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O lobby cripto em Brasília: quem financia, quem vota e o que querem aprovar

2025-05-07·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

O setor de criptoativos abandonou a postura antissistema e hoje opera uma das máquinas de lobby mais eficientes de Brasília. Com milhões investidos via associações como a ABCripto, a disputa atual foca em moldar as regras finais do Banco Central sobre segregação patrimonial e taxação, opondo exchanges nacionais, gigantes globais e grandes bancos.

Os moletons com capuz e o discurso anarcocapitalista ficaram no passado. Se você caminhar hoje pelos corredores das comissões temáticas da Câmara dos Deputados ou pelos gabinetes do Banco Central, vai encontrar executivos de terno sob medida, pastas de couro e planilhas de impacto regulatório debaixo do braço. O mercado de criptoativos cresceu, e com ele, a sua máquina de influência política.

Nossa apuração cruzou dados de audiências públicas, registros de agendas de autoridades e movimentações de associações setoriais. O que encontramos é um ecossistema altamente profissionalizado. O setor cripto hoje gasta dezenas de milhões de reais anualmente para garantir que a caneta dos reguladores não asfixie a inovação — ou, dependendo de quem paga a conta, para garantir que asfixie a concorrência.

Agora em 2025, o jogo subiu de nível. Com o Banco Central na reta final da públicação das regras definitivas para os Provedores de Ativos Virtuais (VASPs) sob a gestão de Gabriel Galípolo, e a Receita Federal apertando o cerco na tributação, o lobby cripto trabalha em capacidade máxima. Quem são os donos do dinheiro? Quem levanta a mão no plenário? E, mais importante, o que eles estão tentando aprovar na surdina?

O fim da inocência: Como chegamos até aqui

Até 2021, o lobby cripto brasileiro era fragmentado. Algumas exchanges nacionais tentavam, de forma amadora, conversar com deputados que mal sabiam a diferença entre Bitcoin e milhas aéreas. O resultado era um vácuo regulatório perigoso.

A virada de chave ocorreu com a tramitação do Marco Legal das Criptomoedas (Lei 14.478/2022). O medo de que o Brasil adotasse uma postura punitiva, nos moldes da China, forçou as empresas a sentarem na mesma mesa. As corretoras perceberam que, sem uma representação institucional forte, seriam engolidas pelo forte lobby bancário tradicional, liderado pela Febraban.

A CPI das Pirâmides Financeiras em 2023 serviu como um catalisador. O Congresso colocou os holofotes sobre o setor, exigindo respostas rápidas. Para sobreviver ao escrutínio público e separar o joio do trigo, as empresas legítimas abriram os cofres e contrataram os maiores escritórios de Relações Governamentais (RelGov) da capital federal.

Quem assina o cheque: O dinheiro por trás das portas fechadas

Lobby custa caro. Um escritório de Relações Governamentais de primeira linha em Brasília não cobra menos de R$ 50 mil a R$ 150 mil mensais apenas para monitorar pautas e agendar reuniões. Se o objetivo é redigir emendas e atuar ativamente na aprovação ou rejeição de um projeto de lei, os contratos fácilmente ultrapassam a casa dos milhões.

O ecossistema se divide em blocos de interesse muito claros, cada um financiando sua própria agenda.

O bloco nacional: A força da ABCripto

A Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto) é hoje a voz mais audível do setor em Brasília. Financiada por gigantes locais como Mercado Bitcoin, Foxbit e players institucionais, a associação construiu uma ponte direta com o Banco Central e a CVM.

A agenda desse grupo é clara: criar um ambiente regulatório que exija presença física no Brasil, reporte rigoroso ao COAF e regras rígidas de compliance. Na prática, eles querem que as exchanges estrangeiras tenham o mesmo custo de operação que eles têm. O argumento oficial é a proteção do investidor e a segurança sistêmica.

Os gigantes globais: Atuação paralela

Do outro lado do ringue estão as gigantes internacionais, com a Binance liderando o volume de mercado. Historicamente, essas empresas preferiam uma atuação mais solitária ou por meio de câmaras de comércio internacionais. Hoje, elas operam com lobistas peso-pesado para garantir que a regulação brasileira não destrua seus modelos de negócios globais.

O principal ponto de atrito financiado por esse grupo é a flexibilização das regras de liquidez. Eles argumentam que forçar o isolamento do mercado brasileiro em 'silos' locais encarece as taxas para o usuário final e reduz a profundidade do mercado.

As fintechs e bancos digitais: O lobby cruzado

Players como Nubank, Mercado Pago e Inter atuam por meio de associações como a Zetta. O foco principal deles é o mercado de pagamentos e crédito, mas como todos oferecem compra e venda de cripto em seus apps, o lobby se cruza.

Eles defendem uma regulação assimétrica: quem faz apenas a intermediação (como eles, via parcerias com Paxos ou outras custódiantes) deve ter regras mais leves do que as exchanges que operam o livro de ofertas e a custódia direta.

A linha de frente: Quem são os parlamentares pró-cripto

O dinheiro das associações não compra votos diretamente, mas compra acesso, tempo de escuta e a elaboração de pareceres técnicos que vão parar nas mãos dos relatores. Identificamos os principais nomes que compõem a 'bancada cripto' não oficial.

O Deputado Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ) é o decano desse grupo. Autor do PL 2303/2015, que deu origem ao Marco Legal, ele continua sendo a principal porta de entrada para demandas do setor na Câmara. Seu gabinete é parada obrigatória para qualquer executivo de exchange que desembarca em Brasília.

