De-risking Bancário: Por Que Bancos Brasileiros Estão Perdendo Seus Correspondentes Internacionais
Ponto-chave
Grandes bancos globais reduziram drasticamente suas relações de correspondência com instituições brasileiras de médio porte devido aos custos astronômicos de compliance. Esse estrangulamento força o mercado nacional a buscar fintechs agregadoras e soluções baseadas em blockchain para viabilizar o fluxo cambial.
Você opera uma mesa de câmbio de um banco médio na Faria Lima. É terça-feira, 10h da manhã. Um cliente corporativo precisa liquidar uma importação de US$ 2 milhões da Ásia. Você acessa o sistema, prepara a ordem via rede SWIFT e, de repente, descobre que o banco americano que servia como sua ponte para o dólar simplesmente encerrou o contrato de correspondência. Sem aviso prévio estruturado, sem margem para renegociação.
O motivo alegado em um e-mail burocrático de três linhas? "Readequação de apetite de risco".
Esse cenário não é ficção. É a realidade diária de dezenas de instituições financeiras no Brasil e na América Latina desde meados da década passada. O fenômeno atende por um nome clínico no mercado financeiro: de-risking. Na prática, é um estrangulamento silencioso das artérias do comércio global.
Grandes bancos globais — os chamados Tier 1, como JPMorgan, Citi, Bank of América e HSBC — estão cortando os laços com instituições financeiras menores em mercados emergentes. O Brasil, mesmo com um sistema financeiro robusto e altamente regulado pelo Banco Central (BACEN), não escapou da guilhotina. Nós acompanhamos essa sangria de perto nos últimos anos, e os números mostram uma mudança estrutural na forma como o dinheiro cruza fronteiras.
A Mecânica Oculta do Correspondent Banking
Para entender a gravidade do problema, precisamos olhar para as engrenagens do sistema.
A arquitetura do sistema financeiro global depende de um sistema de encanamento invisível para o cliente final. Chamamos isso de correspondent banking (ou relação de bancos correspondentes). Quando uma empresa brasileira paga um fornecedor no exterior, o dinheiro não voa físicamente. Ele se move através de contas Nostro (nossa conta no banco deles) e Vostro (a conta deles no nosso banco).
A rede SWIFT, frequentemente confundida com um sistema de pagamentos, é apenas o WhatsApp dos bancos. Ela envia mensagens seguras de liquidação. O dinheiro real só se move porque o banco brasileiro tem uma conta pré-fundeadas em dólares dentro de um banco em Nova York.
O calcanhar de Aquiles desse modelo? Confiança e responsabilidade solidária. Manter essas contas abertas exige que o banco americano confie cegamente nos processos de compliance do banco brasileiro. Se o banco do Brasil deixar passar uma transação de lavagem de dinheiro, o banco americano que processou a perna final em dólares será multado pelo regulador dos Estados Unidos.
O Que os Números do BIS e do BACEN Revelam
Os dados globais são assustadores para quem depende de liquidez internacional.
Segundo relatórios do Committee on Payments and Market Infrastructures (CPMI), ligado ao Bank for International Settlements (BIS), o número de relações de correspondência bancária ativas caiu quase 30% globalmente entre 2011 e 2022. Na América Latina e Caribe, a queda foi ainda mais agressiva, ultrapassando a marca dos 35% em corredores específicos.
O BACEN monitora essa contração com lupa. Nossa leitura dos dados do mercado local mostra que a concentração aumentou absurdamente. Há dez anos, um banco médio brasileiro focado em câmbio tinha cinco ou seis correspondentes internacionais de primeira linha para rotear pagamentos em dólar, euro ou libra. Hoje em 2024, ter dois parceiros sólidos é considerado um luxo estratégico.
O volume de dólares transacionados não caiu — pelo contrário, o comércio exterior brasileiro baté recordes anuais, com a balança comercial superando superávits de US$ 90 bilhões. O que diminuiu foi o número de portas de saída. Mais dinheiro está passando por menos tubulações, gerando gargalos, aumento de tarifas e uma dependência perigosa de poucos players globais.
O Peso Implacável do Compliance e PLD/FT
A raiz da crise atual não está na tecnologia, mas na regulação. O ponto de virada ocorreu na última década, impulsionado por multas multibilionárias aplicadas por reguladores americanos e europeus.
Quando o BNP Paribas tomou uma multa histórica de US$ 8,9 bilhões em 2014 por violar sanções dos EUA, e o HSBC pagou US$ 1,9 bilhão por falhas sistêmicas em PLD (Prevenção à Lavagem de Dinheiro), o pânico se instalou nos conselhos de administração em Wall Street e na City de Londres.
A ordem vinda do topo deixou de ser "gerenciar o risco" e passou a ser "evitar o risco".
Se a receita gerada pelas tarifas de um banco brasileiro de médio porte não cobre o custo de auditar seus processos de PLD/FT (Prevenção à Lavagem de Dinheiro e Financiamento ao Terrorismo), o banco global corta a relação comercial. A matemática é fria. O custo de um falso positivo no compliance hoje devora a margem de dezenas de milhares de transações legítimas.
O Risco Brasil na Visão Estrangeira
O Brasil possui uma regulação extremamente rígida. A Circular 3.978 do BACEN estabelece regras severas e modernas de PLD/FT, alinhadas às melhores práticas do GAFI (Grupo de Ação Financeira Internacional). Nossos bancos investem fortunas em sistemas de monitoramento transacional.
