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Gas fees e tokens brasileiros: estratégias definitivas para reduzir custos de transação

2025-10-21·10 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A escalabilidade da tokenização no Brasil exige a invisibilidade das taxas de rede para o usuário final. Emissores locais estão abandonando a rede principal do Ethereum em favor de redes Layer 2 e adotando Account Abstraction para subsidiar o gas, permitindo liquidação direta via Pix.

Imagine estruturar uma oferta de tokens de recebíveis agrícolas, com cotas acessíveis de R$ 100 para atrair o pequeno investidor, e descobrir na hora da liquidação que a taxa da rede blockchain vai consumir R$ 80 dessa operação. Aconteceu com frequência entre 2021 e 2023. Observamos projetos inteiros de tokenização no Brasil morrerem na prancheta porque a matemática das gas fees simplesmente não fechava para o varejo.

Hoje, em outubro de 2025, o mercado brasileiro de ativos digitais amadureceu na dor. A infraestrutura financeira descentralizada deixou de ser um experimento de laboratório para se tornar uma alternativa real ao mercado de capitais tradicional. Com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) regulando fundos de investimento em criptoativos e o Banco Central avançando com o Drex, a tokenização de ativos reais (RWA - Real World Assets) atingiu escala industrial.

Mas a barreira do custo de transação sempre esteve lá. Se você opera uma plataforma de tokenização, um fundo de investimento ou mesmo se é um investidor de varejo querendo alocar capital em tokens de consórcio ou precatórios, preste atenção aqui. O jogo mudou. Reduzir custos de transação deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar um requisito de sobrevivência. Vamos destrinchar exatamente como os principais players do país estão zerando essa fricção.

A anatomia do custo de transação no mercado de tokens

Antes de otimizar, precisamos dissecar o problema. Qualquer transação em uma rede blockchain pública exige o pagamento de uma taxa — o famoso gas — para remunerar os validadores que processam e registram aquela operação no livro-razão distribuído.

Na rede Ethereum, o berço dos smart contracts, essa taxa é calculada multiplicando o limite de gas da transação pelo preço base do gas no momento (medido em Gwei). Uma transferência simples de um token ERC-20 consome cerca de 65.000 unidades de gas. Já a interação com um contrato inteligente complexo, como a compra de uma fração de um CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) tokenizado, pode fácilmente ultrapassar 250.000 unidades.

Quando a rede está congestionada — seja por um frenesi global de memecoins ou por liquidações institucionais em massa —, o preço do Gwei dispara. Já vimos o custo de uma única transação bater a casa dos US$ 150. Para um investidor institucional movimentando R$ 10 milhões em debêntures tokenizadas, US$ 150 é irrelevante. Para o investidor de varejo comprando R$ 500 em tokens de energia do Mercado Bitcoin ou da Liqi, a taxa destrói completamente a rentabilidade projetada para os próximos três anos.

A atualização EIP-1559 do Ethereum tornou as taxas mais previsíveis, e o recente Dencun Upgrade (EIP-4844) reduziu drasticamente os custos para redes de segunda camada (Layer 2). O mercado brasileiro absorveu essas atualizações rápidamente. A mentalidade atual das fintechs nacionais é clara: a blockchain principal (Layer 1) serve apenas como camada de segurança e liquidação final para grandes volumes. O varejo precisa operar em outras vias.

Layer 2 e Sidechains: A rota de fuga das fintechs brasileiras

A migração em massa para redes secundárias foi o primeiro grande movimento da indústria local. Conversamos com desenvolvedores das principais tokenizadoras de São Paulo e o consenso é absoluto: ninguém lança token para o varejo na rede principal do Ethereum hoje.

A Polygon consolidou-se como a rede preferida das operações brasileiras. Plataformas como a Vórtx QR e a própria Liqi estruturaram grande parte de suas ofertas de RWA útilizando essa sidechain. O motivo é puramente matemático. Enquanto uma emissão de tokens na rede Ethereum pode custar centenas de dólares, a mesma operação na Polygon custa frações de centavo de dólar (frequentemente menos de R$ 0,05 por transação).

