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A guerra dos emissores: como Tether, Circle e PayPal disputam o mercado latino-americano

2025-01-25·10 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A América Latina virou o principal campo de testes global para stablecoins. A Tether domina o varejo via rede Tron, a Circle avança agressivamente no mercado B2B institucional, e o PayPal usa sua base massiva para emplacar o PYUSD no e-commerce.

O dólar em espécie desapareceu das ruas, mas o dólar digital tomou conta dos celulares latino-americanos. Não estamos falando de um futuro distante ou de um projeto piloto de laboratório. O dinheiro programável já roda nas veias da economia real do continente.

Nós na Ouro Capital acompanhamos a evolução da infraestrutura financeira há mais de uma década. Vimos o Pix engolir o TED e o DOC no Brasil. Agora, observamos um fenômeno de proporções semelhantes cruzando fronteiras: a dolarização silenciosa da América Latina via stablecoins.

O prêmio dessa corrida é monumental. Temos um mercado de mais de 600 milhões de pessoas, historicamente castigado por inflação crônica, moedas fracas e um sistema bancário tradicional que cobra pedágios absurdos para mover dinheiro entre países.

Três gigantes globais perceberam essa falha no sistema e abriram fogo. Tether, Circle e PayPal estão travando uma guerra de trincheiras pelo domínio da infraestrutura de pagamentos latino-americana. Cada um joga com armas completamente diferentes. O resultado dessa disputa vai redesenhar como empresas e pessoas físicas lidam com câmbio na próxima década.

O Produto Perfeito para o Continente Imperfeito

Antes de mapearmos as estratégias individuais, precisamos entender o tamanho do apetite regional. A América Latina é o mercado com o maior "product-market fit" do mundo para stablecoins atreladas ao dólar.

Dados da Chainalysis do final de 2023 mostraram que a Argentina, a Venezuela e o Brasil lideram a adoção de criptoativos na região, mas por motivos distintos. Em Buenos Aires e Caracas, o dólar digital é instinto de sobrevivência contra a hiperinflação. Em São Paulo e no eixo Faria Lima, a adoção é majoritariamente B2B.

Empresas brasileiras estão usando stablecoins para liquidar importações da Ásia. O processo é letal para os bancos tradicionais. Em vez de pagar um spread cambial de 2% a 3% na mesa de operações do banco, assinar contratos de câmbio e esperar dois dias úteis (D+2) pela liquidação via rede SWIFT, um importador transfere dólares digitais em cinco segundos, pagando centavos de taxa de rede.

Os números do Banco Central do Brasil confirmam a tese. As importações de criptoativos superaram a marca de US$ 1 bilhão por mês ao longo de 2024. A esmagadora maioria desse volume não é Bitcoin ou Ethereum. É dólar digital puro. As stablecoins deixaram de ser apenas a "ficha de cassino" usada para comprar outras criptomoedas nas exchanges e viraram um trilho de pagamento real.

Tether (USDT): O Monopólio das Ruas e das Remessas

A Tether joga o jogo do volume e da capilaridade. O USDT é o rei indiscutível do mercado. Com mais de US$ 120 bilhões em valor de mercado global, a empresa fincou sua bandeira na América Latina atacando o varejo informal e as remessas peer-to-peer (P2P).

A estratégia da Tether na região ignora os salões espelhados da Faria Lima. Eles focam nas ruas. Para entender o domínio do USDT, basta olhar para a rede Tron. A Tether percebeu cedo que o usuário latino-americano médio não pagaria US$ 15 de taxa na rede Ethereum para enviar US$ 50 para um parente. Ao inundar a rede Tron (TRC-20) com liquidez de USDT, eles criaram um sistema de transferência quase gratuito e instantâneo.

No Brasil, a Tether fez movimentos táticos brilhantes. A integração de provedores locais, como a SmartPay, permitiu que brasileiros comprassem USDT diretamente via Pix, integrando a stablecoin aos caixas eletrônicos do Banco24Horas. Você pega o celular, escaneia um QR Code, manda um Pix e recebe USDT na sua carteira não-custódial na mesma hora.

