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Bitcoin Ordinals e Inscriptions: A Guerra Civil que Inflacionou as Taxas e Divide o Brasil

2025-05-01·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A introdução dos Ordinals transformou o Bitcoin em uma plataforma de NFTs e tokens, dividindo a comunidade brasileira. Enquanto puristas acusam a prática de ser spam digital, pragmáticos celebram a nova fonte de receita para mineradores, um embaté que elevou drasticamente as taxas de rede e forçou a adoção de soluções de segunda camada.

Você abre seu aplicativo de carteira para enviar R$ 500 em Bitcoin para pagar um serviço de um freelancer. A taxa de rede sugerida para confirmação no próximo bloco? R$ 180. Isso não é um erro do sistema. É o resultado direto de milhares de imagens de macacos em pixel art, memes de sapo e tokens experimentais sendo gravados de forma permanente na blockchain mais segura e antiga do mundo.

Acompanhamos o ecossistema cripto brasileiro há mais de uma década aqui na Ouro Capital. Já vimos guerras civis épicas — o debaté sobre o tamanho dos blocos em 2017 que gerou o Bitcoin Cash, a adoção do SegWit, a ativação do Taproot. Mas a fratura atual na comunidade brasileira causada pelos Ordinals e Inscriptions tem um sabor diferente. Ela não é apenas sobre código. É sobre filosofia, útilidade e, claro, sobre quem paga a conta do espaço no bloco.

Se você opera uma corretora, minera Bitcoin no interior do Paraná ou apenas usa a Lightning Network para comprar um café em uma padaria que aceita cripto, essa briga afeta seu bolso diretamente. Vamos dissecar como chegamos a esse ponto e por que o Brasil se tornou um microcosmo perfeito dessa guerra ideológica.

Como Transformaram o Bitcoin em um Pendrive Global

Para entender a polêmica, precisamos voltar ao básico da tecnologia. O Bitcoin nunca foi desenhado para armazenar arquivos pesados. O whitepaper de Satoshi Nakamoto fala sobre um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer. Ponto.

Contudo, duas atualizações cruciais mudaram as regras do jogo sem que ninguém percebesse o efeito colateral. Em 2017, a atualização SegWit (Segregated Witness) separou os dados de assinatura das transações e criou um desconto artificial para esses dados. Em 2021, a atualização Taproot removeu limites de tamanho para certos tipos de scripts.

Foi então que, no início de 2023, um desenvolvedor chamado Casey Rodarmor juntou as peças. Ele criou a Teoria dos Ordinals. Pense no Bitcoin como notas de 100 reais. Rodarmor inventou um sistema para numerar cada centavo (satoshi) dessas notas, baseado na ordem em que foram minerados.

O pulo do gato? Usando o desconto do SegWit e a flexibilidade do Taproot, ele descobriu como anexar arquivos — textos, imagens, áudios e até códigos de jogos — a esses satoshis específicos. Ele chamou isso de Inscriptions. Nasciam os NFTs do Bitcoin.

O mercado secundário enlouqueceu. Um satoshi comum vale frações de centavo. Um satoshi "inscrito" com a imagem de um CryptoPunk ou o primeiro de um bloco histórico passou a ser negociado por dezenas de milhares de dólares. A blockchain do Bitcoin virou um banco de dados inalterável para colecionadores ricos. O resultado imediato? A rede congestionou. As taxas de transação, que costumavam ficar na casa de US$ 1 a US$ 2, dispararam para mais de US$ 30 em picos de hype.

A Divisão no Brasil: Maximalistas vs. Pragmáticos

Observamos essa tensão ferver em eventos recentes da comunidade nacional, como a Satsconf em São Paulo, e nos intermináveis debates em grupos de Telegram e fóruns locais. A comunidade brasileira de Bitcoin é historicamente conservadora. Temos uma forte inclinação ao maximalismo — a crença de que o Bitcoin é a única inovação real e que deve focar estritamente em ser uma reserva de valor e meio de troca incensurável.

