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Pix e programas de pontos: A verdade inconveniente sobre acumular milhas pagando à vista

2024-09-05·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

Acumular pontos diretamente pelo trilho do Pix é financeiramente inviável devido à ausência da taxa de intercâmbio (MDR). As alternativas atuais envolvem pagar taxas abusivas no 'Pix no Crédito' ou usar links de afiliados do varejo, onde o ponto atua como custo de aquisição (CAC).

O brasileiro desenvolveu uma obsessão dupla na última década: milhas aéreas e Pix. Vemos grupos de Telegram com milhares de pessoas debatendo freneticamente o custo do milheiro, enquanto o Banco Central reporta que o Pix engoliu o mercado de pagamentos. Foram mais de 41 bilhões de transações apenas em 2023.

O choque de realidade baté na porta rápido. Você tenta pagar aquele serviço de R$ 5.000 com Pix esperando uma chuva de pontos na Livelo ou na Esfera. O dinheiro sai da conta em 3 segundos. Os pontos? Nunca chegam. Historicamente, pagamentos à vista e programas de fidelidade são água e óleo. O Pix democratizou a transferência de valores, mas implodiu a principal engrenagem que financiava as viagens de classe executiva da classe média alta.

Na nossa análise diária do mercado de adquirência e emissão de cartões, uma pergunta domina as mesas de inovação dos bancões e fintechs: como criar fidelidade em um trilho de pagamento que custa zero? Analisamos as poucas iniciativas que tentam unir Pix e milhas, dissecamos a matemática por trás dessas operações e mostramos por que a conta raramente fecha para o consumidor final.

A anatomia de uma milha: Por que o Pix quebrou a roda

Para entender por que o Pix não dá pontos, precisamos olhar para os bastidores de uma transação de cartão de crédito. Nada no mercado financeiro é de graça.

Quando você passa R$ 1.000 no cartão de crédito em uma loja, o lojista não recebe R$ 1.000. Ele paga uma taxa chamada MDR (Merchant Discount Rate), que varia historicamente entre 1,5% e 4%, dependendo do prazo de recebimento e do poder de negociação da empresa. Parte desse MDR vai para a maquininha (Stone, Cielo, PagSeguro), parte vai para a bandeira (Visa, Mastercard) e a maior fatia vai para o banco emissor do cartão (Itaú, Bradesco, Nubank).

Essa fatia do banco emissor é a famosa Tarifa de Intercâmbio (TIC). É com esse dinheiro invisível para o consumidor que o banco compra pontos da Smiles, Latam Pass ou TudoAzul e credita na sua conta. Você acha que o banco está te dando pontos pela sua lealdade. Na prática, quem pagou a sua passagem para Miami foi o lojista que embutiu o custo do cartão no preço do produto.

Entra o Pix. A genialidade do Banco Central foi criar uma infraestrutura pública de liquidação instantânea. Para pessoas físicas, o custo é zero. Para empresas (PJ), a taxa média de recebimento via Pix gira em torno de 0,99% — e muitas vezes é negociada a zero para atrair fluxo de caixa.

Sem MDR robusto, não há Tarifa de Intercâmbio. Sem Tarifa de Intercâmbio, o banco não tem margem para comprar pontos. A matemática é brutal e inflexível. Pedir pontos no Pix tradicional é pedir para o banco operar no prejuízo.

A miragem do "Pix no Crédito"

A indústria financeira não desiste fácil. Percebendo a frustração dos "milheiros", bancos e fintechs lançaram a principal gambiarra do mercado atual: o Pix no Crédito.

Nubank, Itaú, RecargaPay, PicPay e Mercado Pago oferecem a funcionalidade. Você faz um Pix para o encanador, mas o valor é cobrado na fatura do seu cartão de crédito. Como a transação passa pelo trilho do cartão, ela gera pontos. Parece o melhor dos dois mundos. O lojista ou prestador de serviço recebe na hora, em dinheiro vivo, e você acumula suas preciosas milhas.

O problema? O custo financeiro destrói qualquer benefício.

Dissecando as taxas: A conta não fecha

Vamos aos números reais. As taxas cobradas pelas instituições para emitir um Pix no Crédito variam brutalmente, mas raramente ficam abaixo de 3,99% ao mês, podendo chegar a quase 10% dependendo do número de parcelas, além da incidência de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).

Imagine que você precisa fazer um Pix de R$ 10.000 e decide usar o limite do seu cartão Nubank Ultravioleta (que gera 1% de cashback, conversível em milhas Smiles com bônus).

Se a taxa do Pix no Crédito for de 3,99%, você pagará R$ 399 de juros, mais cerca de R$ 38 de IOF. Total: R$ 437 de custo na operação.

O que você ganha em troca? Os R$ 10.000 geram R$ 100 de cashback. Se você transferir para a Smiles com 100% de bônus, terá um equivalente a um retorno financeiro de uns R$ 150 a R$ 200 (dependendo do preço do milheiro no mercado paralelo).

Você gastou R$ 437 para "comprar" R$ 200 em benefícios. É uma destruição de patrimônio disfarçada de vantagem. O Pix no Crédito só faz sentido matemático em duas situações extremas: uma necessidade urgente de liquidez (onde a alternativa seria entrar no cheque especial, que é ainda mais caro) ou uma falha de precificação do banco em uma campanha promocional muito agressiva e temporária.

