ouro.capital
||
regulatorio

Regulação de Buy Now Pay Later no Brasil: o BACEN vai apertar o cerco

2025-12-05·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

O Banco Central prepara uma ofensiva regulatória para equiparar o Buy Now Pay Later (BNPL) às linhas de crédito tradicionais. A exigência de maior alocação de capital e transparência no Custo Efetivo Total (CET) mudará a economia das fintechs e o modelo de vendas do varejo brasileiro.

Acompanhamos o mercado financeiro brasileiro há mais de uma década e meia e poucas vezes vimos uma tempestade perfeita se formar com tanta clareza. O Brasil sempre foi o país do crediário. Inventamos o parcelamento muito antes das startups do Vale do Silício cunharem o termo 'Buy Now Pay Later' (BNPL). Mas a digitalização agressiva desse modelo nos últimos três anos acendeu alertas vermelhos em Brasília. O Banco Central do Brasil (BACEN), agora sob a batuta de Gabriel Galípolo, sinaliza que a festa do crédito invisível está com os dias contados.\n\nHoje, 75% das compras no e-commerce brasileiro envolvem algum tipo de parcelamento. As fintechs surfaram essa onda transformando o velho carnê da Casas Bahia em algoritmos de aprovação de crédito em milissegundos. Nomes como Nubank, Mercado Pago, Koin e Provu lideram uma revolução silenciosa, oferecendo Pix Parcelado e boleto fatiado diretamente no checkout das lojas. O consumidor adora. O varejista precisa. O problema? Uma fatia gigantesca dessa operação opera em um limbo regulatório que camufla o risco sistêmico.\n\nNa nossa leitura, o BACEN não quer matar a inovação. A autarquia quer apenas garantir que quem empresta dinheiro tenha colchão de liquidez para segurar o tranco quando a inadimplência bater à porta. E ela sempre bate. Vamos destrinchar o que está na mesa dos reguladores e como isso vai reescrever as regras do jogo para adquirentes, bancos digitais e para o seu bolso.\n\n## A reinvenção do crediário e o elefante na sala\n\nO brasileiro respira parcelamento. Historicamente, o Parcelamento Sem Juros (PSJ) no cartão de crédito foi a alavanca do consumo da classe média. Só que o PSJ carrega um custo oculto: o lojista embute a taxa de antecipação e o risco de crédito no preço à vista do produto. Quem paga à vista, subsidia quem parcela. Esse modelo funcionou bem enquanto os juros básicos estavam controlados e a inadimplência diluída nos lucros dos grandes emissores de cartão.\n\nAs fintechs perceberam uma brecha. Em vez de depender dos trilhos da Visa ou Mastercard, elas começaram a oferecer crédito direto no ponto de venda (Point of Sale Lending). O cliente clica em 'comprar', a fintech paga o lojista à vista (cobrando um MDR - Merchant Discount Raté - polpudo) e assume o risco de cobrar o consumidor em 4, 6 ou 12 vezes. Nasceu assim o BNPL tupiniquim, turbinado recentemente pelo Pix.\n\nO elefante na sala é a natureza jurídica dessa operação. Muitas dessas transações não são registradas formalmente como operações de crédito sob a Resolução CMN 4.656 (que rege as Sociedades de Crédito Direto - SCD). Algumas empresas operam como correspondentes bancários de instituições menores, outras usam estruturas de fomento mercantil ou antecipação de recebíveis mascaradas. O resultado prático é uma subnotificação do endividamento das famílias no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central. O BACEN olha para o painel de controle e vê um nível de endividamento 'X', quando na verdade, com o BNPL oculto, o buraco é '2X'.\n\n## O que o BACEN está mapeando (e por que a conta não fecha)\n\nConversamos com fontes internas no regulador e o diagnóstico é claro: o risco de crédito está sendo subprecificado. Quando um banco tradicional emite um cartão de crédito, ele precisa seguir as regras de Basileia. Para cada real emprestado, há uma exigência de capital próprio imobilizado para garantir a solvência da instituição. O modelo de BNPL, operado via Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) ou por factorings não reguladas, dribla essa exigência pesada de capital.\n\nO BACEN observa a inadimplência estrutural do país. Com a taxa Selic oscilando e a renda média achatada, carteiras de crédito sem garantia (unsecured credit) são bombas-relógio. No crédito rotativo, as taxas passavam de 400% ao ano antes da Lei do Desenrola (Lei 14.690/2023) impor o teto de 100% sobre o valor da dívida original. Com o rotativo capado, os grandes bancos (representados pela Febraban) começaram a pressionar o regulador: 'Se nós temos limite de juros e regras rígidas de capital, por que as fintechs de BNPL operam soltas?'\n\nA pressão funcionou. O regulador mapeou que o BNPL está canibalizando o crédito pessoal tradicional, mas sem as mesmas amarras de compliance e Prevenção à Lavagem de Dinheiro (PLD/COAF). A conta não fecha porque o custo de aquisição de clientes (CAC) das fintechs só se sustenta se houver volume massivo de aprovação. Se o BACEN exigir provisionamento igual ao dos bancões, as margens dessas startups, que já operam no limite, derretem da noite para o dia.\n\n## A guerra das maquininhas contra os bancões: Onde o BNPL entra\n\nPara entender a regulação que vem aí, você precisa olhar para a guerra de narrativas. De um lado, Itaú, Bradesco e Santander querem limitar o Parcelamento Sem Juros a um máximo de seis parcelas. Eles argumentam que o PSJ longo (12x ou mais) gera um custo de capital absurdo e é o grande vilão das taxas do rotativo. Do outro lado, Zetta e Abranet (associações que representam Nubank, Mercado Pago, Stone, PagSeguro) defendem o PSJ com unhas e dentes, afirmando que limitá-lo destruiria o varejo brasileiro.