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Exclusividade Cielo e Bradesco: Como Contratos Bancários Forçam Taxas Abusivas no Varejo

2024-01-22·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A integração agressiva entre Bradesco e Cielo usa a alavanca do crédito bancário para forçar lojistas a aceitarem taxas de adquirência acima da média do mercado. O movimento recente de fechamento de capital da Cielo consolida essa dependência e desafia as regras de interoperabilidade de recebíveis do BACEN.

Você senta na frente do gerente do Bradesco. Sua loja precisa de capital de giro para reforçar o estoque. O crédito é aprovado rápidamente e a taxa nominal de juros parece competitiva. Então vem a condição inegociável: "Precisamos que você concentre seu faturamento na maquininha da Cielo e coloque o domicílio bancário aqui com a gente para liberar essa linha".

Essa cena acontece milhares de vezes por dia no varejo brasileiro. Os bancos chamam isso de "sinergia corporativa" ou "pacote de relacionamento". Nós chamamos pelo nome técnico: venda casada. E isso está corroendo as margens de quem realmente produz no Brasil.

Nós da Ouro Capital acompanhamos o mercado de pagamentos desde a quebra do duopólio Visanet/Redecard em 2010. Acreditávamos que a competição traria taxas justas para sempre. A realidade provou o contrário. Os grandes bancos incumbentes entenderam que não precisavam vencer as fintechs na tecnologia da maquininha. Bastava usar a força do balanço bancário e o controle sobre o crédito corporativo para forçar a fidelidade do lojista.

Se você opera um e-commerce ou uma loja física, preste atenção aqui. O jogo da adquirência não é mais jogado na taxa de desconto (MDR) transparente. Ele é jogado nos bastidores obscuros dos contratos de crédito, nas travas de domicílio e na dependência financeira.

O Fim do Duopólio e o Contra-Ataque dos Bancos

Até 2010, o mercado brasileiro vivia uma anomalia global. A Visanet (hoje Cielo) era a única que aceitava a bandeira Visa. A Redecard (hoje Rede) tinha o monopólio da Mastercard. O BACEN interveio, forçou a interoperabilidade e abriu espaço para a revolução das maquininhas. Vimos a ascensão meteórica de players independentes como Stone, PagSeguro e, mais recentemente, Mercado Pago.

A guerra das maquininhas derrubou as taxas. O MDR (Merchant Discount Rate) no crédito à vista, que costumava passar de 3% ou 4%, caiu para patamares entre 1% e 2% dependendo do volume do cliente. A antecipação de recebíveis, a verdadeira mina de ouro do setor, também sofreu pressão competitiva.

A Cielo sentiu o golpe. A empresa, controlada em conjunto por Bradesco e Banco do Brasil, viu seu market share despencar de mais de 50% na década passada para cerca de 24% a 26% nos relatórios mais recentes de 2023. A resposta dos controladores não foi melhorar o produto ou baratear a tecnologia. A resposta foi alavancar o canal bancário.

O Bradesco, possuindo uma das maiores carteiras de crédito corporativo do país, passou a condicionar renegociações de dívidas, isenções de tarifas de conta corrente e aprovações de capital de giro ao uso exclusivo da Cielo. Eles amarram a saúde financeira da empresa à maquininha verde.

A Anatomia da Venda Casada no Varejo

Como exatamente o lojista acaba pagando taxas abusivas sem perceber? O mecanismo é sofisticado e desenhado para parecer vantajoso no primeiro olhar.

O gerente oferece um pacote. Se o lojista usar a Cielo e faturar mais de R$ 50 mil por mês, ele ganha isenção na mensalidade da conta corrente (que custaria R$ 150) e um desconto de 0,5% na taxa de juros do capital de giro. Parece um bom negócio.

Mas vamos olhar as letras miúdas. O MDR da Cielo oferecido nesse pacote muitas vezes é 0,3% a 0,5% mais caro que a proposta que o lojista tinha na mesa com a Stone ou com o BTG Pactual. Pior ainda: a taxa de antecipação automática de recebíveis é fixada em 2,5% ou 3% ao mês, contra 1,8% da concorrência.

Quando colocamos na ponta do lápis, a isenção de R$ 150 na conta corrente e o pequeno desconto no empréstimo custam milhares de reais em taxas de adquirência e antecipação escondidas. O lojista está financiando o próprio desconto, entregando sua margem de lucro para a adquirente do banco.

O Artigo 39, inciso I, do Código de Defesa do Consumidor brasileiro proíbe expressamente condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço. O mercado chama de "cross-selling" (venda cruzada). Na prática, a linha entre oferecer um benefício legítimo e forçar uma venda casada é cruzada diariamente nas agências bancárias.

O Sistema de Registradoras: A Promessa Quebrada

O Banco Central do Brasil não ficou de braços cruzados. Para tentar quebrar essa dependência, o BACEN e o Conselho Monetário Nacional (CMN) públicaram as Resoluções 4.734 e 4.707, que entraram em vigor em 2021. O objetivo era criar o Sistema de Registro de Recebíveis.

Antes dessa regra, o banco que dava o crédito colocava uma "trava de domicílio" em todo o faturamento da maquininha. O lojista não podia usar seus recebíveis futuros para tomar crédito em outro lugar. Era um cativeiro financeiro.

Com as novas regras e a entrada das registradoras (empresas como CERC, Nuclea, TAG e B3), o lojista passou a ser dono do seu recebível. Ele faturou R$ 10.000 na Cielo? Ele pode usar R$ 5.000 para garantir um empréstimo no Bradesco e usar os outros R$ 5.000 para descontar em um fundo de investimento (FIDC) ou em outra fintech.

