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International card acceptance: como lojas brasileiras podem vender para turistas estrangeiros

2024-03-29·7 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

Habilitar o DCC (Dynamic Currency Conversion) nas maquininhas reduz o atrito da compra para turistas estrangeiros, dando previsibilidade cambial. Além de melhorar a experiência do cliente, o lojista brasileiro pode ganhar uma fatia do spread cambial da transação.

O carnaval passou, mas o dinheiro estrangeiro continua circulando no Brasil. Dados recentes da Embratur apontam que o país recebeu quase 6 milhões de turistas internacionais no último ano, injetando cerca de R$ 34 bilhões na nossa economia. O problema esbarra no balcão: na hora de pagar um jantar de R$ 600 em Ipanema ou uma diária de R$ 1.200 em Trancoso, o cartão do gringo trava na maquininha.

Nós, que cobrimos os bastidores dos pagamentos brasileiros há anos, vemos o varejo perder rios de dinheiro por pura desatenção à configuração de adquirência. Lojistas de áreas turísticas costumam focar em ter um cardápio em inglês, mas esquecem que a experiência de pagamento é o último e mais crítico ponto de contato com esse cliente.

O turista americano ou europeu viaja com cartões de crédito do Chase, Barclays ou bancos digitais como N26 e Revolut. Quando ele insere esse plástico na sua maquininha e a transação passa em Reais (BRL), ele fica no escuro. Ele não sabe qual taxa de câmbio o banco emissor dele vai aplicar, nem quais tarifas ocultas aparecerão na fatura 30 dias depois. A incerteza trava o consumo.

A solução técnica para isso existe, já está no Brasil há algum tempo e atende por uma sigla que todo empreendedor do turismo deveria tatuar no braço: DCC.

O que é DCC (Dynamic Currency Conversion) e por que você precisa disso

Dynamic Currency Conversion (Conversão Dinâmica de Moeda) é uma tecnologia embarcada nos terminais de pagamento (POS) e gateways de e-commerce que identifica automaticamente a origem do cartão inserido.

Na prática, quando um turista britânico passa um cartão Visa emitido em Londres, a sua maquininha detecta o BIN (Bank Identification Number) internacional. Imediatamente, a tela oferece ao cliente duas opções: pagar em Reais (BRL) ou pagar o valor exato convertido para Libras Esterlinas (GBP).

Se ele escolhe BRL, assume o risco do câmbio do banco dele. Se ele escolhe GBP via DCC, a taxa de conversão — incluindo o spread — é fixada naquele exato segundo e exibida na tela. Transparência absoluta. O cliente sabe exatamente quantos centavos sairão da conta dele.

O pulo do gato? O DCC não é apenas um afago no cliente. Ele é uma linha de receita para o lojista.

Quando a transação é processada via DCC, a adquirente brasileira (Cielo, Rede, Stone) aplica um markup (spread) sobre o câmbio oficial. Uma parte desse spread fica com a adquirente, e a outra parte é repassada para você, lojista, como um rebate. Você fatura o valor integral do seu produto e ainda ganha uma comissão invisível sobre a conversão cambial.

A mecânica invisível: Como a adquirência internacional funciona

Aceitar cartões de fora exige entender que o caminho do dinheiro é mais tortuoso. Quando você passa um cartão Nubank na sua maquininha PagSeguro, o roteamento é doméstico. O Banco Central regula, a Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP) liquida, e tudo se resolve na nossa infraestrutura.

Quando um turista passa um cartão Bank of América, a transação cruza o oceano. A sua adquirente manda o pedido para a bandeira (Visa/Mastercard), que roteia para o banco emissor nos EUA. O emissor aprova (ou não), devolve o sinal, e a adquirente assume a responsabilidade de liquidar isso para você em Reais na sua conta no Brasil, absorvendo a complexidade da liquidação internacional.

O novo marco cambial brasileiro (Lei 14.286/2021) fácilitou brutalmente a vida das adquirentes para operar essas liquidações. Antes, a burocracia do Bacen encarecia a operação. Hoje, os trilhos estão azeitados. O dinheiro do gringo cai na sua conta no mesmo prazo D+1 ou D+30 que você já negocia para vendas nacionais.