\n\nO BNPL entrou nessa briga como uma rota de fuga. Se o BACEN ceder aos bancões e limitar o parcelamento no cartão de crédito, as fintechs já têm a infraestrutura pronta para assumir esse volume via Pix Parcelado ou boleto. É uma jogada de mestre. O lojista desliga a maquininha da Cielo ou da Rede e liga o checkout transparente do Mercado Pago ou da Provu.\n\nAqui o BACEN intervém. A diretoria de regulação não vai permitir arbitragem regulatória. Se uma operação tem cheiro de crédito, cor de crédito e risco de crédito, ela será taxada e regulada como crédito. Isso significa reportar cada transação de R$ 50 no SCR, impactando o score do cliente em tempo real.\n\n### Pix Parcelado: O Cavalo de Troia do crédito\n\nO Pix Parcelado merece um capítulo à parte. Ele é a principal alavanca de crescimento do BNPL hoje no Brasil. Instituições como PicPay e Nubank permitem que o cliente faça um Pix para o lojista (que recebe à vista, sem pagar taxa de adquirência), enquanto o cliente assume uma dívida com o banco em até 24 vezes, com juros.\n\nIsso é um empréstimo pessoal travestido de meio de pagamento. O BACEN demorou a regulamentar o Pix Garantido (a versão oficial do BC para essa mecânica). Enquanto o produto oficial não sai, o mercado criou suas próprias regras. A nova regulação vai padronizar essa oferta. O regulador exigirá que o Custo Efetivo Total (CET) seja esfregado na cara do consumidor antes da confirmação da biometria. Chega de 'taxa de conveniência' escondida nas entrelinhas do aplicativo.\n\n## Regulação na prática: O que muda para as fintechs e varejistas\n\nNa nossa análise, o pacote de medidas do BACEN para o BNPL em 2026 vai se basear em três pilares fundamentais: Transparência, Capital e Risco.\n\nPrimeiro, a transparência. Hoje, muitas plataformas de BNPL fazem parcerias com varejistas (como a Via Varejo e Magalu) para oferecer 'taxa zero'. O cliente compra uma geladeira de R$ 3.000 em 10 vezes sem juros pelo carnê digital. O que o BACEN vai exigir é a desagregação do preço. Se a mesma geladeira custa R$ 2.600 no Pix à vista, há um juro implícito de R$ 400. O regulador forçará as plataformas a exibir esse juro como CET. Isso muda o jogo psicológico do consumo. Quando o brasileiro ver que está pagando 35% ao ano de juros embutidos, a conversão no checkout vai cair.\n\nSegundo, alocação de capital. O BACEN vai enquadrar as originadoras de BNPL em tiers de risco (S1 a S5, conforme a Resolução 4.553). Mesmo fintechs menores (S4 e S5) terão que demonstrar liquidez diária compatível com a carteira de crédito gerada. Se a startup usa um FIDC para fundear a operação, o regulador exigirá que a fintech retenha uma cota subordinada maior, assumindo a primeira perda em caso de calote. Acabou a brincadeira de 'originar o crédito e passar o risco para a frente'.\n\nTerceiro, reporte de risco. A integração obrigatória e tempestiva (quase D+0) com o Sistema de Informações de Créditos (SCR) e com o Cadastro Positivo será mandatória. Se um consumidor atrasar a parcela do tênis comprado via BNPL, essa informação travará imediatamente o limite do cartão de crédito dele no Itaú. O mercado financeiro passará a enxergar o risco de forma holística.\n\n## Implicações práticas: Sobrevivência no aperto regulatório\n\nSe você opera um e-commerce ou investe em fintechs, preste atenção aqui. O aperto regulatório vai causar uma consolidação brutal no mercado de pagamentos brasileiro. Operar crédito no Brasil é esporte de contato pesado. Não basta ter um aplicativo bonito; é preciso ter custo de funding barato (dinheiro em caixa para emprestar).\n\nBancos digitais com licença completa e captação de depósitos à vista (CDBs a 100% do CDI) como Nubank, Banco Inter e Mercado Pago vão sobreviver e engolir as operações menores. Fintechs independentes de BNPL que dependem de FIDCs com taxas de captação altas (CDI + 5% ou 6%) serão espremidas. Elas terão que repassar o custo do capital exigido pelo BACEN para o lojista (aumentando o MDR) ou para o consumidor (aumentando os juros). Como o varejo opera com margens líquidas pífias (frequentemente abaixo de 3%), os lojistas não vão aceitar pagar mais caro pela originação da venda.\n\nNa prática, veremos fusões e aquisições. Varejistas transformarão suas operações de crediário em parcerias white-label com grandes bancos, abandonando as startups aventureiras. A regulação vai limpar o mercado, deixando apenas quem tem balanço patrimonial para aguentar o tranco de uma economia emergente.\n\n## O futuro do parcelamento no Brasil\n\nAcreditamos que o Buy Now Pay Later não vai acabar. A cultura do parcelamento está no DNA da economia brasileira. O que vai acabar é a arbitragem regulatória. O BNPL deixará de ser uma feature mágica de tecnologia para se tornar exatamente o que sempre foi: uma linha de crédito pessoal ao consumo.\n\nCom o BACEN apertando o cerco, o Brasil caminha para um modelo mais maduro, semelhante ao que a FCA (Financial Conduct Authority) está implementando no Reino Unido com a Klarna. O crédito será mais transparente, um pouco mais caro na ponta, mas sistemicamente muito mais seguro. Para o ecossistema financeiro, é um remédio amargo, porém necessário, para evitar que a inovação tecnológica se transforme na próxima crise de superendividamento nacional.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.