A Visão dos Puristas (Maximalistas)

Para a ala purista brasileira, os Ordinals são essencialmente um ataque DDoS (negação de serviço) consentido. Eles argumentam que gravar imagens de JPEGs na blockchain expulsa usuários reais da camada principal (Layer 1).

Imagine um cidadão desbancarizado na periferia de São Paulo ou um ativista sob regime autoritário tentando transferir suas economias. Se a taxa de rede custa o equivalente a R$ 150 porque traders americanos estão disputando espaço no bloco para cunhar um token meme, o Bitcoin falhou em sua missão original.

Os maximalistas apontam que os Inscriptions exploram uma brecha. Eles usam o espaço de dados de testemunha (witness data), que tem um desconto de peso de 75% na rede. Na prática, quem faz transações financeiras normais está subsidiando quem grava lixo digital na blockchain. Desenvolvedores puristas chegaram a propor filtros nos nós da rede (nodes) para barrar essas transações. A justificativa é dura: se não serve para dinheiro, é spam.

O Lado dos Pragmáticos e Mineradores

A outra metade da arquibancada tem uma visão radicalmente diferente. O argumento pragmático baseia-se puramente nas leis de livre mercado. O espaço no bloco do Bitcoin é um recurso escasso. Quem paga a maior taxa, leva o espaço. Não cabe a desenvolvedores ou influenciadores ditar o que é uma transação "legítima".

Olhe para os números após o Halving de abril de 2024. A recompensa por bloco minerado caiu de 6.25 BTC para 3.125 BTC. Os mineradores viram sua receita despencar da noite para o dia. As taxas geradas pelos Inscriptions e pelos novos protocolos derivados (como os Runes) foram a salvação da indústria de mineração.

Conversamos com operadores de infraestrutura e a mensagem é clara: o Bitcoin precisa de um orçamento de segurança de longo prazo. Quando as recompensas de bloco chegarem perto de zero nas próximas décadas, a rede será sustentada inteiramente por taxas de transação. Os Ordinals provaram que existe uma demanda massiva por espaço no bloco, garantindo que os mineradores continuem protegendo a rede contra ataques de 51%.

O Impacto no Bolso do Brasileiro: Taxas e Lightning Network

A teoria é fascinante, mas como isso afeta a operação diária das empresas e dos usuários no Brasil?

Primeiro, a infraestrutura local de pagamentos sofreu um baque inicial. Startups brasileiras que constroem soluções sobre a Lightning Network (a camada de pagamentos rápidos e baratos do Bitcoin), como a Bipa, sentiram a pressão. Para abrir ou fechar um canal na Lightning, você precisa fazer uma transação na camada principal (Layer 1). Com as taxas nas alturas, o custo de integração de novos usuários disparou.

Isso forçou a indústria brasileira a amadurecer a fórceps. Vimos uma aceleração na adoção de tecnologias de otimização, como o splicing (que permite adicionar ou remover fundos de um canal Lightning sem precisar fechá-lo completamente) e a adoção mais agressiva de carteiras de custódia compartilhada para microtransações.

Se você tem uma loja física no Rio de Janeiro e aceita Bitcoin via Lightning, a transação do cliente continua custando centavos e sendo instantânea. O problema ficou restrito aos bastidores: a liquidez entre os nós da rede ficou muito mais cara de gerenciar.

BRC-20 e Runes: A Segunda Onda da Polêmica

A febre dos JPEGs foi apenas o começo. Em março de 2023, um desenvolvedor anônimo criou o padrão BRC-20. Usando a mesma lógica dos Ordinals, ele percebeu que poderia inscrever arquivos de texto (JSON) definindo regras para criar tokens fungíveis no topo do Bitcoin. Nasceu a infraestrutura para memecoins na rede BTC.

