ouro.capital
||
crypto

A Ascensão da Base: Por Que a L2 da Coinbase Virou o Epicentro do DeFi Brasileiro

2025-06-23·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A rede Base assumiu a liderança na preferência dos desenvolvedores brasileiros de DeFi devido à integração nativa com a Coinbase, taxas de transação centaváveis pós-Dencun e um forte ecossistema de infraestrutura. Projetos locais de RWA e stablecoins estão migrando em massa para aproveitar a liquidez global e a usabilidade simplificada que imita a experiência do Pix.

Se você andou pelos corredores dos principais hackathons de Ethereum e eventos cripto em São Paulo ou no Rio de Janeiro agora em 2025, esbarrou em uma mudança de guarda silenciosa, mas agressiva. As camisetas e os brindes da Polygon e da Arbitrum, onipresentes até pouco tempo atrás, começaram a sumir. O azul da Base tomou conta. A rede Layer 2 (L2) incubada pela Coinbase deixou de ser apenas uma aposta corporativa americana para se tornar o terreno fértil favorito dos desenvolvedores de Finanças Descentralizadas (DeFi) no Brasil.

Observamos uma migração em massa de talentos técnicos e capital. Fundadores de startups de tokenização, criadores de protocolos de rendimento e engenheiros de smart contracts estão reescrevendo seus roadmaps. A pergunta que fazíamos nas redações há um ano era se a Base conseguiria competir com redes estabelecidas. A resposta chegou em forma de bilhões de dólares em Valor Total Bloqueado (TVL) e um volume de transações que frequentemente supera a própria rede principal do Ethereum.

Mas o que exatamente está puxando o ecossistema brasileiro para dentro dos servidores da Coinbase? A resposta envolve uma mistura pragmática de custos irrisórios, distribuição em massa e uma infraestrutura que finalmente permite criar aplicativos cripto com a mesma fluidez de um aplicativo de banco digital tradicional brasileiro.

O Fim da Guerra das L2s e a Vitória do OP Stack

Para entender o domínio da Base, precisamos voltar rápidamente os ponteiros. Historicamente, o Ethereum sofria com taxas de rede (gas) proibitivas. A solução arquitetônica foi transferir a execução das transações para camadas secundárias (Layer 2), pacotar essas transações e enviar apenas o recibo para a camada principal (Layer 1). Durante anos, assistimos a uma guerra brutal entre Optimism, Arbitrum, Polygon e zkSync para atrair desenvolvedores.

A Coinbase, em vez de construir uma tecnologia do zero, fez uma jogada de mestre: adotou o OP Stack, a tecnologia de código aberto desenvolvida pela Optimism. O resultado? A Base nasceu interoperável, testada em batalha e, o mais vital, conectada diretamente às veias da maior corretora de criptomoedas dos Estados Unidos.

Quando a atualização Dencun (EIP-4844) do Ethereum foi implementada, introduzindo os chamados 'blobs' de dados, as taxas na Base despencaram de dólares para frações de centavos. Para o desenvolvedor brasileiro, acostumado com a gratuidade e a instantaneidade do Pix, essa foi a peça que faltava no quebra-cabeça. Não dá para oferecer um protocolo de microcrédito ou tokenização de recebíveis agrícolas se a taxa de transação custa o equivalente a um café expresso na Faria Lima.

O Ímã de Devs Brasileiros: Liquidez e Abstração de Conta

Conversando com CTOs de fintechs brasileiras nas últimas semanas, um padrão claro emerge. A escolha da blockchain base para um novo projeto não é mais uma decisão puramente ideológica sobre descentralização máxima. É uma decisão de negócios focada em Aquisição de Clientes (CAC).

O Efeito 'Smart Wallet'

A grande barreira do DeFi sempre foi a experiência do usuário (UX). Anotar 12 palavras em um pedaço de papel e entender o conceito de gas nativo afasta 99% da população brasileira. A Base resolveu isso implementando agressivamente a Abstração de Conta (Account Abstraction - ERC-4337) através da Coinbase Smart Wallet.

Na prática, um usuário brasileiro hoje pode criar uma carteira na Base usando apenas a biometria do celular (Passkeys), sem nunca ver uma seed phrase. As taxas de transação podem ser subsidiadas pelo próprio aplicativo (paymasters). O aplicativo DeFi passa a ter a mesma fricção de uso do Nubank, Mercado Pago ou PicPay. Para os desenvolvedores brasileiros que buscam escalar seus produtos para o varejo, essa infraestrutura pronta poupa meses de engenharia complexa.

O Funil de 100 Milhões de Usuários

Outro fator brutal de atração é a liquidez. A Coinbase possui mais de 100 milhões de usuários verificados globalmente. A ponte (bridge) entre a conta da corretora e a rede Base é invisível. Quando um desenvolvedor brasileiro lança um protocolo de liquidez na Base, ele não está pescando apenas no pequeno aquário dos 'cripto nativos' locais. Ele tem acesso direto a uma base global de capital sedenta por rendimento.

Protocolos nativos da Base, como a exchange descentralizada Aerodrome, engoliram a liquidez do mercado ao oferecer incentivos agressivos. Projetos brasileiros rápidamente perceberam que integrar seus tokens e pools de liquidez no Aerodrome gera um volume de negociação que eles jamais alcançariam isoladamente em redes mais fragmentadas.