A guerra das maquininhas: Quem faz melhor?

Nossa análise do mercado mostra que nem toda adquirente trata o lojista igual quando o assunto é aceitação internacional.

Cielo e Rede: As veteranas

Por dominarem contas de grandes redes hoteleiras e companhias aéreas, Cielo e Rede (Itaú) têm as prateleiras mais robustas para DCC no mundo físico. A Cielo chama isso comercialmente de "Conversor de Moedas". A Rede tem soluções semelhantes embarcadas nas maquininhas Smart. Geralmente, a função já vem pré-habilitada para estabelecimentos com CNAE (código de atividade) ligado a turismo, mas você precisa ligar no suporte para confirmar.

Stone e PagSeguro

Stone cresceu dominando o pequeno e médio varejo com foco em atendimento, mas no quesito internacional puro com DCC, demorou mais a massificar a oferta em comparação aos bancões. O PagSeguro foca pesadamente no processamento doméstico. Ambos aceitam cartões estrangeiros sem problemas (basta o cliente avisar o banco lá fora sobre a viagem), mas a experiência premium de conversão na tela exige negociação de taxas e terminais específicos.

O risco silencioso do bloqueio de segurança

Você abriu uma loja de artesanato de luxo no Pelourinho. Conseguiu sua maquininha. Um alemão tenta comprar uma escultura de R$ 5.000. Transação negada.

Isso acontece porque as adquirentes bloqueiam transações internacionais de alto valor por padrão (default) para evitar fraudes. Cartões gringos não exigem senha (PIN) com a mesma frequência que no Brasil; muitos dependem apenas de assinatura ou aprovação via app. Para a adquirente, o risco de chargeback é altíssimo. Ligue para o seu gerente de contas hoje e peça a calibração do seu limite de segurança para cartões emitidos no exterior.

E-commerce e o desafio do Chargeback transfronteiriço

Se você vende pacotes turísticos, transfers ou reservas de hotéis pela internet, a dinâmica muda. O gringo está comprando do sofá dele em Nova York.

Aqui, o DCC dá espaço para o MCP (Multi-Currency Pricing). O gateway de pagamento da sua loja virtual exibe os preços em Dólar ou Euro nativamente. Players globais como Adyen e Stripe são os donos desse jogo. Eles processam o pagamento na moeda do comprador e liquidam na sua conta no Brasil em Reais.

O pesadelo do e-commerce cross-border é a fraude. Como você prova que o dono do cartão realmente fez a reserva da pousada?

A solução técnica obrigatória é o protocolo 3DS2 (3D Secure 2.0). Trata-se daquela verificação silenciosa onde o gateway analisa dezenas de dados do comprador (IP, dispositivo, histórico) e, se achar suspeito, pede uma autenticação no app do banco do cliente lá fora. O 3DS2 transfere a responsabilidade do chargeback por fraude de você (lojista) para o banco emissor. Se você vende online para fora e não usa 3DS2, você está brincando de roleta russa com seu fluxo de caixa.

O futuro do dinheiro turista: Pix Internacional?

Enquanto o mercado de cartões briga pelas taxas de conversão, o Banco Central corre com a agenda do Pix Internacional (Nexus), um projeto de integração de pagamentos instantâneos entre países.

Já vemos iniciativas privadas de fintechs que geram QR Codes Pix que podem ser lidos por carteiras digitais uruguaias ou argentinas, convertendo o saldo instantaneamente. Porém, para os americanos e europeus — que não têm a cultura da transferência instantânea por QR Code madura como nós —, o cartão de crédito continuará sendo o rei absoluto por pelo menos mais uma década.

Preparar sua operação hoje para aceitar cartões internacionais com inteligência, usando DCC para monetizar o spread e 3DS2 para blindar o e-commerce, separa os amadores dos profissionais no varejo de turismo brasileiro. Revise seus contratos de adquirência. O turista está com o cartão na mão, esperando apenas que você saiba como cobrar.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.