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Como ganhar rendimento com Bitcoin sem vendê-lo: wrapped BTC, DeFi lending e covered calls

2025-07-25·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

Gerar renda passiva com Bitcoin exige retirá-lo da cold wallet e assumir riscos controlados. Estratégias como DeFi lending e venda de opções cobertas (covered calls) oferecem retornos de 2% a 15% ao ano, mas cobram seu preço em complexidade técnica e risco de contrato inteligente.

O Bitcoin é o ativo mais rentável da última década. Fato. Mas ele carrega um 'defeito' crônico para o investidor com mentalidade de mercado financeiro tradicional: ele não paga dividendos. Se você compra uma ação da Petrobras ou um título do Tesouro Direto, seu capital gera fluxo de caixa. Se você compra 1 BTC, você tem exatamente 1 BTC dez anos depois. A única forma de lucrar sempre foi a valorização do preço (capital gain).

Agora em 2025, deixar o Bitcoin parado na carteira de hardware (a famosa cold wallet) é uma escolha de segurança, mas também um custo de oportunidade gigantesco. O mercado financeiro descentralizado amadureceu. Vimos a purgação das plataformas centralizadas que prometiam milagres em 2022 — Celsius, BlockFi e afins implodiram justamente porque pegavam seu Bitcoin e faziam apostas alavancadas obscuras.

Hoje, o jogo é outro. Ferramentas on-chain transparentes e mercados de opções estruturados permitem que você coloque seu BTC para trabalhar, gerando yields que variam de 2% a 20% ao ano, dependendo do seu apetite a risco. Na nossa análise na Ouro Capital, existem três caminhos principais para o investidor brasileiro rentabilizar sua posição sem precisar se desfazer do ativo. Vamos desmontar a engenharia por trás de cada um deles.

A ponte obrigatória: Entendendo o Wrapped Bitcoin

A rede nativa do Bitcoin é incrivelmente segura, mas é burra. Ela não roda contratos inteligentes complexos como o Ethereum ou a Solana. Para usar seu BTC em protocolos de finanças descentralizadas (DeFi), você precisa 'empacotá-lo'. O resultado? O Wrapped Bitcoin.

Um Wrapped BTC é um token em outra blockchain que tem seu valor atrelado 1:1 ao Bitcoin original. Você tranca seu BTC nativo em um cofre (custódia) e uma entidade emite um token correspondente na rede Ethereum, por exemplo.

Até meados de 2024, o mercado era dominado pelo WBTC, gerido por um consórcio liderado pela BitGo. No entanto, movimentações corporativas envolvendo Justin Sun acenderam alertas de governança na comunidade. Isso abriu espaço para novos gigantes. A Coinbase lançou o cbBTC, que rápidamente capturou bilhões em valor de mercado, oferecendo a garantia de custódia de uma empresa de capital aberto regulada nos EUA. Temos também opções descentralizadas como o tBTC, onde a custódia é dividida entre dezenas de nós validadores, reduzindo o risco de um único ponto de falha.

O risco aqui é claro: ao trocar BTC por WBTC ou cbBTC, você introduz o risco de contraparte. Se a Coinbase quebrar ou se o consórcio do WBTC for hackeado, o token empacotado que você segura no Ethereum pode perder a paridade com o Bitcoin real. É o preço do ingresso para entrar no DeFi.

Empréstimos Descentralizados (DeFi Lending): O básico que funciona

Com seu Bitcoin empacotado na carteira (como a MetaMask), a estratégia mais conservadora no mundo cripto é atuar como um banco. Protocolos de empréstimo como Aave V3, Morpho e Spark funcionam como pools de liquidez autônomos.

Você deposita seu cbBTC nesses protocolos. Outros usuários pegam esse ativo emprestado e pagam juros por isso. O protocolo distribui esses juros para você, descontando uma pequena taxa da rede. Tudo é gerido por código, sem gerentes ou aprovações de crédito. Se o tomador do empréstimo não mantiver garantias suficientes, o contrato inteligente liquida a posição dele automaticamente para garantir que você não tome calote.

Na prática, as taxas (APY) para fornecer Bitcoin puro variam entre 1% e 3% ao ano. É pouco? Sim, porque todo mundo quer usar BTC como garantia, mas poucos querem pegá-lo emprestado para operar vendido (short).

A mágica acontece nas operações estruturadas. Muitos investidores depositam o cbBTC no Aave, usam esse saldo como garantia para pegar dólares digitais (USDC) emprestados a 5% ao ano, e aplicam esse USDC em protocolos de renda fixa cripto que pagam 10% a 15% ao ano (como os produtos da Ethena ou MakerDAO). O lucro é a diferença (spread).

Se você opera essa alavancagem, preste atenção aqui: se o preço do Bitcoin cair bruscamente em dólares, o valor da sua garantia despenca. Se atingir o limite do protocolo, seu Bitcoin é vendido a mercado (liquidado) com deságio para cobrir a dívida em dólares. Nunca tome empréstimos no limite da sua margem.

Opções de Compra Cobertas (Covered Calls): Renda com volátilidade

Se você quer rendimentos de dois dígitos no seu Bitcoin sem usar alavancagem de dívida, o mercado de derivativos é o destino. A estratégia de 'Covered Call' (venda de opção de compra coberta) é um clássico de Wall Street que encontrou encaixe perfeito na volátilidade cripto.

