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Open Insurance: a regulação que vai transformar seguros como Open Finance transformou banking

2026-02-06·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

O Open Insurance quebra o monopólio de dados das grandes seguradoras, criando um ecossistema via APIs onde insurtechs e Iniciadoras de Serviços (SISS) oferecem apólices hiperpersonalizadas. A integração com o Open Finance forma a base do Open Data brasileiro.

Se você acha que o Open Finance chacoalhou o mercado financeiro, aperte os cintos. A verdadeira revolução dos dados no Brasil está apenas começando, e ela atende pelo nome de Open Insurance.

O mercado de seguros brasileiro movimentou mais de R$ 380 bilhões no último ano, com um crescimento consistente de dois dígitos. Mas, historicamente, sempre operou como uma caixa preta. Você contrata uma apólice de automóvel, paga religiosamente por cinco anos sem nenhum sinistro e, ao tentar mudar de seguradora, descobre que seu histórico de bom condutor tem pouquíssimo peso comercial na nova cotação. A seguradora A não conversa com a seguradora B. O poder de barganha fica inteiramente nas mãos das instituições.

Agora em 2026, esse modelo oligopolista de retenção de dados está com os dias contados. O Sistema de Seguros Aberto (Open Insurance ou OPIN) está entrando em sua fase de maturidade, prometendo fazer com as apólices exatamente o que o Banco Central fez com o crédito e os investimentos.

Nós, da Ouro Capital, acompanhamos o desenrolar dessa pauta desde as primeiras audiências públicas da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). Na nossa análise, o Open Insurance não é apenas um projeto de tecnologia; é uma transferência brutal de poder. O dado sai do cofre da seguradora e volta para as mãos do consumidor. E quem souber ler, processar e precificar esse dado mais rápido, vai dominar a próxima década do setor.

A anatomia da regulação: Resolução CNSP 415 e o choque de realidade

A base legal de toda essa transformação nasceu com a Resolução CNSP 415/2021, posteriormente ajustada por diversas circulares, como a Circular SUSEP 635/2021. O regulador brasileiro desenhou um cronograma agressivo, dividido em três grandes fases, espelhando a curva de aprendizado que o BACEN teve com o Open Finance.

As seguradoras tradicionais tentaram frear o ritmo. Ouvimos relatos de bastidores sobre lobbies pesados em Brasília pedindo o adiamento das fases de compartilhamento de dados pessoais. A justificativa oficial sempre esbarrava na adequação à LGPD e na complexidade tecnológica. A justificativa real? Medo de perder clientes rentáveis para concorrentes mais ágeis.

A SUSEP manteve o pulso firme. O cronograma avançou, e os players precisaram abrir os cofres. Para entender o tamanho do impacto, precisamos olhar para as engrenagens desse sistema.

Fase 1 e 2: O aquecimento e o compartilhamento de dados pessoais

A Fase 1 foi o básico bem feito: abertura de dados públicos. As seguradoras foram obrigadas a padronizar e disponibilizar via APIs públicas as informações sobre seus canais de atendimento e as condições gerais de seus produtos. Na prática, foi a criação do maior comparador de seguros do país, rodando em tempo real nos bastidores.

A Fase 2 foi onde a brincadeira ficou séria. Aqui, com o consentimento expresso do cliente, as seguradoras começaram a trocar dados sobre apólices, histórico de sinistros e perfil de risco. Imagine um motorista de aplicativo que roda 10 horas por dia e tem um seguro de vida na SulAmérica e um seguro auto na Porto Seguro. Ao compartilhar seus dados, ele permite que uma terceira empresa cruze essas informações e ofereça um pacote unificado, mais barato e focado no seu risco real.

Fase 3: A iniciação de serviços (SPIS) e a entrada das SISS

A grande virada de chave acontece na Fase 3, focada na Sociedade Iniciadora de Serviços de Seguros (SISS). Essa fase permite a execução de serviços sem que o cliente precise acessar o ambiente da seguradora. É o equivalente ao Iniciador de Transação de Pagamento (ITP) do PIX no Open Finance.

As SISS são empresas puramente tecnológicas, sem a necessidade de constituir reservas garantidoras bilionárias como as seguradoras tradicionais. O papel delas é conectar o cliente ao melhor produto, iniciar a contratação, gerenciar endossos (alterações na apólice) e até avisos de sinistro, tudo dentro de um aplicativo terceiro. Se você opera um e-commerce, preste atenção aqui. Uma SISS pode embutir a contratação de um seguro de garantia estendida diretamente no seu checkout, sem redirecionamentos, usando os dados que o cliente acabou de preencher na compra.

Sociedade Processadora de Ordem do Cliente (SPOC): A jabuticaba regulatória que deu certo?

O ecossistema brasileiro de seguros tem uma peculiaridade fascinante. Ao contrário do Open Finance, onde a governança é descentralizada e as instituições se conectam em uma malha direta (peer-to-peer), a SUSEP optou por um modelo centralizado através da SPOC (Sociedade Processadora de Ordem do Cliente).

A SPOC atua como um hub tecnológico obrigatório. Todas as requisições de compartilhamento de dados e iniciação de serviços passam por essa infraestrutura central. A ideia do regulador foi padronizar a segurança, garantir a interoperabilidade e reduzir o custo de integração para as insurtechs menores.

Conversamos com desenvolvedores das principais insurtechs do país. A opinião é dividida. Alguns elogiam a SPOC por simplificar a conexão — você integra com um único hub em vez de construir APIs específicas para cada uma das dezenas de seguradoras do mercado. Outros críticam o modelo, apontando que ele cria um gargalo tecnológico e um ponto único de falha (Single Point of Failure).

