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BNPL no Brasil: A Guerra Silenciosa de Koin, Pagaleve e Mercado Crédito pelo Parcelamento sem Cartão

2024-01-16·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

O BNPL brasileiro não compete com o cartão de crédito, mas com a recusa do emissor. Ao usar Pix e dados alternativos, Koin, Pagaleve e Mercado Crédito resgatam vendas perdidas por falta de limite, cobrando um prêmio do lojista pela conversão.

Se você tentar explicar o modelo de negócios da Klarna ou da Affirm para um executivo do varejo brasileiro, ele provavelmente vai dar um sorriso de canto de boca. O famoso "Buy Now, Pay Later" (BNPL), que revolucionou o e-commerce nos Estados Unidos e na Europa nos últimos anos, soa como uma invenção requentada por aqui.

O brasileiro parcelava a geladeira no crediário das Casas Bahia décadas antes da internet comercial existir. Hoje, o parcelamento sem juros no cartão de crédito financia mais de 70% do volume transacionado no e-commerce nacional.

Por que, então, empresas como Koin, Pagaleve e Mercado Crédito estão injetando centenas de milhões de reais para construir infraestruturas de BNPL no Brasil?

A resposta curta: limite de crédito.

O Brasil tem mais de 210 milhões de cartões de crédito ativos, segundo o Banco Central. O problema mora na distribuição. Milhões de consumidores possuem cartões com limites espremidos na faixa dos R$ 400 a R$ 800. Quando esse cliente tenta comprar um smartphone de R$ 2.500 ou uma passagem aérea de R$ 3.000, o cartão recusa a compra. A venda morre no checkout.

É exatamente nessa ferida sangrenta do e-commerce que o novo BNPL brasileiro atua. Observamos que essas fintechs não estão tentando matar o cartão de crédito. Elas estão resgatando o cliente que o bancão rejeitou.

O Paradoxo Brasileiro: BNPL vs. Parcelado Sem Juros

Nos EUA, o cartão de crédito tradicional gira no modelo "revolving" — você paga o saldo total ou rola a dívida pagando juros absurdos. O parcelamento direto na loja, sem juros, era práticamente inexistente até a chegada das fintechs de BNPL.

Aqui, o parcelamento sem juros (ou "parcelex", no jargão do varejo) é uma instituição cultural. O lojista embute o custo financeiro no preço do produto e o adquirente (Stone, Cielo, Rede) repassa os valores mês a mês, ou antecipa tudo cobrando uma taxa de desconto (MDR + taxa de antecipação).

Para o BNPL prosperar no Brasil, ele precisava oferecer algo diferente. A inovação não veio no produto final (o parcelamento), mas na engenharia de risco e no trilho de pagamento. Sai o cartão de plástico, entra o Pix Parcelado e o boleto inteligente. Entram os algoritmos de crédito baseados em dados alternativos, Open Finance e histórico de navegação.

Vamos dissecar como os três maiores expoentes desse mercado desenharam suas estratégias.

Koin: A Pioneira que Apostou no Ticket Alto e Turismo

A Koin foi a primeira a levantar a bandeira do BNPL no Brasil, muito antes da sigla virar moda. Fundada em 2012 e posteriormente adquirida pela Decolar (Despegar) em 2020, a empresa entendeu cedo uma dor específica: o turismo.

Passagens aéreas e pacotes de viagem possuem tickets médios altíssimos. Poucos brasileiros têm limite liberado de R$ 5.000 para uma viagem em família. A Koin estruturou seu modelo inicial no boleto parcelado — uma ousadia tremenda num país com histórico crônico de inadimplência.

Hoje, a operação evoluiu para o Pix Parcelado. O motor de risco da Koin analisa centenas de variáveis em milissegundos durante o checkout do e-commerce parceiro. Eles olham para o comportamento do usuário, dados de bureaus tradicionais e informações contextuais da compra.

Na nossa análise, a grande vantagem competitiva da Koin é o "skin in the game" no setor de turismo. Operar dentro do ecossistema da Decolar deu a eles um laboratório de testes massivo para refinar modelos de fraude e crédito. Agora, eles expandem essa inteligência para o varejo geral, oferecendo B2B2C (Business to Business to Consumer).

O lojista recebe o valor à vista. A Koin assume 100% do risco de crédito e fraude. O consumidor paga a primeira parcela no Pix na hora, e o resto nos meses seguintes.

Pagaleve: Surfando o Tsunami do Pix Parcelado

Se a Koin é a veterana experiente, a Pagaleve é o foguete focado em conversão. Fundada em 2021, a empresa percebeu que o Pix mudaria a dinâmica do varejo brasileiro para sempre.

O foco da Pagaleve é agressivo e singular: aumentar a taxa de conversão do lojista removendo o atrito do crédito. Eles operam com um modelo de Pix Parcelado quinzenal (geralmente em 4x). É um espelho do modelo "Pay in 4" que consagrou a Klarna e a Afterpay lá fora.

O pulo do gato da Pagaleve está na fricção zero. O cliente não precisa baixar um aplicativo novo, não precisa preencher longos formulários de aprovação de crédito e não precisa tirar selfie segurando documento. O processo ocorre dentro do ambiente da loja parceira (como Reserva, Ri Happy, e centenas de outras).

Eles útilizam o próprio número de telefone, CPF e dados do Open Finance (quando autorizado) para traçar o perfil de risco instantaneamente.

Se você opera um e-commerce, preste atenção aqui: a dor do carrinho abandonado custa bilhões ao varejo brasileiro. A Pagaleve entra no checkout como um botão salvador. O cliente que não ia comprar porque o cartão estourou o limite, agora compra. A Pagaleve cobra do lojista uma taxa superior à de uma adquirente tradicional, mas entrega uma venda incremental que simplesmente não existiria.