O varejo como salvador: O modelo "Compre e Ganhe"

Se o trilho de pagamento não banca a milha, quem banca? O marketing. É aqui que encontramos a única forma inteligente e viável de acumular pontos pagando com Pix hoje no Brasil.

Plataformas como Livelo, Esfera e Shopping do Itaú mudaram a lógica. Em vez de atrelar o ponto ao meio de pagamento, eles atrelam o ponto à originação da venda. Funciona assim: você entra no app da Livelo, clica no banner da Amazon ou da Magalu, é redirecionado para a loja e faz a compra. Na hora de pagar, você escolhe o Pix.

Você ganha, por exemplo, 5 pontos por real gasto. Se comprar uma TV de R$ 3.000 no Pix, acumula 15.000 pontos.

Como isso é possível? Magia? Não, Custo de Aquisição de Cliente (CAC). O varejista entende que o programa de fidelidade gerou a venda. Em vez de pagar o Google ou o Facebook por aquele clique, o lojista paga uma comissão de afiliado para a Livelo. A Livelo pega essa comissão em dinheiro, transforma uma parte em pontos e repassa para você.

Nesse cenário, o Pix é até benéfico para o lojista. Como ele não vai pagar a taxa do cartão de crédito, a margem da venda é maior, o que permite que ele ofereça promoções mais agressivas de acúmulo de pontos (como 10 pontos por real) para quem paga no Pix. Essa é a verdadeira convergência sustentável entre pagamentos instantâneos e fidelidade.

Programas de Fidelidade de Nicho e Fintechs

Algumas instituições tentam criar ecossistemas próprios para incentivar o uso do Pix dentro de casa. Observamos o C6 Bank, por exemplo, que no início da operação do Pix concedia pontos C6 Atoms mensais simplesmente por você manter suas chaves Pix cadastradas lá (CPF e celular).

Não era uma recompensa transacional (por pagamento), mas sim um incentivo de relacionamento. O banco queria ser a sua conta principal. Dar 500 pontos por mês era o custo de te manter engajado no aplicativo.

Outro movimento interessante vem do varejo físico via programas de coalizão, como o Stix (Raia, Drogasil, Pão de Açúcar). Você vai à farmácia, informa o CPF, paga com Pix e ganha pontos Stix. Novamente, o ponto está atrelado à identificação do cliente no caixa (o CRM da farmácia) e não ao meio de pagamento em si. A farmácia economiza na taxa da maquininha e te devolve uma fração desse valor em pontos para garantir que você volte na semana que vem.

Open Finance e Pix Automático: A próxima fronteira

O mercado de pagamentos brasileiro não dorme. Duas inovações do Banco Central vão reescrever as regras da fidelidade nos próximos anos: o Open Finance e o Pix Automático (previsto para junho de 2025).

Com o Pix Automático, academias, escolas e serviços de assinatura poderão debitar valores diretamente da sua conta via Pix, mediante autorização prévia. Isso ataca o coração do faturamento dos cartões de crédito: a recorrência.

Como os bancos vão convencer você a colocar a mensalidade da escola no Pix Automático do banco A e não do banco B? Através de benefícios cruzados alimentados pelos dados do Open Finance.

Na nossa visão, os bancos vão parar de dar pontos por transação isolada. Eles vão olhar para o seu "LTV" (Lifetime Value). O algoritmo do banco vai calcular: "Esse cliente trouxe o salário via portabilidade, autorizou o Open Finance mostrando que tem R$ 50 mil investidos na concorrência e colocou 5 contas no Pix Automático. Vamos dar 5.000 pontos por mês para ele não ir embora."

A fidelidade deixa de ser sobre "como você paga" e passa a ser sobre "quem você é" dentro da instituição financeira.

O que o mercado de pagamentos aprendeu

Se você opera um e-commerce ou um pequeno negócio, preste atenção aqui. Tentar emular os programas de pontos dos cartões de crédito oferecendo "cashback no Pix" saindo da sua margem pura é suicídio financeiro. O custo de gerenciar um programa de fidelidade independente é altíssimo.

O lojista inteligente usa o desconto à vista do Pix como ferramenta de conversão imediata. Se você economiza 3% de taxa de cartão, dê 2,5% de desconto no Pix. É um benefício instantâneo, tangível, que o brasileiro já se acostumou a buscar. Deixe o jogo complexo das milhas para as grandes redes de afiliação.

Para o consumidor final, a regra de bolso é clara. Esqueça a ideia de pagar o pintor ou a padaria no Pix esperando acumular milhas. O trilho financeiro não permite isso.

Concentre sua estratégia de acúmulo em duas frentes: os cartões de crédito de alta renda para os gastos do dia a dia (onde o lojista já precificou a taxa do cartão) e os portais de "Compre e Ganhe" para compras planejadas de varejo, usando o Pix apenas quando o bônus de pontos do afiliado superar largamente qualquer benefício do cartão.

O Pix matou a milha fácil. Mas premiou o consumidor e o lojista que sabem fazer conta. E no mercado financeiro, saber fazer conta sempre rende os melhores dividendos.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.