 99%. Uma transferência de um token de precatório passa a custar literalmente centavos de real, viabilizando o mercado secundário de varejo.
Além disso, o Banco Central do Brasil avança com o Drex. Embora o Drex opere em uma rede permissionada (Hyperledger Besu), a fronteira da inovação ocorrerá na integração entre os depósitos tokenizados dos bancos e as redes públicas onde os ativos circulam. Ter redes de Camada 2 ou Camada 3 ultrabaratas, ancoradas em DA modular, será a ponte entre o dinheiro institucional do Drex e a economia on-chain global.
Casos de uso práticos: Rollups-as-a-Service (RaaS) no Brasil
A ascensão da modularidade gerou uma nova categoria de mercado: os Rollups-as-a-Service (RaaS). Provedores como AltLayer, Caldera e Gelato permitem que qualquer empresa lance seu próprio blockchain Layer 2 em questão de horas, escolhendo os componentes como quem monta um prato no self-service: 'Quero execução Arbitrum Orbit, liquidação no Ethereum e DA na Celestia'.
Imagine uma rede de varejo brasileira gigante, como o Mercado Livre ou o Magazine Luiza, querendo criar um programa de fidelidade on-chain unificado. Lançar isso na rede principal da Polygon ou da Ethereum expõe a empresa ao risco de congestionamento por fatores externos (como o lançamento de uma memecoin qualquer). Lançar uma blockchain própria do zero exige milhões de reais em infraestrutura e segurança.
A solução? A varejista contrata um RaaS, cria a 'VarejoChain', usa Celestia para garantir que as transações do programa de pontos sejam baratas e verificáveis, e processa 5.000 transações por segundo gastando menos de US$ 500 por mês em infraestrutura. A empresa mantém controle total sobre as taxas, pode subsidiar o gas para os usuários (Account Abstraction) e não se preocupa com a complexidade do consenso.
Empresas de infraestrutura cripto B2B no Brasil, como a Parfin, já compreendem essa dinâmica. O fornecimento de soluções institucionais de custódia e infraestrutura agora obrigatoriamente passa por oferecer suporte a esses ambientes modulares, garantindo que os bancos possam interagir com múltiplas camadas de execução sem perder o controle de compliance.
O futuro da infraestrutura financeira on-chain
O mercado de infraestrutura cripto atingiu sua maturidade industrial. A fase heroica de tentar construir a rede perfeita que resolve tudo sozinha acabou. A especialização venceu. Celestia provou que é possível escalar a disponibilidade de dados de forma descentralizada. EigenDA provou que podemos reciclar a segurança de redes consolidadas para novos propósitos.
Para o ecossistema brasileiro, famoso por sua adoção rápida de tecnologias financeiras eficientes, a modularidade é o catalisador que faltava. Os custos proibitivos foram eliminados. A flexibilidade arquitetônica está posta. O desafio agora deixou de ser tecnológico e passou a ser puramente de produto: quem conseguirá usar essa infraestrutura modular para criar a próxima grande aplicação financeira que 50 milhões de brasileiros usarão sem nem saber que há um blockchain rodando no fundo?
Perguntas Frequentes
Matheus Feijão
CEO & Fundador — ouro.capital
Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.