Mercado Crédito: O Rolo Compressor de Dados

Enquanto Koin e Pagaleve buscam integrar seus botões nos mais diversos e-commerces do país, o Mercado Crédito joga um jogo diferente. Eles têm o campo, a bola e o juiz.

O braço financeiro do Mercado Livre (e integrado ao Mercado Pago) possui a vantagem mais cobiçada do mercado financeiro moderno: dados proprietários de ponta a ponta.

Eles sabem o que você compra, com qual frequência, se você devolve muitos produtos, se paga suas contas em dia no app do Mercado Pago e até qual o seu CEP de entrega. O motor de crédito do Mercado Crédito não precisa adivinhar sua propensão a pagar usando modelos genéricos da Serasa. Eles conhecem seu histórico real de consumo.

Isso permite que o Mercado Livre ofereça financiamento de até 12 vezes sem usar o limite do cartão do cliente, diretamente no checkout da plataforma. Mais recentemente, expandiram essa linha de crédito para fora do seu marketplace, permitindo que usuários do Mercado Pago usem esse limite pré-aprovado via Pix em qualquer loja.

O volume de originação impressiona. O Mercado Livre reporta bilhões em carteira de crédito, financiando desde tênis até capital de giro para os próprios vendedores da plataforma. A inadimplência é controlada justamente pelo risco de exclusão do ecossistema — o brasileiro pensa duas vezes antes de dar calote no Mercado Livre, pois sabe que perderá o acesso à principal plataforma de compras do país.

O Lado do Lojista: A Matemática da Conversão vs. Taxas

Por que um varejista aceitaria pagar uma taxa de desconto (MDR) de 5% a 8% para uma plataforma de BNPL, quando o cartão de crédito tradicional cobra de 3% a 5%?

A resposta reside no Custo de Aquisição de Clientes (CAC) e no Retorno sobre Investimento em Mídia (ROAS).

Imagine um e-commerce que gasta R$ 100 em anúncios no Google e Instagram para trazer um cliente até a página de checkout de um produto de R$ 1.000. O cliente clica, escolhe o produto, preenche o endereço e, na hora de passar o cartão, a transação é negada (falta de limite ou suspeita de fraude bancária).

O lojista acabou de perder R$ 100 do CAC e R$ 1.000 de receita.

Oferecer Koin ou Pagaleve nesse momento muda a matemática. Mesmo pagando uma taxa maior pela transação do BNPL, o lojista salva a venda. A margem de lucro no produto pode cair alguns pontos percentuais, mas a conversão compensa o custo. A venda incremental dilui o custo fixo e melhora o ROAS das campanhas de marketing.

Além disso, o risco de chargeback (contestação de compra) é zero para o lojista. No cartão de crédito, se houver fraude, o lojista perde o produto e o dinheiro. No BNPL, a Koin, Pagaleve ou Mercado Crédito assumem o risco da fraude e do calote integralmente.

Inadimplência e o Olho Vivo do Banco Central

Nem tudo é festa. O Brasil é um cemitério de modelos de crédito mal calibrados. Com a taxa Selic rodando acima de 10% na maior parte da última década e o endividamento das famílias batendo recordes (mais de 70% das famílias brasileiras possuem dívidas), o risco de calote no BNPL é o elefante na sala.

O Banco Central do Brasil monitora de perto essa expansão. A regulação exige que essas fintechs operem sob licenças específicas, como Sociedade de Crédito Direto (SCD) ou através de parcerias bancárias (Banking as a Service - BaaS).

Para sobreviver, essas empresas precisam de taxas de aprovação altas o suficiente para agradar os lojistas, mas baixas o suficiente para não implodir o próprio balanço com inadimplência (NPL - Non-Performing Loans).

Como eles fazem isso? Com tecnologia de cobrança agressiva e parcelas curtas. No modelo da Pagaleve, por exemplo, o débito quinzenal coincide com os ciclos de pagamento de salários no Brasil (dia 5 e dia 20). No caso da Koin, a proximidade da data da viagem força o pagamento — ninguém quer chegar no aeroporto e descobrir que a passagem foi cancelada por falta de pagamento.

O Que Vem Por Aí: Pix Garantido e Open Finance

O mercado de BNPL no Brasil está prestes a sofrer um novo abalo sísmico. O próprio Banco Central está desenvolvendo o Pix Garantido (ou Pix Automático com garantia de crédito), que permitirá agendamentos de pagamentos com garantia de liquidação pelos bancos.

Isso vai matar as fintechs de BNPL? Provavelmente não. A infraestrutura do Pix Garantido será apenas o trilho. O motor de decisão (quem recebe o crédito e a que taxa) continuará sendo o diferencial competitivo.

O Open Finance, por sua vez, é o combustível definitivo. Conforme os brasileiros compartilham seus históricos bancários, Koin e Pagaleve conseguirão acessar a movimentação da conta corrente do cliente no Itaú ou Nubank em tempo real. Isso reduz a assimetria de informação, permitindo aprovar mais compras com juros menores.

O mercado brasileiro provou que não precisa importar modelos estrangeiros cegamente. O BNPL nacional encontrou seu próprio caminho ao unir a conveniência instantânea do Pix com a velha necessidade de esticar o orçamento do mês. Para os varejistas, tornou-se uma ferramenta de vendas indispensável. Para os emissores de cartão de crédito tradicionais, um aviso claro: se vocês não derem limite ao cliente, alguém dará.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.