Funciona assim: você tem 1 BTC. Você assina um contrato vendendo para outra pessoa o direito (mas não a obrigação) de comprar o seu BTC por um preço específico (strike) em uma data futura. Por vender esse direito, você recebe um prêmio em dinheiro na hora (o yield).

Vamos aos números reais. Imagine que o BTC hoje está cotado a US$ 90.000. Você entra na Deribit — exchange que domina 85% do mercado global de opções cripto — e vende uma Call com strike de US$ 105.000 para o vencimento daqui a 30 dias. O mercado te paga, digamos, 2% do valor do seu ativo como prêmio.

Dois cenários podem acontecer no vencimento:

  1. O BTC fica abaixo de US$ 105.000: A opção vira pó (não é exercida). Você mantém seu 1 BTC e embolsa os 2% de prêmio. Você repete o processo no mês seguinte.
  2. O BTC explode para US$ 115.000: Você é obrigado a vender seu BTC pelos US$ 105.000 combinados. Você não perdeu dinheiro em relação ao preço inicial (ganhou US$ 15.000 + o prêmio), mas deixou na mesa a alta até os US$ 115.000.

O risco da Covered Call não é perder o seu capital inicial, mas sim o custo de oportunidade. Você limita seu ganho máximo em mercados de extrema alta (bull markets agressivos). É uma estratégia brilhante para mercados laterais ou de alta lenta.

Além da Deribit, observamos o crescimento de cofres automatizados (DeFi Option Vaults - DOVs) como Ribbon Finance e Aevo, que fazem esse processo on-chain de forma automática. Você apenas deposita o WBTC e o contrato inteligente vende as opções semanalmente para você.

O cenário brasileiro: Plataformas CeFi e CEX reguladas

Para o investidor brasileiro que não quer lidar com chaves privadas, taxas de rede em Ethereum e contratos em inglês, as exchanges locais criaram pontes simplificadas.

Empresas como o Mercado Bitcoin (através da Renda Fixa Digital e parcerias institucionais), Foxbit (com o Foxbit Earn) e Transfero oferecem produtos de rendimento atrelados a cripto. O funcionamento nos bastidores geralmente envolve a mesa de operações da corretora pegando o BTC dos clientes e executando exatamente as estratégias que citei acima (lending institucional ou operações estruturadas com opções).

A vantagem é a extrema fácilidade. Com dois cliques no aplicativo, seu BTC passa a render 4% a 6% ao ano, muitas vezes com imposto retido na fonte ou relatórios mastigados para o carnê-leão.

A desvantagem é o risco de crédito. Você não está mais segurando seu Bitcoin. Você tem uma promessa de pagamento da corretora brasileira. Segundo dados do BACEN e da CVM, o arcabouço regulatório local avançou muito com a Lei do Marco das Criptomoedas, mas em caso de falência da corretora, criptoativos ainda não contam com a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Faça a diligência da saúde financeira da exchange antes de buscar yield cego.

Implicações práticas e tributárias no Brasil

Se você vai gerar yield com cripto, o leão da Receita Federal vai querer a parte dele. E as regras mudaram drasticamente recentemente.

Conforme a Lei das Offshores (Lei 14.754/2023) e a regulamentação da IN 2192/2024 da Receita Federal, criptoativos mantidos no exterior ou em ambientes descentralizados (DeFi) passaram a ser tributados anualmente.

O rendimento gerado por DeFi lending ou prêmios de opções na Deribit é tributado a uma alíquota fixa de 15% sobre o lucro, sem a antiga faixa de isenção de R$ 35 mil mensal para vendas. Além disso, o simples ato de 'empacotar' seu Bitcoin (trocar BTC por WBTC) pode ser interpretado como uma permuta tributável, dependendo de como seu contador declara a natureza jurídica do token empacotado.

Nossa recomendação? Se for operar on-chain, use softwares de rastreamento de carteira e gere relatórios fiscais mensais. A Receita Federal brasileira possui um dos sistemas de cruzamento de dados mais sofisticados do mundo, e exchanges globais já reportam movimentações de brasileiros via acordos de cooperação internacional.

Veredito: Qual estratégia faz sentido para seu perfil?

Rentabilizar Bitcoin exige escolher qual risco você prefere abraçar. Não existe yield grátis.

Se você é um maximalista de Bitcoin que perde o sono com a ideia de colocar suas chaves privadas em risco, nenhuma dessas estratégias é para você. Continue no HODL e aceite que seu retorno virá apenas da valorização do ativo.

Se você tem um perfil técnico e entende como navegar no Ethereum ou redes de segunda camada (L2), o uso de cbBTC no Aave oferece um rendimento conservador com liquidez imediata. Já se você tem uma visão mais sofisticada de mercado e aceita limitar seus ganhos em caso de uma explosão de preço, as Covered Calls são, de longe, a forma mais eficiente de extrair dólares do seu Bitcoin.

O mercado de cripto em 2025 não premia mais os aventureiros, mas recompensa regiamente os calculistas. Distribua seu capital. Manter 80% do seu BTC em cold storage e usar 20% para gerar fluxo de caixa via opções ou lending é a gestão de risco que separa os profissionais dos amadores no mercado digital brasileiro.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.