Interoperabilidade entre blockchains: o desafio que fragmenta tokens brasileiros
Ponto-chave
A falta de comúnicação nativa entre diferentes blockchains criou 'ilhas de liquidez' no mercado de tokenização brasileiro. A adoção de protocolos de interoperabilidade institucionais e o avanço do Drex são as únicas rotas para destravar o mercado secundário de ativos reais (RWA) no país.
Imagine ter R$ 100 mil travados na sua conta do Itaú, sem qualquer possibilidade de enviar um PIX ou TED para o Nubank, Bradesco ou Banco do Brasil. Seu dinheiro existe, tem valor legal, mas só pode circular dentro daquele único banco. Absurdo? Nós concordamos. Mas é exatamente essa a realidade bizarra do mercado de tokenização no Brasil agora em 2025.
Nos últimos anos, vimos uma corrida do ouro institucional. Bancos, corretoras e fintechs brasileiras correram para tokenizar tudo: de cotas de consórcio e precatórios a debêntures e recebíveis agrícolas. O Banco Central e a CVM abriram as portas regulatórias. O volume de Ativos do Mundo Real (RWA, na sigla em inglês) tokenizados no país ultrapassou a marca de R$ 18 bilhões em 2024, segundo levantamentos do setor.
O problema estrutural que ninguém gosta de admitir nas apresentações de PowerPoint: nós construímos um arquipélago digital. O MB (Mercado Bitcoin) emite seus tokens majoritariamente na rede Polygon ou Stellar. A Vórtx QR e a BEE4 rodam suas infraestruturas em ambientes permissionados. O Itaú Digital Assets e o BTG Pactual construíram seus próprios ecossistemas baseados em EVM (Ethereum Virtual Machine) ou Hyperledger.
Cada um desses players criou um feudo tecnológico perfeito, seguro e regulado. Mas esses feudos não conversam entre si. Se você compra um token de recebível emitido na rede de um banco, não consegue transferi-lo para a carteira de custódia de outra corretora que opera em uma blockchain diferente. A interoperabilidade — ou a falta dela — tornou-se o calcanhar de Aquiles da inovação financeira brasileira.
Como chegamos ao arquipélago das blockchains
Para entender a gravidade da situação, precisamos olhar para as raízes da infraestrutura cripto no Brasil. Quando a CVM públicou a Resolução 161 e as diretrizes do Sandbox Regulatório, a ordem do dia era segurança e conformidade (compliance). O regulador queria garantir que o processo de Conheça Seu Cliente (KYC) e as regras de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (PLD) fossem seguidos à risca.
Na nossa análise técnica das plataformas aprovadas, notamos um padrão claro. Para garantir esse controle absoluto, as instituições optaram por criar 'walled gardens' — jardins murados. A lógica faz sentido do ponto de vista de risco jurídico. Se o banco controla os nós da rede e os contratos inteligentes (smart contracts) de ponta a ponta, ele garante que nenhum token será transferido para uma carteira não identificada na Receita Federal ou no COAF.
Mas a tecnologia blockchain nasceu com o propósito exato de quebrar silos. O Bitcoin e o Ethereum originais são redes abertas onde qualquer participante pode transacionar. Ao tentar forçar a tecnologia descentralizada para dentro do modelo mental centralizado do sistema financeiro tradicional dos anos 1990, criamos um Frankenstein arquitetônico.
Nós visitamos dezenas de operações de tokenizadoras brasileiras nos últimos meses. A infraestrutura média envolve uma blockchain baseada em Hyperledger Besu ou um fork do Ethereum, isolada do resto do mundo via firewalls institucionais. O resultado? Um mercado primário vibrante, onde tokens são vendidos em horas, seguido por um mercado secundário completamente morto.
O custo oculto da fragmentação no mercado brasileiro
Se você opera uma mesa de operações estruturadas ou um e-commerce de investimentos, preste atenção aqui. A fragmentação de blockchains destrói a liquidez. E sem liquidez, não existe mercado financeiro sustentável.
Imagine um investidor que compra R$ 50 mil em tokens de um Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) emitido na plataforma A. O rendimento é atrativo, digamos IPCA + 8% ao ano. Seis meses depois, esse investidor precisa de caixa imediato. Ele tenta vender o token. Onde ele vende? Apenas na plataforma A.
