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Ethereum Blobs e o Roadmap de Escalabilidade: Por que o ETH Pode Não Precisar Ser Deflacionário

2025-05-29·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A introdução dos 'blobs' barateou as transações nas segundas camadas (L2s) em até 99%, mas reduziu a queima de taxas na rede principal. O ETH voltou a ser inflacionário, provando que sua tese de investimento institucional agora foca na útilidade como infraestrutura global e no rendimento via staking, não mais na escassez artificial.

O meme do morcego perdeu a força. Se você acompanhou o mercado cripto entre 2021 e 2023, certamente foi bombardeado pela narrativa do 'Ultrasound Money'. A ideia era simples e sedutora: o Ethereum queimava mais moedas do que emitia. Estávamos diante de um ativo deflacionário, teoricamente superior ao Bitcoin em termos de escassez. Mas os dados mais recentes mostram uma virada abrupta. Desde meados de 2024, o fornecimento de ETH voltou a crescer.

A culpa — ou o mérito — dessa mudança tem nome: EIP-4844, a famosa atualização Dencun que introduziu os chamados 'blobs' de dados. A rede escolheu um caminho claro. Priorizou a escalabilidade e a redução agressiva de custos nas redes de segunda camada (Layer 2) em detrimento da queima massiva de tokens na camada principal (Layer 1).

Nós, que cobrimos a evolução da infraestrutura financeira digital há mais de uma década, vemos um padrão. O mercado brasileiro de capitais, que hoje abraça a tokenização através do Drex e de fundos listados na B3, entende bem esse movimento. Uma rede cara e congestionada não serve para o varejo nem para o atacado financeiro. A transição do Ethereum de um ativo puramente escasso para uma infraestrutura de liquidação global barata exige sacrifícios. A deflação foi o primeiro deles. E isso muda o jogo.

A ilusão da escassez e o choque de realidade do EIP-1559

Para entender o momento atual, precisamos voltar a agosto de 2021. A implementação do EIP-1559 alterou radicalmente a política monetária do Ethereum. O mecanismo dividiu a taxa de transação em duas partes: uma taxa base (base fee), que é queimada e retirada de circulação, e uma gorjeta (tip) paga aos validadores. Quando a rede ficava congestionada — pense no frenesi dos NFTs ou no auge das finanças descentralizadas (DeFi) —, a taxa base disparava. Milhões de ETH viraram fumaça.

Os investidores adoraram. A narrativa do 'dinheiro ultrassônico' ganhou tração em relatórios de bancos de investimento e mesas de operação da Faria Lima. O raciocínio parecia infalível: alta demanda por bloco gera altas taxas; altas taxas geram queima; a queima reduz a oferta; a redução da oferta, com demanda constante ou crescente, joga o preço para cima.

O problema estrutural dessa tese? Ela dependia de uma rede perpetuamente ineficiente e cara para o usuário final. Pagar US$ 50 para fazer um simples swap na Uniswap ou US$ 100 para transferir um token não é um modelo de negócios sustentável se o objetivo é ser o computador do mundo. Se você opera um e-commerce ou uma fintech de pagamentos, sabe que fricção e custos altos matam qualquer produto. O Ethereum estava se tornando uma rede exclusiva para baleias. A solução técnica para isso estava no roadmap de longo prazo, mas a conta econômica chegou mais rápido do que a comunidade esperava.

A era dos Blobs (EIP-4844): Consertando o motor com o carro andando

Em março de 2024, a atualização Dencun foi ativada. O coração dessa mudança foi o Proto-Danksharding (EIP-4844), que introduziu um novo tipo de transação que aceita 'blobs' de dados. Até então, as redes de segunda camada — como Arbitrum, Optimism, Base e zkSync — empacotavam milhares de transações e as públicavam na rede principal usando um espaço chamado calldata.

O calldata é permanente. Ele fica gravado na blockchain para sempre. E armazenamento eterno em um livro-razão distribuído custa uma fortuna. As L2s repassavam esse custo aos usuários. O que o EIP-4844 fez foi criar um 'sidecar' temporário. Os blobs anexados aos blocos do Ethereum são armazenados pelos nós da rede por apenas cerca de 18 dias e depois são descartados (pruned).

Na prática, o Ethereum deixou de vender outdoors permanentes na Times Square e passou a alugar painéis digitais temporários. O resultado? Um colapso imediato e brutal nos custos. As taxas nas redes Layer 2 despencaram até 99%. Uma transação na rede Base (da Coinbase), que custava cerca de US$ 0.30, passou a custar frações de centavo.

Do ponto de vista da adoção tecnológica, foi um sucesso absoluto. Volumes recordes migraram para as L2s. Desenvolvedores começaram a criar aplicações que antes eram econômicamente inviáveis, como jogos on-chain e microtransações sociais. Mas o sucesso técnico cobrou seu preço na economia do token.