Essa era a teoria. O mercado comemorou. Acreditávamos que o lojista finalmente estava livre.

A realidade provou ser muito mais dura. Os grandes bancos adaptaram suas táticas. Eles começaram a dificultar técnicamente a leitura dos recebíveis por terceiros. Mais do que isso, os contratos de crédito dos grandes bancos passaram a incluir cláusulas de vencimento antecipado: se o lojista tentar registrar recebíveis em outra instituição para pegar crédito concorrente, o banco pode declarar quebra de contrato e exigir o pagamento integral da dívida à vista.

Isso neutralizou grande parte do esforço do BACEN. O medo de perder a linha de crédito principal faz com que o lojista aceite passivamente as taxas da Cielo impostas pelo Bradesco, ignorando o mercado aberto de recebíveis.

O Fechamento de Capital (OPA) e o Novo Cenário

Agora em 2024, presenciamos o ápice dessa estratégia. Bradesco e Banco do Brasil decidiram fechar o capital da Cielo, realizando uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para retirar as ações da empresa da B3.

Por que tirar da bolsa uma das empresas mais icônicas do setor financeiro? A resposta está na estratégia de exclusividade. Como empresa de capital aberto (listada no Novo Mercado), a Cielo precisava reportar lucros trimestrais, justificar perdas de market share para os acionistas minoritários e operar como uma unidade de negócios independente.

Ao fechar o capital, a Cielo deixa de ser uma empresa independente de pagamentos e passa a ser, efetivamente, um departamento interno do Bradesco e do Banco do Brasil. Eles não precisam mais se preocupar se a Cielo isoladamente dá lucro ou perde market share. O que importa é o "lucro do ecossistema".

Eles podem subsidiar a operação da Cielo usando o lucro do crédito do Bradesco, ou podem usar a Cielo para captar depósitos baratos para o banco. Essa integração profunda significa que a pressão sobre o gerente da agência para empurrar a maquininha verde junto com as operações de crédito será multiplicada por dez.

As adquirentes independentes não têm um banco de varejo gigante por trás para forçar a distribuição. A competição deixa de ser sobre quem tem a melhor tecnologia de captura de pagamentos e passa a ser sobre quem tem o maior poder de barganha no balanço de crédito. Isso destrói a inovação e pune o comerciante.

A Visão do CADE e o Risco Antitruste

Onde está o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) no meio dessa guerra?

Associações que representam as fintechs e adquirentes independentes, como a Abranet e a Zetta, têm batido na porta do CADE repetidas vezes. As denúncias giram em torno de práticas anticompetitivas, subsídio cruzado e abuso de posição dominante.

O CADE tem um histórico misto ao lidar com o setor financeiro. O órgão costuma intervir em fusões e aquisições (como tentou fazer anos atrás com a compra da XP pelo Itaú), mas tem dificuldade em coibir práticas comerciais granulares que acontecem na ponta, na mesa do gerente.

A defesa do Bradesco e da Cielo costuma seguir uma linha previsível: eles argumentam que o pacote de serviços integrados traz eficiência econômica. Afirmam que, ao consolidar o risco de crédito e o fluxo de pagamentos na mesma instituição, o banco consegue reduzir o risco de inadimplência e, teoricamente, repassar essa economia ao cliente.

Nós observamos os dados empíricos do varejo e discordamos veementemente dessa premissa. A economia de risco nunca é repassada ao lojista na forma de taxas de adquirência menores. Ela é capturada pelo banco na forma de spread oculto. O lojista que cai na armadilha da exclusividade perde o poder de cotar taxas no mercado aberto. Sem a ameaça da concorrência, o banco ajusta a taxa de antecipação (que muda quase mensalmente com a variação da Selic) sempre para cima, espremendo a margem do negócio.

Implicações Práticas para o seu Negócio

Se você é dono de um negócio, precisa auditar seus contratos bancários hoje mesmo. A venda casada raramente está escrita com essas palavras. Ela aparece disfarçada de "condição comercial vinculada" ou "pricing de relacionamento".

Para escapar dessa armadilha bancária, recomendamos três ações imediatas:

Primeiro, separe o balcão de crédito do balcão de pagamentos. Avalie o custo do seu empréstimo isoladamente. Se a taxa de juros do banco só fica atrativa se você incluir a maquininha, peça ao gerente o Custo Efetivo Total (CET) da operação somando o impacto do MDR e da antecipação da adquirente do banco contra a sua adquirente atual.

Segundo, entenda e útilize o sistema de registradoras. Seu recebível é seu maior ativo. Acesse o portal da CERC ou da Nuclea, verifique como seus recebíveis estão registrados e recuse contratos de crédito que incluam cláusulas abusivas de vencimento antecipado em caso de diversificação de maquininhas.

Terceiro, mantenha no mínimo duas adquirentes ativas no seu balcão. O duopólio dentro da sua própria loja é a única forma de manter o poder de barganha. Quando o gerente do Bradesco ameaçar subir a taxa da linha de crédito porque você parou de passar volume na Cielo, mostre que a economia gerada pela taxa menor da concorrência compensa o aumento do juros do banco.

A consolidação do mercado de pagamentos no Brasil está entrando em uma fase perigosa. O fechamento de capital da Cielo marca o retorno da hegemonia bancária pura e simples. A tecnologia virou commodity. A verdadeira batalha agora é pela sua liberdade financeira contra os balanços trilhonários dos incumbentes. O lojista que não aprender a ler contratos e calcular custos ocultos será engolido pela margem de lucro dos bancos.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.