O Colapso do USN da Near Protocol: A Ilusão do Algoritmo e a Lição Definitiva para o Brasil
Ponto-chave
A falha do USN provou que stablecoins algorítmicas carregam um risco sistêmico inerente de 'espiral da morte'. Para o investidor brasileiro, a regra é clara: fuja de dólares digitais que não possuam lastro 1:1 verificável em ativos do mundo real e auditorias independentes.
O mercado financeiro adora uma alquimia. Transformar chumbo em ouro, ou no caso das criptomoedas, transformar linhas de código em dólares infinitos. Nós acompanhamos de perto o banho de sangue de maio de 2022, quando o ecossistema Terra (LUNA) implodiu e desintegrou US$ 40 bilhões do mercado global em questão de dias. A poeira baixou, os holofotes mudaram de direção, mas a carnificina deixou vítimas silenciosas.
O USN, a stablecoin algorítmica nativa da Near Protocol, é o estudo de caso perfeito sobre como a arrogância da engenharia financeira cobra seu preço. A promessa era entregar um dólar digital rentável, descentralizado e indestrutível. A realidade entregou um rombo de US$ 40 milhões e um resgaté de emergência para evitar o colapso total da rede.
Se você opera capital no Brasil, seja como tesouraria de empresa ou investidor pessoa física buscando proteção cambial, preste atenção aqui. A história do USN não é apenas um obituário cripto. É um manual de sobrevivência sobre como separar dólares digitais reais de esquemas de pirâmide glorificados pelos jargões do Vale do Silício.
O Nascimento: A Promessa do Dinheiro Mágico
Lançada em abril de 2022 pelo Decentral Bank (DCB) — um projeto autônomo construído sobre a blockchain da Near — a USN prometia ser a espinha dorsal das finanças descentralizadas (DeFi) daquele ecossistema.
A premissa era sedutora: uma moeda atrelada ao dólar americano, governada por contratos inteligentes e capaz de gerar rendimentos anuais na casa dos 10% a 20%. O mecanismo inicial era puramente algorítmico, operando de forma assustadoramente similar ao finado UST da Terra.
Os usuários podiam queimar o token nativo da rede (NEAR) para cunhar USN, ou queimar USN para resgatar NEAR. A teoria econômica por trás disso assumia que arbitradores profissionais sempre manteriam o preço em US$ 1,00. Se o USN caísse para US$ 0,98, traders comprariam barato e trocariam por US$ 1,00 em NEAR, lucrando a diferença e restaurando a paridade pela pressão de compra.
O problema dessa arquitetura? Ela funciona perfeitamente em mercados de alta. Quando o preço do NEAR estava subindo, o sistema parecia inquebrável. O rendimento pago aos detentores de USN vinha do staking dos próprios tokens NEAR mantidos no tesouro do Decentral Bank. Dinheiro gerando dinheiro, sem intervenção humana.
A Anatomia do Colapso: O Rombo de US$ 40 Milhões
A matemática é fria e não perdoa alavancagem oculta. Semanas após o lançamento do USN, o colapso da LUNA destruiu a confiança global em qualquer coisa que levasse o rótulo de "stablecoin algorítmica". O pânico se instaurou. Os investidores correram para a porta de saída, liquidando seus USN em massa.
O Decentral Bank tentou manobrar. Em uma tentativa desesperada de salvar o projeto, lançaram o USN v2. A ideia era abandonar o modelo puramente algorítmico e passar a lastrear a moeda com USDT (Tether), a maior stablecoin com lastro fiduciário do mundo. O plano era simples: para cada USN emitido, haveria um USDT equivalente guardado.
Mas o estrago já estava feito. Durante o período de volátilidade extrema e transição de modelo, o sistema colapsou sob o próprio peso. O valor do token NEAR despencou mais de 80% ao longo de 2022. O tesouro que deveria garantir a paridade evaporou.