No Senado, Irajá (PSD-TO) consolidou sua influência ao relatar o Marco Legal. Ele mantém um canal aberto com as corretoras e frequentemente atua para barrar emendas que o setor considera prejudiciais, especialmente na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Observamos também uma nova geração de parlamentares liberais, como Kim Kataguiri (União-SP) e Marcel van Hattem (NOVO-RS), que frequentemente discursam a favor do setor sob a ótica da liberdade econômica e da oposição ao controle estatal sobre o dinheiro.

A dinâmica com o centrão

A aprovação de qualquer pauta passa pelo bloco majoritário da Câmara. O lobby cripto aprendeu a falar a língua do desenvolvimento econômico. Quando conversam com líderes partidários, o argumento não é sobre a descentralização do Bitcoin, mas sobre arrecadação de impostos, geração de empregos em tecnologia e atração de capital estrangeiro.

A pauta de 2025: O que eles querem aprovar na surdina

O Marco Legal foi apenas o esqueleto. A carne está sendo colocada agora, nas resoluções do Banco Central e da CVM, e em projetos de lei complementares que tramitam longe dos holofotes. Mapeamos as três maiores batalhas regulatórias deste ano.

1. A guerra da Segregação Patrimonial

Este é o assunto mais quente nos corredores de Brasília. A segregação patrimonial impede que a corretora misture o dinheiro dos clientes com o seu próprio caixa. Foi a ausência dessa regra que permitiu a fraude da FTX em 2022.

O lobby nacional (ABCripto) pressiona implacavelmente o Congresso e o Banco Central para que a segregação seja obrigatória e imediata. O PL 3706/2021, que trata do tema, sofreu forte pressão para ser votado a toque de caixa.

As exchanges globais, por outro lado, fazem lobby por um período de transição longo. Elas alegam que a implementação abrupta inviabiliza o uso de pools de liquidez internacionais e produtos de rendimento (staking/earn) oferecidos aos brasileiros. A disputa aqui é puramente comercial, disfarçada de debaté técnico.

2. A tributação e as regras da Receita Federal

A Lei 14.754/2023 taxou as criptomoedas detidas no exterior (e em exchanges sem CNPJ) em 15%. O lobby agora atua nas Instruções Normativas (INs) da Receita Federal para definir o que exatamente constitui um 'ativo no exterior'.

As empresas de lobby lutam para evitar a tributação de permuta (crypto-to-crypto). Se você troca Bitcoin por Ethereum, a Receita quer cobrar imposto sobre o ganho de capital nessa transação. O setor argumenta que isso é impraticável e trava o mercado. Relatórios técnicos de escritórios de advocacia tributária financiados por exchanges circulam semanalmente entre os auditores fiscais.

3. A regulação das Stablecoins e o Pix

Com o volume de USDT (Tether) superando o Bitcoin no Brasil, o Banco Central acendeu o sinal de alerta. A gestão de Gabriel Galípolo vê as stablecoins atreladas ao dólar como um risco potencial de dolarização da economia brasileira.

O lobby das fintechs atua para que o BC enquadre as stablecoins nas mesmas regras dos arranjos de pagamento tradicionais. O objetivo oculto? Permitir que as stablecoins sejam integradas nativamente ao ecossistema do Pix, transformando o Brasil no maior laboratório global de pagamentos em blockchain.

O cabo de guerra com os bancões (Febraban)

Não se pode analisar o lobby cripto sem entender seu maior adversário: a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Os grandes bancos operam sob a máxima 'mesmo risco, mesma regra, mesmo capital'.

Se uma exchange oferece uma conta digital e um cartão de crédito com saldo em cripto, a Febraban exige no Congresso que ela cumpra as mesmas exigências de capitalização de um banco múltiplo. É uma estratégia clássica de barreira de entrada: aumentar o custo de conformidade para sufocar as fintechs menores.

A ironia é que instituições como Itaú (com o Íon) e BTG Pactual (com a Mynt) operam agressivamente no varejo cripto. O lobby bancário hoje não quer banir as criptomoedas; quer garantir que a infraestrutura pesada fique nas mãos de quem já domina o Sistema Financeiro Nacional.

Implicações práticas: O que muda para o seu bolso

Toda essa movimentação em Brasília tem impacto direto no custo e na experiência do investidor pessoa física e do empreendedor.

Se o lobby nacional vencer a pauta da segregação patrimonial e das exigências de sede física, prepare-se para ver uma consolidação do mercado. Muitas exchanges estrangeiras de médio porte abandonarão o Brasil. O resultado prático será maior segurança institucional, mas com taxas de corretagem possívelmente mais altas devido à menor concorrência.

Se a Receita Federal vencer a disputa sobre a tributação de permutas cripto-cripto, os traders ativos terão margens destruídas. Isso pode empurrar o varejo de volta para o mercado peer-to-peer (P2P) não regulado, o exato oposto do que o Banco Central deseja.

Para os fundadores de fintechs, a janela de oportunidade está nas regras de capital mínimo que o BC deve anunciar no segundo semestre de 2025. O lobby das associações menores tenta garantir licenças graduais, permitindo que startups iniciem operações sem precisar de dezenas de milhões em caixa.

O futuro da influência cripto

O mercado de criptoativos no Brasil amadureceu à força. A transição de um setor visto como refúgio de hackers para uma indústria que senta à mesa com o presidente do Banco Central é um estudo de caso sobre o poder de articulação institucional.

O lobby em Brasília não é inerentemente mau; é a engrenagem que traduz inovações tecnológicas complexas para legisladores analógicos. A sofisticação dessa máquina de influência garante que o Brasil continue sendo um dos mercados mais avançados do mundo em adoção institucional. Acompanharemos de perto cada emenda inserida na calada da noite, porque no fim do dia, a verdadeira inovação hoje não acontece apenas na blockchain — ela é codificada no Diário Oficial da União.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.