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A corrida pelo USDT brasileiro: Transfero, Foxbit e MB disputam a emissão de stablecoins locais

2025-02-23·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

Com o Brasil movimentando bilhões em USDT anualmente, Transfero, Mercado Bitcoin e Foxbit travam uma guerra silenciosa para dominar a emissão de stablecoins em Real. O objetivo é estabelecer monopólio prático antes que o Banco Central defina as regras finais de capital e licenciamento.

Em 2024, os relatórios da Receita Federal trouxeram um dado que fez muita gente no andar de cima da Faria Lima engolir seco. Os brasileiros movimentaram centenas de bilhões de reais em criptoativos. O líder absoluto de volume não foi o Bitcoin, muito menos o Ethereum. Com mais de 80% do mercado, o Tether (USDT) engoliu o sistema financeiro alternativo nacional. Os brasileiros usam o dólar digital para tudo: proteção contra inflação, remessas internacionais e, principalmente, capital de giro para importadores do Brás e da 25 de Março.

Observamos essa anomalia diariamente. O Brasil tem o Pix, o sistema de pagamentos instantâneos mais eficiente do planeta. Mesmo assim, nossa dependência do USDT para liquidação em blockchain revela um vácuo colossal no mercado. Falta um "Pix on-chain" dominante — uma stablecoin atrelada ao Real (BRL) que possua liquidez, confiança e integração com exchanges globais.

É exatamente esse vácuo que desencadeou a guerra fria atual. Transfero, Mercado Bitcoin (MB) e Foxbit estão em uma corrida acelerada para dominar a emissão do Real digital privado. O prêmio para quem vencer essa disputa é gigantesco. E o relógio está correndo contra a parede regulatória do Banco Central (BACEN).

A economia da emissão: Por que todo mundo quer imprimir dinheiro?

Antes de analisarmos os competidores, precisamos entender o modelo de negócios. Emitir uma stablecoin é, possívelmente, a máquina de fazer dinheiro mais eficiente já inventada no mercado financeiro moderno. O racional é dolorosamente simples.

Um usuário deposita R$ 100 na sua plataforma. Você emite 100 tokens pareados ao Real e entrega para ele. O que você faz com os R$ 100 físicos (fiat)? Você aloca em títulos públicos, como o Tesouro Selic. Com a taxa básica de juros flertando constantemente com os dois dígitos no Brasil, você, como emissor, embolsa todo o rendimento livre de risco daquela reserva. O usuário, por outro lado, segura um token de rendimento zero.

Se você consegue escalar essa emissão para R$ 1 bilhão, estamos falando de uma receita de tesouraria na casa dos R$ 100 milhões ao ano, sem risco de crédito substancial, apenas custódiando o dinheiro alheio. O Nubank e a Stone precisaram de anos para construir carteiras de crédito rentáveis. Uma stablecoin atinge rentabilidades similares apenas existindo e mantendo seu peg (paridade).

Na nossa análise, quem dominar o "USDT brasileiro" será a fintech mais lucrativa da próxima década. E os players locais sabem disso.

Transfero e o BRZ: A vantagem militar de quem chegou cedo

A Transfero tem o que chamamos de "vantagem militar" de terreno. Eles lançaram o BRZ (Brazilian Digital Token) em 2019, uma época em que falar de stablecoin de moeda emergente parecia loucura. Eles desbravaram o mato alto.

Hoje, o BRZ é o peso-pesado do setor. A estratégia da Transfero foi brilhante: eles não tentaram competir com o Pix no varejo doméstico. Eles posicionaram o BRZ como a ponte entre o mercado cripto global e o sistema financeiro brasileiro. Se uma exchange asiática quer oferecer liquidez em BRL sem abrir uma conta bancária no Brasil, ela integra o BRZ.

A Transfero também fez apostas tecnológicas precisas. Ao integrar o BRZ na rede Solana cedo, capturou o boom de finanças descentralizadas (DeFi) de alta velocidade e baixo custo. Eles também estão na Polygon e Ethereum. O volume de negociação mensal do BRZ frequentemente ultrapassa a marca de centenas de milhões de reais, sustentado por formadores de mercado (market makers) robustos.

O desafio do BRZ agora é manter a coroa. Eles são líderes incontestáveis em liquidez externa, mas a entrada de gigantes do varejo brasileiro ameaça seu domínio institucional.

Mercado Bitcoin e o MBRL: O peso da distribuição no varejo

O Mercado Bitcoin (MB) não entra em brigas pequenas. Quando anunciaram o MBRL, o mercado parou para prestar atenção. O MB possui algo que a Transfero teve que construir do zero: uma base cativa de quase 4 milhões de usuários e uma marca que se confunde com a própria história da criptoeconomia no Brasil.

O movimento do MBRL foi cirúrgico. Eles não lançaram o token apenas no Ethereum, onde as taxas de rede (gas fees) matariam qualquer transação de pequeno valor. Eles miraram na Tron e na Stellar. Se você opera uma mesa de OTC (Over-The-Counter) ou faz remessas internacionais, preste atenção aqui: a Tron é a rede favorita da América Latina para movimentar USDT barato. Colocar o MBRL lá foi um recado claro de que eles querem canibalizar as remessas B2B.