Para piorar, uma falha de design nos contratos inteligentes permitiu o que chamamos de "double-minting" (cunhagem dupla) durante momentos de estrêsse na rede. O resultado? O Decentral Bank acordou com um buraco negro no balanço: havia dezenas de milhões de dólares a mais em USN circulando do que garantias guardadas no tesouro. O déficit exato cravou em US$ 40 milhões.
O Resgate: Um Final Menos Trágico, Mas Igualmente Tóxico
Aqui entra a grande diferença entre o USN e o desastre da Terra/LUNA. Do Kwon, o criador da LUNA, deixou seu ecossistema queimar até as cinzas. A Near Foundation escolheu outro caminho.
Percebendo que um calote de US$ 40 milhões destruiria a credibilidade de todo o ecossistema DeFi da Near Protocol, a fundação interveio. Eles criaram o "USN Protection Programme", injetando US$ 40 milhões de capital próprio (em dinheiro real) para cobrir o rombo do Decentral Bank.
Os usuários puderam resgatar seus USN por USDT na proporção de 1:1, e o projeto USN foi oficialmente encerrado e enterrado. Ninguém perdeu dinheiro na ponta final, mas a lição custou dezenas de milhões aos cofres dos desenvolvedores da rede.
A Armadilha do Rendimento: Por Que o Brasileiro Cai Nessa?
Nós, brasileiros, temos uma relação peculiar com taxas de juros. Vivemos em um país onde a taxa Selic frequentemente orbita a casa dos dois dígitos. Nossa cultura de investimentos foi forjada no calor do CDI rendendo 1% ao mês com liquidez diária e suposta segurança total.
Essa "cultura do rentismo" nos torna alvos fáceis para projetos de DeFi disfarçados de renda fixa. Quando um investidor brasileiro vê uma stablecoin oferecendo 15% ao ano em dólares, o cérebro processa isso como um "CDB em moeda forte". É uma ilusão perigosa.
No sistema financeiro tradicional brasileiro, se o banco quebrar, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cobre até R$ 250 mil. No mundo das criptomoedas, não existe FGC. O rendimento de 15% de uma stablecoin algorítmica não vem do spread bancário ou de títulos do tesouro americano. Vem da inflação do próprio token da rede ou de complexas operações de alavancagem em corretoras descentralizadas (DEX).
A matemática básica de finanças corporativas ensina: risco e retorno andam de mãos dadas. Se o rendimento dos títulos do tesouro americano (T-Bills) está em 5% ao ano, qualquer protocolo oferecendo 15% está assumindo um risco direcional massivo com o seu capital. No caso do USN, o risco era a desvalorização do token NEAR.
Stablecoins Algorítmicas vs. Lastro Fiduciário: A Regra de Ouro
Agora em 2025, o mercado brasileiro de criptoativos amadureceu de forma brutal. Segundo dados da Receita Federal, as stablecoins já representam mais de 60% de todo o volume de criptomoedas transacionado no Brasil. O USDT (Tether) movimenta bilhões de reais mensalmente por aqui, sendo usado não apenas por traders, mas por empresas fazendo remessas internacionais e importadores pagando fornecedores na Ásia.
A diferença entre o fracassado USN e gigantes como USDT (Tether) e USDC (Circle) reside em uma palavra: lastro.
O USDT e o USDC são moedas fiduciárias tokenizadas. Se você verificar os balanços mensais da Tether ou da Circle, verá que as reservas são compostas por dinheiro em depósitos bancários, títulos do Tesouro dos Estados Unidos de curtíssimo prazo e fundos do mercado monetário. Para cada 1 dólar digital emitido, existe 1 dólar (ou equivalente líquido) trancado em uma conta bancária auditável no mundo real.