Se não houver nenhum comprador logado naquela exata plataforma, naquele exato momento, querendo comprar aquele exato token, o investidor fica com o ativo encalhado. Ele não pode pegar seu token de CRI e listá-lo no home broker da plataforma B, que talvez tenha milhares de compradores ávidos por renda fixa naquele dia.
A ausência de um livro de ofertas unificado (order book) gera spreads absurdos. Vemos investidores aceitando deságios de até 15% no mercado secundário apenas para conseguir sair da posição. Isso mata a proposta de valor da tokenização, que prometia justamente democratizar o acesso e aumentar a fluidez do dinheiro.
O abismo dos padrões de tokens
O buraco técnico é ainda mais profundo. Mesmo quando duas instituições brasileiras usam tecnologias compatíveis — por exemplo, ambas usam redes EVM-compatíveis como Polygon e Arbitrum —, os tokens continuam incompatíveis.
Isso ocorre devido à falta de padronização nos smart contracts de compliance. O protocolo global ERC-3643 (conhecido como T-REX) tenta resolver isso ao embutir regras de identidade diretamente no token. Mas, no Brasil, cada tokenizadora inventou sua própria roda. A corretora X verifica o KYC de um jeito no código; o banco Y verifica de outro. Um contrato inteligente não reconhece a autoridade do outro. É o equivalente a tentar plugar um pino de três pontas brasileiro em uma tomada europeia de 220V sem adaptador.
Bridges: Os 'adaptadores' falhos e o medo do COAF
No mercado cripto nativo (DeFi), o problema da interoperabilidade foi parcialmente resolvido pelas 'bridges' (pontes cross-chain). Protocolos como Wormhole ou redes como a Thorchain permitem que você envie um ativo da rede Ethereum para a rede Solana.
A mecânica básica de uma bridge tradicional é simples (e perigosa): você tranca (lock) seu ativo em um contrato inteligente na Blockchain A. A bridge verifica esse bloqueio e emite (mint) uma versão sintética desse ativo na Blockchain B. Quando você quer voltar, você queima (burn) o ativo sintético na Blockchain B e destranca o original na Blockchain A.
Por que os bancos e fintechs brasileiras rejeitam essa solução? Duas palavras: segurança e rastreabilidade.
Primeiro, as bridges são os maiores alvos de hackers do planeta. Apenas entre 2022 e 2023, mais de US$ 2,8 bilhões foram roubados em ataques a bridges cross-chain (lembre-se do caso Ronin/Axie Infinity). Um contrato inteligente de bridge centraliza bilhões de dólares em um único ponto de falha. Nenhum diretor de risco de um banco brasileiro de primeira linha vai autorizar a exposição do balanço da instituição a um código aberto auditado de forma duvidosa.
Segundo, o COAF. Quando um token passa por uma bridge descentralizada, a cadeia de custódia e a identidade do portador podem ser ofuscadas. O regulador brasileiro exige rastreabilidade ponta a ponta. Se um token de recebível do agronegócio passa por uma bridge obscura e acaba na carteira de um indivíduo sancionado, a instituição emissora no Brasil responde criminalmente.
A abordagem do Drex e a promessa de unificação
O Banco Central do Brasil sabe perfeitamente desse problema. O design do Drex (nossa Moeda Digital do Banco Central, ou CBDC) foi pensado desde o dia zero para ser a camada definitiva de liquidação e interoperabilidade institucional do país.
Na Fase 2 de testes do Drex, que domina a agenda de 2024 e 2025, o foco absoluto é privacidade e interoperabilidade. A rede do Drex roda em Hyperledger Besu. A genialidade da arquitetura proposta pelo BC é que o Drex não tenta substituir as blockchains das tokenizadoras. Ele tenta atuar como a 'clearing' (câmara de compensação) moderna.
Na prática, se o Itaú quiser vender um título público tokenizado para um cliente do Bradesco, a transação não precisa ocorrer via uma bridge insegura. Ambos os bancos têm nós na rede do Drex. O ativo (RWA) e o dinheiro (Drex) trocam de mãos atomicamente na rede do Banco Central, usando a mecânica de DvP (Delivery versus Payment - Entrega contra Pagamento).