A força da Tether é a liquidez absoluta. Toda exchange latino-americana, da Mercado Bitcoin à Foxbit, precisa listar USDT. O desafio deles, no entanto, é a sombra regulatória. A falta de transparência histórica sobre as reservas que lastreiam o USDT incomoda reguladores institucionais. O Banco Central do Brasil e a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) olham para a Tether com lupa. Se as regras de licenciamento para provedores de ativos virtuais (VASPs) apertarem a exigência de auditorias em tempo real, a Tether pode enfrentar atritos.

Circle (USDC): A Ofensiva Institucional e o Carimbo Regulatório

Se a Tether domina as ruas de Buenos Aires, a Circle quer ser a dona das tesourarias em São Paulo e na Cidade do México. A emissora do USDC construiu sua marca em cima de uma única premissa: compliance total e obediência cega aos reguladores.

A estratégia da Circle na América Latina é puramente B2B e institucional. Eles não querem o usuário que faz P2P no Telegram. Eles querem as grandes fintechs, os bancos de investimento e as plataformas de e-commerce.

Observamos uma agressividade ímpar nas parcerias recentes da Circle. O acordo firmado com o Mercado Pago (braço financeiro do Mercado Livre) colocou o USDC diretamente na conta de milhões de usuários no Chile, no México e no Brasil. Pouco tempo depois, a integração com o Nubank Cripto consolidou a presença da Circle no maior banco digital do mundo fora da Ásia.

A Circle joga o jogo regulatório melhor que ninguém. A empresa já obteve licenças sob a lei MiCA (Markets in Crypto-Assets) na União Europeia, e usa isso como cartão de visitas em reuniões com o Banco Central do Brasil. O BTG Pactual, maior banco de investimentos da América Latina, atua como um parceiro estratégico para a infraestrutura do USDC, conectando o dólar digital da Circle ao ecossistema financeiro tradicional brasileiro.

Para o BACEN, que avança rápidamente na regulamentação da Lei 14.478/2022 (o Marco Legal das Criptomoedas no Brasil), a Circle representa o modelo ideal de emissor estrangeiro. Reservas auditadas mensalmente pela Grant Thornton, mantidas em títulos do Tesouro americano e dinheiro em caixa, sem malabarismos financeiros. O USDC é a aposta segura para empresas listadas na B3 que querem manter caixa em dólar sem disparar os alarmes dos seus conselhos de administração.

PayPal (PYUSD): O Gigante Adormecido Acorda

Enquanto Tether e Circle brigavam pelo mercado nativo de cripto, o PayPal assistia de longe. Em 2023, o gigante adormecido acordou e lançou o PYUSD. Agora, o foco da companhia virou agressivamente para a América Latina, aproveitando um ativo que nenhuma empresa cripto possui: uma base de mais de 400 milhões de usuários globais ativos e a confiança irrestrita do varejo tradicional.

A entrada do PayPal muda a dinâmica da guerra. A estratégia deles para a América Latina se apoia em remessas internacionais e pagamentos cross-border de e-commerce. A região é um dos maiores corredores de remessas do mundo, especialmente conectando os EUA ao México, América Central e Brasil.

O grande trunfo técnico do PayPal foi a escolha da rede Solana para expandir o PYUSD em 2024. Nossa análise aponta que essa foi uma jogada de mestre. A Solana oferece a velocidade e o baixo custo que a Tron dá à Tether, mas com um verniz de tecnologia institucional que agrada os desenvolvedores de fintechs.

O PayPal zerou as taxas para transferências de PYUSD entre contas da própria plataforma e do aplicativo Venmo (nos EUA). O plano de expansão na América Latina envolve usar a marca Xoom (seu serviço de remessas) e fechar o cerco no e-commerce. Se você opera um e-commerce no Brasil vendendo para fora, preste atenção aqui. O PayPal não está tentando te vender uma criptomoeda. Eles estão te oferecendo uma forma de receber dólares na sua conta instantaneamente, sem risco de chargeback cambial, envelopado em uma interface que sua avó saberia usar.