As stablecoins algorítmicas tentam reinventar a roda substituindo a conta bancária por linhas de código e arbitragem comportamental. A história provou, repetidas vezes (Iron Finance, Basis Cash, UST, USN, FEI), que algoritmos não conseguem segurar o pânico humano durante liquidações em massa. O que o mercado chama de "espiral da morte" é apenas o velho pânico bancário (bank run) em velocidade de banda larga.
Como os Players Brasileiros Estão Filtrando o Risco
Observe o movimento das grandes instituições locais. Quando corretoras como Mercado Bitcoin e Foxbit, ou neobanks como Nubank, Mercado Pago e PicPay, começaram a oferecer criptomoedas para o varejo, a curadoria de ativos foi implacável.
Você não encontra stablecoins algorítmicas obscuras nas prateleiras desses aplicativos. O Nubank Crypto, por exemplo, oferece USDC. O Mercado Pago oferece USDC e USDP. Essa blindagem institucional não é por acaso. Os departamentos de compliance dessas empresas entenderam rápidamente que o risco jurídico e reputacional de listar uma moeda que pode ir a zero da noite para o dia (como o UST ou o USN) é incalculável.
Se você opera por conta própria em corretoras globais (Binance, OKX, Bybit) ou útiliza carteiras não custódiais (MetaMask, Ledger), a responsabilidade da curadoria é 100% sua. Não compre dólares digitais que não possam provar, com auditorias de firmas de contabilidade globais, que possuem as reservas físicas para bancar os resgates.
O Cerco Regulatório: O Papel do BACEN e da CVM
O ambiente regulatório no Brasil está fechando as portas para aventuras algorítmicas. Com a aprovação do Marco Legal das Criptomoedas (Lei 14.478/2022) e a posterior delegação de poderes ao Banco Central do Brasil para regulamentar as prestadoras de serviços de ativos virtuais (VASPs), as regras do jogo mudaram.
O BACEN tem deixado claro em suas consultas públicas (como a famosa Consulta Pública 97/2023) que a segregação patrimonial e a transparência das reservas são inegociáveis. Para que uma stablecoin seja útilizada em arranjos de pagamento regulados dentro do Brasil, o emissor precisará provar liquidez imediata.
Na prática, isso significa que tokens que dependem de queima e cunhagem de ativos voláteis (como era o USN com o NEAR) difícilmente encontrarão espaço no mercado institucional brasileiro. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também mantém uma lupa sobre tokens que oferecem rendimentos fixos pré-programados, classificando-os frequentemente como valores mobiliários irregulares.
Essa postura dura dos reguladores locais é um escudo essencial. O Brasil já possui um sistema financeiro robusto e digitalizado com o Pix. A integração das criptomoedas a essa infraestrutura só faz sentido se o ativo subjacente tiver a mesma estabilidade jurídica e matemática que a moeda fiduciária tradicional.
O Veredito para o Seu Portfólio
O fim do USN da Near Protocol é mais um prego no caixão da tese das stablecoins algorítmicas subcolateralizadas. A engenharia financeira pode criar mecanismos complexos para disfarçar o risco, mas não pode eliminá-lo. Quando a liquidez seca e o mercado entra em pânico, o único lastro que importa é aquele que pode ser convertido em dinheiro vivo instantaneamente.
Se você útiliza stablecoins para dolarizar parte do seu patrimônio, proteger-se da inflação do Real ou realizar pagamentos cross-border, a estratégia é cristalina. Mantenha-se nas opções consolidadas, com capitalização de mercado na casa das dezenas de bilhões, lastro 1:1 comprovado em títulos públicos americanos e auditorias frequentes.
A promessa de "dinheiro descentralizado rendendo dois dígitos" vai bater à sua porta novamente no próximo ciclo de alta do mercado. Quando isso acontecer, lembre-se do rombo de US$ 40 milhões do USN. No mercado cripto, quando você não consegue identificar de onde vem o rendimento, o rendimento é o seu próprio capital.
Perguntas Frequentes
Matheus Feijão
CEO & Fundador — ouro.capital
Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.