O impacto prático no modelo de negócios

Vamos aos números reais. Uma fintech que emite 10.000 tokens de um precatório estadual precisa distribuir esses ativos para as carteiras de 2.000 investidores. Na rede Ethereum (a um custo hipotético conservador de US$ 5 por transferência), a distribuição custaria US$ 10.000 (cerca de R$ 55.000). Esse custo corrói o spread da operação.

Na Polygon, Arbitrum ou Optimism — redes que processam transações fora da cadeia principal e enviam apenas os recibos compactados (rollups) para o Ethereum —, essa mesma distribuição em massa custa menos de R$ 50. Essa economia brutal permite que as plataformas reduzam o valor mínimo de investimento. Não é coincidência que começamos a ver ofertas de tokens a partir de R$ 25 no Brasil logo após a adoção em massa das redes Layer 2.

Outras redes também ganharam tração. A rede Stellar, por exemplo, é amplamente útilizada pelo Mercado Bitcoin para certos tipos de tokens de útilidade e recebíveis devido ao seu design otimizado para pagamentos rápidos e de altíssimo volume, com taxas virtualmente nulas.

Account Abstraction: O pulo do gato brasileiro

Migrar para redes mais baratas resolve o problema do valor da taxa, mas não resolve o problema da Experiência do Usuário (UX). O investidor tradicional brasileiro está acostumado com o Pix, onde a transferência é instantânea e a taxa é zero. Ele não quer saber o que é gas, não quer comprar a criptomoeda nativa da rede (como ETH ou MATIC) só para pagar a taxa de transferência do seu token de recebível.

Aqui entra a verdadeira revolução silenciosa que está ocorrendo nos bastidores das fintechs brasileiras: a Account Abstraction, específicamente o padrão ERC-4337.

Na nossa análise, essa é a tecnologia mais transformadora para a adoção institucional e de varejo no Brasil. A abstração de contas permite transformar a carteira do usuário em um contrato inteligente programável. O que isso significa na prática?

Significa que a tokenizadora pode implementar Gasless Transactions (transações sem taxa para o usuário). O investidor entra no aplicativo da corretora, escolhe o token do agronegócio, clica em comprar e paga com Pix. Nos bastidores, um sistema chamado Paymaster — financiado pela própria corretora — assume o custo residual do gas na blockchain (aqueles poucos centavos da rede Polygon).

O cliente recebe o token na sua carteira digital sem nunca ter encostado em uma criptomoeda volátil. A empresa absorve o custo do gas como Custo de Aquisição de Cliente (CAC) ou despesa operacional, exatamente como o Nubank ou o Itaú absorvem os custos de infraestrutura de servidores em nuvem. A blockchain torna-se completamente invisível.

O fator Drex: A infraestrutura pública e o gas subsidiado

Não podemos falar de custos de transação no Brasil sem analisar o Drex. A moeda digital do Banco Central (CBDC) está sendo construída sobre o Hyperledger Besu, uma rede compatível com a Ethereum Virtual Machine (EVM), mas operada em um ambiente permissionado (privado) onde os nós validadores são os grandes bancos, corretoras e o próprio BACEN.

Como o Drex muda a dinâmica das taxas?

Em redes públicas, o gas funciona como um mecanismo de mercado para evitar ataques de spam e remunerar mineradores/validadores independentes. No ecossistema do Drex, a dinâmica é estruturalmente diferente. Os validadores são instituições financeiras que já possuem obrigações regulatórias e modelos de receita baseados em serviços financeiros (crédito, custódia, estruturação de fundos), não na mineração de blocos.