O trade-off econômico: Menos taxas, menos queima, mais inflação

A matemática do EIP-1559 é implacável. Sem congestionamento na Layer 1, as taxas base despencam. Com taxas base na casa de 1 a 5 gwei (a unidade de medida do gás no Ethereum), a quantidade de ETH queimada diariamente despencou. O volume de transações não diminuiu; ele simplesmente migrou para as L2s, que agora usam os blobs baratíssimos em vez do caro calldata.

Hoje, o Ethereum emite cerca de 900.000 ETH por ano para pagar os validadores que garantem a segurança da rede via Proof-of-Stake (PoS). Para que a rede seja deflacionária, a queima precisa superar essa emissão. Durante grande parte de 2023, isso aconteceu. Mas nos meses seguintes ao Dencun, a queima caiu para níveis irrisórios. O suprimento total de ETH voltou a subir, com uma inflação anualizada variando entre 0.4% e 0.7%.

Os maximalistas do 'Ultrasound Money' entraram em pânico. A narrativa de marketing que impulsionou o preço no último ciclo de alta desmoronou. No entanto, analisando os dados institucionais e conversando com gestores de fundos, observamos que o pânico é infundado. A inflação controlada não é um bug; é o preço pago para que o Ethereum cumpra sua promessa original de ser uma camada de liquidação universal.

Por que o mercado institucional não liga para a inflação do ETH

Wall Street e a Faria Lima avaliam ativos de forma diferente do investidor de varejo do Crypto Twitter. Quando a BlackRock, a Hashdex ou a QR Capital estruturam seus produtos e teses de investimento em Ethereum, a deflação é apenas um bônus marginal. O prato principal é o rendimento real (real yield).

O Ethereum é o único grande criptoativo que oferece um rendimento nativo através do staking, funcionando quase como um título público da internet. Atualmente, os validadores recebem um rendimento anual (APR) de aproximadamente 3% a 4%. Se a inflação da rede é de 0.5%, o investidor institucional que faz staking ainda obtém um rendimento real positivo de cerca de 2.5% a 3.5%.

Compare isso com o ouro ou com o próprio Bitcoin. Ambos têm custos de custódia e não geram fluxo de caixa nativo. A genialidade econômica do Ethereum pós-Merge não reside na sua capacidade de ser deflacionário, mas na sua capacidade de gerar um custo de oportunidade para quem não participa da segurança da rede.

A útilidade supera a escassez artificial. O mercado tradicional precifica redes de pagamento pelo volume financeiro transacionado (Total Value Settled) e pela receita gerada. Redes como Visa e Mastercard processam trilhões e valém centenas de bilhões não porque suas ações são deflacionárias, mas porque a infraestrutura é indispensável. O Ethereum está seguindo exatamente o mesmo caminho.

O impacto na tokenização e no mercado brasileiro

A relevância de um Ethereum escalável e barato baté diretamente na porta do sistema financeiro brasileiro. O Banco Central do Brasil desenhou o Drex (a nossa CBDC) útilizando a tecnologia Hyperledger Besu, que é totalmente compatível com a Ethereum Virtual Machine (EVM).

Grandes players locais como Itaú Digital Assets, BTG Pactual (através da Mynt) e Mercado Pago estão construindo infraestruturas que dependem da padronização EVM. Se o Ethereum não conseguisse escalar e mantivesse taxas de dezenas de dólares na rede principal, todo o ecossistema de tokenização de ativos do mundo real (RWA) ficaria isolado em redes privadas ou blockchains alternativas menos seguras.

Com as L2s baratas, abre-se a porta para que ativos regulados no Brasil possam, eventualmente, interagir com a liquidez global do Ethereum de forma econômica. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já observa de perto o crescimento de fundos de investimento que exploram essas redes. Um custo de transação previsível e baixo é o requisito número um para que o compliance institucional seja programado em contratos inteligentes em larga escala.

O Veredito: O futuro do crescimento econômico do ecossistema

O debaté sobre a deflação do Ethereum expõe uma imaturidade na forma como avaliamos criptoativos. Querer que a rede principal fique congestionada apenas para queimar tokens e inflar o preço a curto prazo é o equivalente a uma empresa de pedágios que torce por engarrafamentos constantes. Você pode até faturar mais hoje, mas amanhã os motoristas buscarão rotas alternativas.

A atualização dos blobs foi um movimento defensivo e ofensivo genial da Fundação Ethereum e dos desenvolvedores core. Eles abriram mão de uma métrica de vaidade (a deflação) para garantir a sobrevivência e a dominância do ecossistema a longo prazo contra concorrentes rápidos e baratos como Solana e Sui.

O roadmap de escalabilidade continua. O futuro reserva o 'Full Danksharding', onde a quantidade de blobs por bloco aumentará significativamente, tornando as L2s ainda mais potentes. A economia do Ethereum se estabilizará não pela escassez forçada, mas pela demanda massiva por espaço de bloco. Quando milhões de transações por segundo estiverem rodando nas L2s, o pequeno custo de postar provas criptográficas na rede principal, somado, gerará receita suficiente para manter a rede segura e os validadores rentáveis. O morcego pode ter morrido, mas a máquina de liquidação global acabou de acordar.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.