A barreira do PayPal é o ecossistema cripto fechado. Cripto-nativos ainda torcem o nariz para o PYUSD por ser controlado por uma corporação de pagamentos tradicional com histórico de bloquear contas de usuários. Mas o PayPal não liga para os cripto-nativos. Eles querem o consumidor comum latino-americano que deseja comprar em dólar sem pagar os 4,38% de IOF no cartão de crédito brasileiro.

O Campo de Batalha Regulatório: BACEN, CVM e as Regras do Jogo

A tecnologia é apenas metade da equação. A outra metade é a regulação. O Brasil assumiu a liderança incontestável na formulação de regras claras para ativos virtuais no Hemisfério Sul.

O Banco Central do Brasil, sob a gestão de Roberto Campos Neto, tem uma visão muito clara: tokenização da economia, integração com o Drex (o Real Digital) e abertura de mercado com supervisão rigorosa. A Resolução que definirá as regras definitivas para os VASPs (Provedores de Serviços de Ativos Virtuais) moldará o destino dos emissores de stablecoins.

O ponto central do debaté hoje é a segregação patrimonial. O BACEN quer garantir que os fundos dos clientes não se misturem com o caixa das corretoras. Para os emissores de stablecoins, a pressão recai sobre a prova de reservas.

A Circle navega essas águas com tranquilidade. A Tether terá que provar aos reguladores brasileiros que sua estrutura offshore opaca é confiável o suficiente para processar bilhões de dólares do comércio exterior nacional. O PayPal, já regulado como instituição de pagamento em diversos países, usará seu exército de advogados para garantir que o PYUSD seja tratado como moeda eletrônica tradicional, escapando das amarras mais pesadas do mercado de capitais fiscalizado pela CVM.

Implicações Práticas: O Que Isso Significa Para o Leitor

A guerra entre USDT, USDC e PYUSD não é apenas uma disputa de market share no Vale do Silício. Ela afeta o bolso das empresas e dos cidadãos brasileiros hoje.

Se você é diretor financeiro (CFO) de uma empresa que importa maquinário da China ou exporta software para os EUA, as stablecoins deixaram de ser tabu. A liquidação via USDC ou USDT reduz o custo da operação cambial em até 80% e corta o tempo de liquidação de dias para segundos. Bancos de câmbio tradicionais que não integrarem essas soluções vão perder mercado em velocidade recorde.

Para o investidor de varejo, a competição força a queda das taxas. O acesso a dólares digitais se tornou a forma mais eficiente de proteger patrimônio contra as flutuações do Real, sem precisar abrir conta em corretoras americanas complexas. Com a integração do Nubank, Mercado Pago e PicPay, comprar dólar digital tornou-se tão corriqueiro quanto pagar um boleto.

O Veredito: Quem Leva a Coroa Latino-Américana?

O mercado latino-americano não será um monopólio. Caminhamos para um cenário de oligopólio fragmentado por casos de uso.

A Tether continuará dominando o mercado cinza, as remessas P2P de balcão e os pagamentos informais. A fricção zero e a adoção inicial garantem ao USDT uma resiliência absurda, mesmo sob pressão regulatória.

A Circle vai ganhar a Faria Lima. O USDC será a escolha padrão para operações B2B, fundos de investimento, tesourarias corporativas e integrações com o Drex no Brasil. A confiança institucional não tem preço para empresas de capital aberto.

O PayPal corre por fora, mas tem o maior potencial de disrupção no varejo puro. O PYUSD pode se tornar a ponte definitiva entre o e-commerce tradicional e os trilhos de blockchain, invisível para o usuário final.

A América Latina deixou de ser apenas um mercado emergente para o ecossistema cripto. Tornou-se o laboratório principal onde o futuro do dinheiro global está sendo construído, testado e escalado. Os bancos que ignorarem essa guerra acordarão irrelevantes.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.