O desafio das Provas de Conhecimento Zero (ZKP)
O grande gargalo tecnológico atual do Drex é garantir que essa interoperabilidade ocorra sem vazar dados sigilosos. Se a rede é compartilhada, o Nubank não pode ver o volume de transações que o Mercado Pago está fazendo.
As soluções de ZKP (Zero-Knowledge Proofs), desenvolvidas por empresas como Parfin (com o projeto Rayls) e testes com a tecnologia Starlight da EY, estão no centro desse debate. A matemática precisa provar que o João tem saldo para comprar o token da Maria, e que ambos têm KYC aprovado, sem revelar a identidade do João, da Maria, ou o saldo deles para os outros bancos da rede. Fazer isso em escala, com milhões de transações por segundo e baixo custo computacional, é o desafio que separa o Drex da prancheta para a vida real.
CCIP e a esperança de um padrão global (e local)
Enquanto o Drex foca no mercado doméstico, a infraestrutura brasileira precisa conversar com o capital estrangeiro. É aqui que protocolos institucionais de interoperabilidade entram em cena. O maior exemplo hoje é o CCIP (Cross-Chain Interoperability Protocol), desenvolvido pela Chainlink.
Diferente das bridges antigas que criam tokens sintéticos, o CCIP funciona mais como um sistema de mensageria ultra-seguro — frequentemente comparado ao 'TCP/IP das blockchains' ou a uma evolução do sistema SWIFT (que, aliás, é parceiro da Chainlink no desenvolvimento do protocolo).
A B3 e grandes bancos brasileiros já realizam testes com o CCIP. O modelo permite que um smart contract na rede do Drex envie uma instrução validada, junto com os metadados de compliance, para uma rede pública como a Ethereum ou para a rede de um banco em Cingapura. A transferência do valor só ocorre porque uma rede descentralizada de oráculos verifica as condições de contorno (KYC, PLD) em ambas as pontas antes de autorizar a liquidação.
Isso muda o jogo. Um fundo europeu poderá comprar cotas de um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) tokenizado no Brasil, usando Euros digitais em sua própria blockchain, com a liquidação ocorrendo de forma transparente via CCIP e Drex.
Implicações práticas: O que muda para o investidor e a fintech
Se você está construindo uma fintech, uma corretora ou liderando a área de inovação de um banco, a mensagem do mercado é clara: pare de construir silos fechados. A era de tentar monopolizar a custódia trancando o cliente na sua infraestrutura proprietária acabou.
Para as empresas do setor, a sobrevivência nos próximos três anos exige adotar uma arquitetura 'omnichain' (multi-redes). Isso significa usar padrões abertos de tokens (como o ERC-3643 para RWA), preparar APIs compatíveis com o Drex e começar a integrar oráculos de interoperabilidade institucionais.
Para o investidor comum, a resolução desse gargalo será invisível, mas profundamente sentida no bolso. Quando a interoperabilidade for resolvida, o aplicativo da sua corretora vai mostrar dezenas de tokens de renda fixa e variável com liquidez imediata. Você vai clicar em 'vender' e o dinheiro cairá na conta em segundos, independentemente de qual banco emitiu aquele ativo original. O spread vai cair drasticamente, aproximando os retornos dos tokens aos retornos reais dos ativos subjacentes.
O fim das ilhas de liquidez
Nós observamos o mercado financeiro brasileiro liderar revoluções globais antes. Fizemos isso com o SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro) em 2002, e repetimos a dose com o PIX em 2020. A tokenização de ativos é a terceira onda dessa digitalização.
O atual cenário de fragmentação, com blockchains que não se falam e tokens ilhados, é apenas as dores de crescimento de uma tecnologia incipiente. A infraestrutura de encanamento está sendo trocada com a água correndo.
Entre 2026 e 2027, com a maturação do Drex e a consolidação de protocolos como o CCIP, as barreiras entre as blockchains vão desaparecer no background tecnológico. O investidor não saberá — e não precisará saber — se o token roda em Hyperledger, Ethereum ou Solana. A interoperabilidade fará com que o trânsito de um ativo real de R$ 10 milhões seja tão banal, seguro e instantâneo quanto enviar um PIX para dividir a conta da padaria.
Perguntas Frequentes
Matheus Feijão
CEO & Fundador — ouro.capital
Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.