O MB joga o jogo institucional pesado. Eles possuem licença de Instituição de Pagamento (IP) no Banco Central, o que lhes confere um selo de aprovação regulatória que poucos concorrentes têm. A estratégia do MBRL é criar um ecossistema fechado onde o usuário sai do Fiat, entra no MBRL, interage com DeFi, compra Renda Fixa Digital e volta para o Pix, tudo sem sair da infraestrutura do MB.

Foxbit na espreita: B2B e infraestrutura silenciosa

Enquanto Transfero e MB disputam os holofotes do varejo e da liquidez global, a Foxbit opera nas sombras lucrativas do B2B (Business-to-Business). A Foxbit entendeu que o verdadeiro dinheiro não está apenas na taxa de trade do investidor pessoa física, mas na liquidação corporativa.

Através do Foxbit Pay, a empresa estruturou uma das pontes mais eficientes para empresas que precisam receber em cripto e liquidar em reais. Embora não tenham feito tanto barulho com um token próprio nativo de varejo quanto o MBRL de imediato, a infraestrutura da Foxbit está perfeitamente posicionada para emitir e liquidar stablecoins institucionais.

A tese da Foxbit foca na dor real do comércio exterior e das tesourarias corporativas. O spread cambial tradicional no Brasil (IOF, taxa de câmbio, tarifas Swift) pode comer de 3% a 5% de uma transação. Usar stablecoins em Real pareadas a stablecoins em Dólar reduz esse custo para frações de centavo. A Foxbit está construindo os trilhos; a emissão própria em larga escala é o próximo passo lógico.

A guilhotina do Banco Central (BACEN)

Tudo isso nos leva ao elefante na sala: Roberto Campos Neto e a diretoria do Banco Central do Brasil. A Lei 14.478/2022 (o Marco Legal das Criptomoedas) colocou o BACEN como o xerife oficial do mercado. A primeira fase da regulação focou em definir quem é quem. A segunda fase, que está sendo desenhada agora em 2025, vai definir quem sobrevive.

O BACEN tem uma visão muito clara sobre stablecoins pareadas ao Real: elas são, para todos os efeitos práticos, moeda eletrônica. E se você emite moeda eletrônica no Brasil, você precisa seguir as regras da Resolução 4.893 (cibersegurança), ter políticas estritas de PLD/FT (Prevenção à Lavagem de Dinheiro, via COAF) e, o mais pesado de todos, ter licença de Instituição de Pagamento.

O ponto de ruptura será a exigência de segregação patrimonial. O BACEN quer garantir que, se a exchange quebrar, o dinheiro que lastreia a stablecoin não seja sugado pelos credores da massa falida. Os fundos precisam estar isolados, provavelmente em títulos públicos bloqueados no Selic.

A corrida atual entre MB, Transfero e Foxbit não é apenas por clientes. É uma corrida para ganhar escala suficiente e provar resiliência antes que o BACEN levante a barreira de entrada. Quem for pequeno e não tiver caixa para os custos de conformidade (compliance) será varrido do mapa.

Drex vs. Stablecoins Privadas: Inimigos ou aliados?

Uma pergunta que escutamos frequentemente nas mesas de operação é: "O Drex não vai matar as stablecoins privadas?"

Na nossa visão, não. O Drex (a CBDC brasileira) é desenhado para o atacado. Ele é uma infraestrutura de liquidação interbancária programável. Você, pessoa física, difícilmente terá uma carteira Metamask com Drex nativo rodando em uma blockchain pública como Ethereum ou Solana. O Drex viverá na rede permissionada Hyperledger Besu do BACEN, transitando entre bancos e grandes instituições.

As stablecoins privadas como BRZ e MBRL viverão nas redes públicas. Elas são a interface de varejo e a ponte internacional. O fluxo futuro será algo assim: um banco tokeniza um ativo no Drex, um formador de mercado compra esse ativo, converte o lucro para MBRL ou BRZ e envia para um protocolo DeFi em Cingapura. O Drex garante a segurança institucional interna; as stablecoins privadas garantem a interoperabilidade global.

Implicações práticas: O que isso muda na sua vida?

Se você é um e-commerce, a ascensão do USDT brasileiro significa que, em breve, você poderá aceitar pagamentos globais liquidados instantaneamente em BRL, sem risco cambial. Se você é um investidor cripto, significa não precisar mais pagar o spread de conversão BRL/USD toda vez que quiser entrar em um pool de liquidez na rede Solana ou Arbitrum.

Na prática, estamos presenciando a privatização da emissão da moeda nacional para uso no exterior. O Real sempre foi uma moeda exótica, presa dentro de nossas fronteiras pelas amarras do sistema Swift e dos controles de capital. As stablecoins estão hackeando essa limitação.

A Transfero provou que o modelo funciona. O Mercado Bitcoin quer escalar para as massas. A Foxbit quer ser os trilhos silenciosos das empresas. E o Banco Central assiste a tudo com a caneta na mão, pronto para assinar as regras do jogo. A guerra pelo USDT verde e amarelo mal começou.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.