O Casamento Perfeito: RWA Brasileiro e a Base

O Brasil é indiscutivelmente um dos líderes globais na tokenização de Ativos do Mundo Real (RWA). A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), através de sandboxes regulatórios e da Resolução 175, abriu caminho para a digitalização de fundos de investimento, debêntures e precatórios.

O que observamos é uma intersecção fascinante. Empresas brasileiras de infraestrutura blockchain, como Parfin e plataformas de tokenização, estão testando ou migrando ativamente para a Base. O motivo? O RWA exige um ambiente previsível. Se você está tokenizando recebíveis de uma safra de soja no Mato Grosso (CRA), você precisa garantir que o custo de transferência desse token seja ínfimo e constante, independentemente do congestionamento da rede.

Além disso, as stablecoins lastreadas em Reais, como o BRZ da Transfero, encontram na Base um ambiente perfeito para prosperar. Com taxas quase nulas, o uso do BRZ na Base para remessas internacionais ou pagamentos B2B começa a competir diretamente com os trilhos tradicionais de câmbio (FX), oferecendo liquidação em segundos 24 horas por dia.

Drex, BACEN e a Ponte com L2s Públicas

Não podemos falar do mercado brasileiro sem mencionar o Drex, a moeda digital do Banco Central (CBDC). O BACEN está construindo o Drex em uma rede permissionada (Hyperledger Besu). No entanto, o mercado financeiro já entende que o valor real será destravado quando houver interoperabilidade entre o ambiente regulado do Drex e as redes públicas onde a liquidez global reside.

A Base surge como uma candidata natural para ser a principal 'camada de liquidação pública' para instituições brasileiras. Como a Coinbase é uma empresa de capital aberto nos EUA (NASDAQ: COIN), sujeita a auditorias rigorosas e compliance rigoroso, os departamentos de compliance dos grandes bancos brasileiros (Itaú, BTG Pactual, Bradesco) sentem-se muito mais confortáveis em interagir com a Base do que com L2s controladas por fundações anônimas ou DAOs opacas.

Ferramentas de interoperabilidade, como o CCIP da Chainlink, já estão sendo testadas para criar pontes seguras entre redes privadas de consórcios bancários e a Base. Isso permite que um título público tokenizado no Drex possa ser usado como garantia (colateral) em um protocolo DeFi na Base para tomar um empréstimo em USDC. É a fusão do mercado financeiro tradicional (TradFi) com o DeFi, acontecendo agora, nos bastidores.

Implicações Práticas: O que isso significa para o mercado?

Se você é um desenvolvedor, um fundador de fintech ou um investidor acompanhando esse mercado, a ascensão da Base traz implicações táticas imediatas.

Primeiro, a fragmentação da liquidez está diminuindo. Nos últimos anos, vimos projetos lançarem tokens em cinco, seis redes diferentes, diluindo seus esforços de marketing e liquidez de mercado. Hoje, a estratégia vencedora para muitos projetos brasileiros tem sido focar exclusivamente na Base no lançamento, consolidar a base de usuários e só depois expandir.

Segundo, o padrão de design de aplicativos mudou. Se o seu DApp (aplicativo descentralizado) ainda exige que o usuário aprove manualmente cada transação, pague o próprio gas em ETH e use extensões de navegador complexas, seu produto já nasceu obsoleto. A Base elevou a barra da expectativa do usuário. O mercado exige experiências 'gasless' (sem taxa visível) e logins sociais.

Terceiro, os incentivos de capital. A Coinbase aloca continuamente milhões de dólares em financiamento (grants) e recompensas para desenvolvedores que constroem infraestrutura útil na Base. O programa 'Build on Base' tem sido uma fonte vital de seed money para pequenas equipes de engenharia no Brasil, permitindo que eles abandonem seus empregos tradicionais e foquem 100% em Web3 sem precisar passar pela via crucis dos fundos de Venture Capital na Faria Lima.

O Cenário Competitivo: Quem perde com isso?

A gravidade da Base está causando danos colaterais. A Polygon, que dominou o mercado brasileiro durante o último ciclo de alta atraindo marcas e projetos locais, enfrenta o desafio de unificar seu ecossistema fragmentado de L2s (Polygon CDK e AggLayer). A Arbitrum, apesar de manter um TVL maciço focado em protocolos de derivativos complexos, sofre com uma governança pesada e falta de um funil de varejo tão poderoso quanto o aplicativo da Coinbase.

A Solana continua sendo a grande rival alternativa, atraindo os caçadores de memecoins e alta frequência de negociação. Mas para aplicações financeiras estruturadas, RWA e integração institucional no Brasil, o ecossistema EVM (Ethereum Virtual Machine) continua reinando absoluto, e a Base é, hoje, a sua capital.

O sucesso da Base no Brasil prova uma tese antiga do mercado financeiro: a melhor tecnologia raramente vence sozinha. A tecnologia que vence é aquela atrelada à melhor distribuição. A Coinbase entendeu que não adiantava apenas listar tokens de terceiros; ela precisava ser dona da infraestrutura onde a economia do futuro roda. Para os desenvolvedores brasileiros, a Base não é apenas uma blockchain. É a API definitiva para acessar o sistema financeiro global sem pedir permissão.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.