Os números mostram que a aposta da SUSEP está se provando acertada. A padronização reduziu o time-to-market de novos produtos de seguros em mais de 40%, segundo relatórios recentes de consultorias do setor. A SPOC se tornou o motor invisível que faz o Open Insurance rodar no Brasil.

Insurtechs na linha de frente: A guerra da precificação dinâmica

O mercado de seguros tradicional precifica o risco olhando para o retrovisor. Eles usam tabelas atuariais genéricas baseadas em idade, CEP e sexo. O Open Insurance permite precificar olhando para o painel do carro — em tempo real.

Empresas como a Pier e a Justos nasceram com a mentalidade de dados em sua essência. A Justos, por exemplo, útiliza telemetria embarcada no smartphone para medir como o cliente dirige (aceleração, frenagem, uso do celular ao volante) e oferece descontos baseados nesse comportamento. O pulo do gato é cruzar essa telemetria com o histórico de seguros que vem via Open Insurance.

Se um cliente da Bradesco Seguros decide cotar na Justos, ele autoriza o compartilhamento de seu histórico de sinistros dos últimos cinco anos. A insurtech recebe esses dados em segundos via API, cruza com o score de direção do celular e emite uma apólice hiperpersonalizada, muitas vezes 30% mais barata que a renovação da seguradora atual.

Do lado das grandes corporações, a resposta tem sido agressiva. A Porto Seguro e a BB Seguros estão investindo bilhões em modernização de sistemas legados. Elas entenderam que não podem ser apenas 'fábricas de apólices'; precisam ser plataformas de dados. O mercado hoje exige agilidade, e as incumbents estão comprando insurtechs e formando parcerias estratégicas para não perderem relevância.

O dilema do corretor: Extinção ou evolução forçada?

Sempre que falamos de Open Insurance, a pergunta inevitável surge: o corretor de seguros vai acabar? A resposta curta é não. A resposta longa é: o corretor tirador de pedidos vai desaparecer, mas o corretor consultor de riscos vai enriquecer.

O Brasil tem mais de 120 mil corretores de seguros ativos. Historicamente, eles dependem de sistemas engessados, os famosos 'multicálculos', para cotar apólices em várias seguradoras. O Open Insurance transforma o corretor em um agregador de dados financeiros.

Imagine um corretor que atende uma pequena frota de caminhões. Com o consentimento do cliente, o corretor puxa o histórico de sinistros, as multas registradas, os dados de telemetria e até o histórico de crédito (via Open Finance). Com esse painel completo, ele monta um pacote de risco sob medida e coloca as seguradoras para leiloar quem oferece a melhor taxa.

A regulação prevê que os corretores podem se organizar para criar suas próprias SISS, ou útilizar plataformas white-label de terceiros. A tecnologia não substitui a confiança que o empresário tem no seu corretor, mas substitui a ineficiência operacional de cotar planilhas manualmente.

Embedded Insurance: O seguro invisível ganha tração

Uma das consequências mais lucrativas do Open Insurance é a viabilização em larga escala do Embedded Insurance, ou seguro embutido. A lógica é simples: oferecer proteção no momento exato em que o cliente sente a dor ou o risco, dentro de uma jornada de compra não relacionada a seguros.

Você compra uma bicicleta elétrica de R$ 15.000 no Mercado Livre. Com o Open Insurance, a API do Mercado Pago (que já sabe do seu perfil de crédito) conversa instantaneamente com uma seguradora parceira (como a 180 Seguros). Antes de finalizar o checkout, aparece um botão: 'Adicionar seguro contra roubo por R$ 45 mensais'. Sem preencher formulários intermináveis, sem vistoria, com um clique.

A iniciação de serviço (Fase 3) garante que a apólice seja emitida e cobrada na mesma fatura do cartão. As estimativas de mercado apontam que o Embedded Insurance representará cerca de 25% de todo o faturamento de seguros massificados no Brasil até o final da década.

A fronteira final: Convergência entre Open Finance e Open Insurance

O Brasil é pioneiro mundial na visão integrada de dados financeiros. Segundo dados do BACEN de março/2025, o Open Finance já ultrapassou a marca de 50 milhões de consentimentos ativos. A SUSEP e o BACEN desenharam suas regulações para serem interoperáveis.

Quando o Open Finance (bancos, investimentos, câmbio) se funde com o Open Insurance (seguros, previdência, capitalização), chegamos ao ecossistema de Open Data Financeiro, ou Open Finance Brasil em sua forma completa.

Na prática, isso significa que o seu banco saberá quando a sua apólice de seguro residencial vai vencer e poderá fazer uma oferta preditiva usando o saldo da sua conta corrente. Significa que a seguradora poderá oferecer um seguro prestamista mais barato porque acessou seu histórico de pagamentos no Nubank e viu que você é um excelente pagador.

A convergência elimina a fricção. O cliente deixa de enxergar 'seguro' e 'banco' como coisas separadas e passa a consumir 'proteção financeira' de forma fluida.

O Open Insurance brasileiro não é apenas uma cópia de modelos europeus. É uma infraestrutura nativa, pensada para as proporções continentais e as complexidades do nosso mercado. As regras do jogo mudaram. A assimetria de informação acabou. Para as seguradoras que continuarem operando como no século passado, o Open Insurance será um asteroide. Para as empresas obcecadas por dados e experiência do cliente, será o maior motor de crescimento da história do setor.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.