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Tether e Cantor Fitzgerald: a controversa parceria que sustenta US$ 110 bilhões em reservas

2025-02-14·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A aliança entre Tether e Cantor Fitzgerald centralizou o risco do mercado cripto em uma única corretora de Wall Street. Se essa estrutura de custódia sofrer um abalo regulatório ou de liquidez, o impacto sistêmico atingirá desde investidores institucionais globais até o varejo brasileiro que útiliza o USDT como proteção cambial.

Você entrega o equivalente a R$ 600 bilhões nas mãos de uma corretora de Wall Street, sem seguro federal abrangente, e diz: "Guarda para mim". Parece roteiro de um documentário sobre desastrês financeiros. Mas essa é a exata infraestrutura que sustenta o mercado global de criptomoedas em 2025. A Tether, emissora da stablecoin USDT, não guarda seu próprio lastro. Ela terceirizou essa tarefa colossal para a Cantor Fitzgerald, uma corretora tradicional de Nova York.

Se você opera cripto no Brasil, faz remessas internacionais ou usa plataformas de pagamento digital, preste atenção aqui. O USDT é o oxigênio do ecossistema cripto. Sem ele, a liquidez global seca em horas. E o cilindro de oxigênio está trancado no cofre de Howard Lutnick, o polêmico CEO da Cantor Fitzgerald.

Nossa análise mergulha nos bastidores dessa parceria peculiar. Como uma empresa offshore com um histórico bancário historicamente nebuloso conseguiu acesso direto ao coração do mercado de títulos do Tesouro dos EUA? E, o mais crítico: qual é o tamanho do buraco se essa estrutura ruir?

A Caixa-Forte de Wall Street

Para entender o peso dessa aliança, precisamos olhar para o passado recente. Até pouco tempo atrás, a Tether era a pária do sistema financeiro tradicional. Bancos de primeira linha, como JPMorgan, Citibank e Morgan Stanley, recusavam-se a abrir contas para a empresa. O risco de compliance e as ameaças de lavagem de dinheiro afastavam qualquer gigante regulado.

A Tether vagou por instituições menores e jurisdições obscuras. Passou por bancos em Taiwan, usou processadores de pagamento no Panamá (a infame Crypto Capital Corp) e ancorou-se no Deltec Bank, nas Bahamas. A narrativa dos críticos era clara: o USDT era um castelo de cartas.

Isso mudou radicalmente quando a Cantor Fitzgerald abriu suas portas. Fundada em 1945, a Cantor não é um banquinho caribenho. É um "primary dealer" — uma das poucas instituições financeiras autorizadas a negociar títulos do Tesouro dos EUA (T-bills) diretamente com o Federal Reserve (Fed).

Quando a Cantor assumiu a custódia da maior parte das reservas da Tether (hoje estimadas em mais de US$ 110 bilhões, majoritariamente em T-bills), o mercado respirou aliviado. A mensagem implícita foi forte: "Se uma corretora gigante de Wall Street está validando e guardando esses bilhões, o dinheiro realmente existe". A Tether deixou de ser uma incógnita offshore para se tornar, ironicamente, uma das maiores financiadoras da dívida pública americana no planeta.

O Risco de Concentração: E se a Cantor Quebrar?

Aqui entramos no terreno pantanoso do risco sistêmico. O mercado cripto comemora a transparência que a Cantor traz, mas ignora o risco de concentração. O que acontece se a corretora falhar?

Na teoria da regulação financeira americana (específicamente a Regra 15c3-3 da SEC), ativos de clientes sob custódia devem ser mantidos estritamente segregados dos ativos da própria corretora. Se a Cantor Fitzgerald entrar em colapso financeiro amanhã por uma aposta ruim no mercado imobiliário comercial ou derivativos, os títulos do Tesouro pertencentes à Tether não poderiam ser usados para pagar os credores da corretora.