Tokens como ORDI e SATS atingiram bilhões de dólares em valor de mercado. As corretoras brasileiras se viram em uma encruzilhada. Plataformas como Mercado Bitcoin e Foxbit construíram suas reputações oferecendo ativos variados. Quando a demanda por BRC-20 explodiu, elas precisaram decidir se listavam esses ativos controversos. A maioria optou pelo pragmatismo comercial: se os clientes querem negociar e a liquidez global existe, as corretoras locais oferecem a ponte.

Logo em seguida, no exato bloco do Halving de 2024, Casey Rodarmor lançou o protocolo Runes. Uma versão mais eficiente e menos agressiva ao espaço do bloco que o BRC-20, desenhada específicamente para tokens fungíveis. O lançamento gerou um frenesi absoluto. No dia do Halving, mineradores chegaram a ganhar dezenas de Bitcoins apenas em taxas por bloco, pagas por especuladores tentando ser os primeiros a cunhar novos tokens Runes. Foi uma transferência de riqueza colossal dos especuladores de varejo para os mineradores.

O Que as Corretoras e Fundos Nacionais Estão Fazendo?

As gestoras de criptoativos no Brasil, como Hashdex e QR Capital, olham para esse fenômeno através da lente institucional. Os Ordinals aumentaram a atividade on-chain, reacenderam o interesse de desenvolvedores no Bitcoin (que vinham perdendo espaço para a Ethereum e Solana) e introduziram novos casos de uso.

Para um fundo de investimento, uma rede com alta atividade e mineradores bem remunerados é uma rede segura. Isso fortalece a tese de investimento no BTC a longo prazo. No entanto, as gestoras evitam produtos diretos focados em BRC-20 ou NFTs de Bitcoin devido à falta de clareza regulatória e à extrema volátilidade desses ativos.

As exchanges brasileiras precisaram atualizar suas infraestruturas de nós (nodes) para lidar com o peso extra e a lentidão da mempool (a sala de espera das transações). Muitas precisaram rever suas políticas de taxas de saque. Antigamente, uma corretora subsidiava parte da taxa de saque de BTC para atrair clientes. Com as taxas voláteis causadas pelos Ordinals, as empresas implementaram algoritmos dinâmicos que repassam o custo exato da rede para o usuário no momento do saque.

O Veredito: Inovação ou Lixo Digital?

Nossa análise técnica na Ouro Capital aponta para uma realidade incontornável: os Ordinals vieram para ficar. O código do Bitcoin trabalha com regras de consenso estritas. A menos que haja um hard fork (uma divisão traumática da rede), o que é políticamente inviável hoje, ninguém pode impedir as Inscriptions.

O mercado está lidando com o problema da única maneira que o livre mercado conhece: precificação. Se gravar a foto de um macaco no Bitcoin custar US$ 500 em taxas, apenas os arquivos de mais alto valor serão gravados. A tendência é que o hype das imagens de baixa qualidade diminua à medida que os custos sobem, deixando a rede principal para liquidações financeiras de alto valor e aberturas de canais de segunda camada.

A guerra civil na comunidade brasileira de Bitcoin reflete dores de crescimento. O Bitcoin deixou de ser um projeto de nicho para cypherpunks. Ele é hoje uma rede de liquidação global de trilhões de dólares. A lição mais dura que os puristas precisaram engolir nos últimos meses é que a descentralização verdadeira significa que você não pode controlar o que os outros fazem com a tecnologia.

Se o espaço no bloco tem um preço, e alguém está disposto a pagá-lo, o sistema está funcionando exatamente como projetado. A resposta não está em censurar transações, mas em construir pontes mais rápidas, baratas e eficientes nas camadas superiores. O futuro das transações cotidianas no Brasil não será na Layer 1 do Bitcoin. E, ironicamente, devemos agradecer aos criadores de JPEGs caros por nos forçarem a aceitar essa realidade mais cedo do que esperávamos.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.