Mesmo assim, para o regulador gringo — como a FinCEN nos EUA ou a FCA no Reino Unido —, o risco jurisdicional do Brasil ainda pesa. Operações de comércio exterior envolvendo áreas de fronteira, importação de eletrônicos da Ásia ou exportação de commodities complexas (como ouro e madeira, alvos frequentes de escrutínio ambiental e criminal) acendem alertas vermelhos imediatos nos sistemas automatizados dos correspondentes.
Um banco em Nova York não tem tempo nem equipe para entender as nuances de uma nota fiscal de exportação de soja do Mato Grosso. Na dúvida, eles bloqueiam a transação. Se os bloqueios se tornarem frequentes, eles encerram a conta Nostro do banco brasileiro.
A Resposta do Mercado Brasileiro
Como o vácuo não dura muito tempo no mercado financeiro, a indústria brasileira de câmbio precisou se reinventar rápidamente.
Instituições tradicionais e especializadas, como Banco Rendimento, Travelex Bank, BS2 e Ourinvest, precisaram elevar seus padrões de compliance a níveis estratosféricos. Esses bancos se tornaram verdadeiras fortalezas de auditoria para manterem suas contas Nostro ativas nos EUA e na Europa. Eles não vendem apenas spread cambial; eles vendem a garantia ao banco gringo de que nenhuma transação suja passará por seus sistemas.
Paralelamente, observamos a ascensão das fintechs de câmbio e infraestrutura cross-border (Banking as a Service para FX). Empresas como Bexs (adquirida pela gigante britânica Ebury), Remessa Online, e as operações locais da Wise e Revolut mudaram a dinâmica do mercado.
Essas fintechs criaram trilhos próprios ou firmaram parcerias profundas e exclusivas com os poucos bancos globais dispostos a operar no Brasil. Elas funcionam como grandes agregadoras de volume. Em vez do banco global lidar com 50 corretoras de câmbio brasileiras de pequeno porte — multiplicando seu risco de auditoria por 50 —, ele lida com uma única grande fintech de infraestrutura, que por sua vez sub-adquire e monitora as corretoras menores.
Implicações Práticas para o Seu Negócio
Se você opera um e-commerce cross-border, uma importadora, uma startup precisando receber aportes do exterior ou uma instituição de pagamento local, preste atenção aqui. O de-risking baté diretamente no seu fluxo de caixa.
A redução drástica de correspondentes significa menos concorrência na infraestrutura de base. Menos concorrência invariavelmente resulta em spreads maiores e tarifas de liquidação mais caras (as famosas taxas OUR, SHA e BEN nas transferências SWIFT).
Além do custo financeiro, o custo de tempo explodiu. O tempo de onboarding institucional de um novo parceiro de câmbio ou abertura de conta no exterior triplicou. Antes de 2015, você abria uma conta de liquidação internacional corporativa em três ou quatro semanas. Agora em 2024, prepare-se para seis meses de due diligence, auditorias de sistemas, comprovação de políticas de ESG e questionários intermináveis sobre seus beneficiários finais (UBOs - Ultimaté Beneficial Owners).
Para as fintechs brasileiras que desejam oferecer remessas internacionais no seu app, a barreira de entrada ficou altíssima. Tentar plugar diretamente em um banco americano é quase impossível sem dezenas de milhões de dólares em volume mensal garantido. A saída tem sido contratar APIs de players locais já estabelecidos, dividindo a margem do negócio.
O Futuro Pós-SWIFT Tradicional
A saída estrutural para o gargalo do de-risking passa, obrigatoriamente, por novas tecnologias de liquidação.
A rede Ripple (com o token XRP) e outras iniciativas baseadas em blockchain tentam resolver isso há anos com o conceito de On-Demand Liquidity (ODL), reduzindo a necessidade de os bancos manterem contas Nostro pré-fundeadas em várias moedas.
Mais recentemente, as stablecoins atreladas ao dólar (como USDC e USDT) estão virando a via expressa não oficial para liquidações B2B na América Latina. Muitas mesas de balcão (OTC) já útilizam stablecoins para liquidar posições entre jurisdições em minutos, contornando completamente o sistema de correspondentes tradicionais e seus horários de corte restritos.
O Banco Central do Brasil sabe perfeitamente das limitações do modelo atual. O projeto do Pix Internacional, que visa conectar nossa rede instantânea a sistemas de outros países (como o projeto Nexus do BIS), e o avanço do Drex (nossa CBDC, a moeda digital do banco central) são respostas diretas a essa fricção.
Quando os bancos centrais se conectam diretamente via redes DLT (Distributed Ledger Technology) ou APIs soberanas, o banco comercial americano intermediário perde sua função primária de validador da moeda. A ponte passa a ser criptográfica, programável e, mais importante, livre do apetite de risco discricionário de um comitê de compliance em Manhattan.
Até que essa infraestrutura do futuro esteja totalmente operacional, os bancos brasileiros continuarão jogando um xadrez complexo. Sobrevivem aqueles que transformam o compliance de um mero centro de custo em sua principal vantagem competitiva.
Perguntas Frequentes
Matheus Feijão
CEO & Fundador — ouro.capital
Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.