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O impacto do DREX na custódia de tokens: novo paradigma de settlement

2025-09-30·6 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

O DREX transforma a liquidação financeira ao permitir o Delivery-versus-Payment (DvP) atômico, eliminando o risco de contraparte e a necessidade de câmaras de compensação tradicionais. Essa infraestrutura libera bilhões em colaterais travados e redefine o papel das custódiantes no Brasil.

Imagine liquidar um lote de R$ 500 milhões em debêntures tokenizadas às 3h da manhã de um domingo, com zero risco de contraparte, em exatos dois segundos. Sem passar por uma câmara de compensação. Sem esperar o D+1 da B3. Apenas código validando a entrega do ativo contra o pagamento simultâneo.

Isso é o DREX operando em sua essência. O projeto de moeda digital do Banco Central (CBDC) ultrapassou a fase de ser apenas um 'PIX para o atacado'. Ele é um motor de liquidação programável que altera a própria física do dinheiro institucional no Brasil.

Cobrimos o mercado financeiro há mais de quinze anos. Acompanhamos a implementação do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) em 2002 e a explosão do PIX em 2020. O que o Bacen prepara agora para 2026 ataca a principal fricção do mercado de capitais: o settlement (liquidação). E quem opera infraestrutura de mercado precisa recalcular a rota agora.

O abismo do Settlement tradicional e a chegada do DREX

Hoje, quando uma gestora compra um título público ou privado, o dinheiro viaja por um trilho e o ativo viaja por outro. Essa assincronia cria o risco de contraparte — o medo de que a outra ponta quebre antes de entregar o ativo ou o dinheiro.

Para mitigar isso, o mercado criou as clearings (câmaras de compensação), como a B3 e a Selic. Elas ficam no meio da operação exigindo garantias (colaterais). Funciona, mas custa caro e engessa o capital. Trilhões de reais dormem travados todos os dias apenas para garantir que o sistema não colapse durante a janela de liquidação (T+1 ou T+2).

O DREX roda em uma rede DLT (Distributed Ledger Technology), específicamente a Hyperledger Besu. Nessa rede, o Real Digital (moeda de atacado) e os ativos tokenizados coexistem no mesmo ambiente. Isso permite usar Smart Contracts para executar o que chamamos de DvP Atômico.

A Mecânica do DvP Atômico

Delivery versus Payment (DvP) significa 'Entrega contra Pagamento'. A palavra 'Atômico' vem da ciência da computação: uma transação atômica ocorre por inteiro ou não ocorre. Não existe meio-termo.

Na prática, o Smart Contract do DREX atua como um juiz cego e instantâneo. Ele verifica se o Banco A tem o Real Digital e se o Banco B tem o token do Título Público Federal (TPF). Se ambas as condições forem verdadeiras, a troca acontece na mesma fração de segundo. Se uma falhar, a operação inteira é revertida. Ninguém fica segurando o risco.

O Novo Papel dos Smart Contracts na Custódia

Com essa mudança, a custódia de ativos deixa de ser um cofre estático para se tornar um orquestrador de software. Custodiantes tradicionais e novos players nativos cripto (como Parfin, Vórtx QR e Mynt) estão adaptando suas infraestruturas.

A custódia agora envolve gerenciar chaves privadas que assinam as interações com os Smart Contracts do Bacen. A Resolução CVM 175 já abriu caminho para que fundos de investimento invistam em criptoativos, e a infraestrutura do DREX será a rodovia por onde esses fundos liquidarão suas cotas tokenizadas.

O Fim do T+1 e a Liberação de Colaterais

A eficiência de capital é o grande troféu do DREX. Bancos e corretoras mantêm cerca de 10% a 15% do seu volume financeiro diário travado em margens de garantia nas clearings. Na B3, que movimenta dezenas de bilhões diariamente no mercado de ações e derivativos, o custo de oportunidade desse capital parado é colossal.

Com a liquidação atômica e instantânea, a necessidade de margem de garantia despenca. O capital que antes ficava imobilizado como 'seguro' pode ser realocado para gerar crédito na economia real. O Itaú e o BTG Pactual já demonstraram em testes do piloto que a redução de custos operacionais de back-office pode chegar a 40% em operações estruturadas.

O Gargalo da Privacidade: O Teste de Fogo do Bacen

O maior obstáculo técnico enfrentado pelo Banco Central na Fase 1 do piloto foi a privacidade. Em uma rede blockchain padrão, todos os nós veem os saldos e as transações de todos. Em um mercado competitivo, o Bradesco não pode saber o volume que o Nubank está liquidando em tempo real.

A solução em teste na Fase 2 envolve criptografia avançada, específicamente as Provas de Conhecimento Zero (ZKP - Zero-Knowledge Proofs). Soluções como o Zether e a rede Rayls (desenvolvida pela brasileira Parfin) estão sendo homologadas para garantir que o DvP atômico aconteça sem revelar os metadados da transação para os outros participantes da rede.

Implicações Práticas para Operações Estruturadas

Se você estrutura FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários) ou debêntures, o DREX muda o jogo. A tokenização desses ativos permite que os pagamentos de juros e amortizações sejam programados diretamente no token.

Um CRI tokenizado distribuído pelo Mercado Pago, por exemplo, não precisará de um agente fiduciário fazendo conciliação manual em planilhas para distribuir os dividendos aos investidores. O próprio Smart Contract lê o saldo da conta emissora e distribui o Real Digital (na versão de varejo, o Real Tokenizado) proporcionalmente para as carteiras dos detentores do token. Tudo em segundos.

A tokenização de ativos reais (RWA - Real World Assets) encontra no DREX a sua peça final. O Brasil já é vanguarda global em tokenização de recebíveis, mas faltava a moeda nativa da rede para liquidar as operações sem precisar sair do ambiente blockchain e voltar para o sistema bancário legado (STR/SPB).

O Futuro da Liquidação no Brasil

O que observamos nos bastidores do piloto do DREX é uma corrida silenciosa. Instituições que não modernizarem seus core bankings para interagir via APIs com a rede Hyperledger Besu ficarão isoladas.

A visão de longo prazo do Bacen e da CVM aponta para um mercado de capitais 24/7. Mais do que isso, projetos internacionais como o mBridge (do BIS) e o Projeto Agorá já estudam como conectar CBDCs de diferentes países. Em breve, a liquidação atômica não será apenas entre dois bancos na Faria Lima, mas entre uma gestora em São Paulo e um fundo soberano em Singapura.

A custódia deixou de ser o final da esteira operacional. Com o DREX, ela é o ponto de partida para a programabilidade financeira.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.