Segundo as diretrizes técnicas discutidas nos fóruns do consórcio do Drex ao longo de 2024 e 2025, o custo de processamento das transações na rede (o equivalente ao gas) será diluído na infraestrutura interbancária. Para o cliente final — seja uma empresa emitindo uma debênture ou um cidadão comprando um título do Tesouro Nacional tokenizado —, a expectativa é que a transação tenha um modelo tarifário semelhante ao sistema financeiro atual.

Se você usar o Drex para liquidar a compra de um carro via smart contract, o banco poderá cobrar uma tarifa pelo serviço de "contrato inteligente de custódia", mas não uma taxa flutuante e imprevisível de rede. O risco de volátilidade do gas simplesmente desaparece no ambiente institucional regulado pelo BACEN.

Estratégias táticas para o investidor e emissores independentes

Se você está estruturando um projeto fora do ambiente permissionado do Drex, ou se é um investidor operando diretamente no ecossistema DeFi (Finanças Descentralizadas), existem táticas operacionais para derrubar seus custos.

Para Emissores e Desenvolvedores

  1. Batching de Transações: Nunca processe distribuições de tokens uma a uma. Utilize contratos inteligentes que permitem batch transfers (transferências em lote). Ferramentas como o Disperse.app (ou versões proprietárias criadas internamente) permitem enviar tokens para centenas de endereços em uma única transação, reduzindo o custo de gas por carteira em até 80%.

  2. Escolha do Padrão de Token: Avalie se o seu ativo precisa ser um ERC-20 individual. O padrão ERC-1155 permite agrupar múltiplos tipos de tokens (fungíveis e não-fungíveis) no mesmo contrato inteligente. Para plataformas que emitem séries diferentes de recebíveis constantemente, o ERC-1155 economiza quantias massivas de gas na implantação (deploy) de novos contratos.

  3. Otimização de Smart Contracts: Cada linha de código custa dinheiro. Variáveis não útilizadas e loops mal estruturados consomem gas desnecessário. Auditorias de código hoje não focam apenas em segurança, mas em gas optimization.

Para o Investidor de Varejo

  1. Monitoramento de Gwei: Se você precisa interagir com a rede principal (L1), o timing é tudo. Historicamente, os finais de semana (especialmente madrugadas de domingo no fuso horário de Brasília) apresentam as menores taxas de rede. Ferramentas de rastreamento de gas são paradas obrigatórias antes de assinar qualquer transação de alto custo.

  2. Uso de CEXs como pontes: Exchanges centralizadas brasileiras e globais que operam no Brasil (como Mercado Bitcoin, Binance, Foxbit) frequentemente subsidiam ou otimizam as taxas de saque para redes Layer 2. Em vez de usar pontes descentralizadas (Bridges) que operam na camada 1 e cobram caro, muitas vezes é mais barato enviar seus ativos para uma CEX e sacar diretamente na rede Polygon ou Arbitrum.

  3. Foque no ecossistema local integrado: Plataformas que oferecem integração direta com o Pix e mantêm a custódia das chaves (custódia qualificada) geralmente isentam o investidor das taxas de rede, cobrando apenas uma taxa de performance ou de corretagem clara no momento da liquidação do ativo.

A invisibilidade como padrão ouro

O mercado financeiro brasileiro sempre foi obcecado por eficiência transacional. O Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), o STR, a TED e o Pix são provas de que o Banco Central e os players privados não toleram infraestruturas lentas e caras. A tokenização não seria exceção.

A era de justificar altas taxas de rede pela "segurança da descentralização" acabou. O investidor exige o rendimento prometido do ativo real, sem pedágios tecnológicos. A combinação de redes Layer 2, a adoção em massa da Account Abstraction e a chegada iminente do Drex criaram uma tempestade perfeita para a redução de custos.

As empresas que ainda repassam a complexidade e o custo do gas para o usuário final estão operando com uma mentalidade de 2021. Hoje, a tecnologia blockchain de sucesso no Brasil é aquela que o usuário nem sabe que está usando. O token virou apenas um número na tela do aplicativo bancário, lastreado por um contrato inteligente implacável e, acima de tudo, barato de operar.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.