Na prática, a história nos ensina a ter cautela. Quando a Lehman Brothers quebrou em 2008, ou mais recentemente o Silicon Valley Bank em 2023, vimos que a falência de um custódiante gera um congelamento imediato de liquidez. Mesmo que os ativos estejam lá e sejam seus, você não consegue acessá-los no dia seguinte.

Imagine esse cenário aplicado ao USDT. A Tether sofre uma onda de resgates (uma corrida bancária digital). Os usuários querem trocar bilhões de USDT por dólares reais. A Tether liga para a Cantor Fitzgerald para liquidar seus T-bills, mas a corretora está sob intervenção regulatória ou com os sistemas congelados por um processo de falência.

O resultado? A Tether não consegue honrar os saques. O USDT perde a paridade de US$ 1. O contágio atinge o Bitcoin, que despenca, e liquida bilhões em posições alavancadas em corretoras ao redor do mundo. É um risco de cauda — improvável, mas com potencial de extinção para o mercado.

Conflitos de Interesse no Eixo Nova York-Lugano

Outro ponto que acende alertas nos escritórios de compliance é a postura pública de Howard Lutnick. O papel de um custódiante tradicional é ser invisível, neutro e burocrático. A Staté Street ou o BNY Mellon não dão entrevistas na CNBC defendendo apaixonadamente as empresas cujos fundos eles guardam.

Lutnick faz exatamente isso. Ele se tornou uma espécie de porta-voz não oficial e escudo de relações públicas da Tether. Em diversas entrevistas, ele afirmou categoricamente: "Eles têm o dinheiro. Eu administro as reservas, eu vejo o dinheiro".

Essa relação simbiótica gera desconforto. A Cantor Fitzgerald lucra dezenas de milhões de dólares em taxas para gerenciar esses T-bills. Existe um incentivo financeiro brutal para que a corretora mantenha a reputação da Tether intacta.

Para piorar, a Tether ainda não possui uma auditoria completa de seus balanços feita por uma empresa do "Big 4" (Deloitte, PwC, EY, KPMG). A empresa baseia sua transparência em atestações trimestrais emitidas pela BDO Italia. Uma atestação é um retrato de um momento específico; uma auditoria é um filme detalhado de como o dinheiro se move. A recusa das grandes auditorias em assinar o balanço da Tether joga um peso desproporcional sobre a palavra de Howard Lutnick.

O Fator Brasil: Volume de USDT e a Lupa do Banco Central

Se você acha que isso é um problema restrito aos engravatados de Nova York ou aos executivos da Tether em Lugano, olhe para o seu próprio quintal. O Brasil é um dos maiores consumidores mundiais de USDT.

Segundo dados da Receita Federal do Brasil (RFB), o volume negociado em stablecoins ultrapassou a marca de R$ 315 bilhões apenas em 2023, com o USDT dominando mais de 80% desse fluxo. Nós usamos o USDT não apenas para comprar Bitcoin, mas como um dólar sintético.

Empresas de comércio exterior usam a stablecoin para pagar fornecedores na Ásia. Brasileiros comuns convertem reais para USDT via Pix através de plataformas como SmartPay, Capitual, ou em exchanges como Mercado Bitcoin e Foxbit, buscando fugir da desvalorização cambial. Gigantes como Nubank Cripto e Mercado Pago integram infraestruturas onde a liquidez global do USDT dita os preços locais.

A Regulação Fechando o Cerco

O Banco Central do Brasil (BACEN) observa essa dependência com lupa. Com as novas regulamentações para Provedores de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs) tomando forma pós-Lei das Criptomoedas (Lei 14.478/2022), a exigência de segregação patrimonial e gestão de risco cibernético (como visto na Resolução 4.893) será aplicada rigorosamente às exchanges locais.

Se uma corretora brasileira oferece USDT aos seus clientes, ela está indiretamente importando o risco de custódia da Cantor Fitzgerald. O BACEN sabe disso. A CVM sabe disso. A grande questão regulatória para 2025 e 2026 será: até que ponto as instituições financeiras brasileiras poderão depender de uma stablecoin cujas reservas dependem de uma única corretora americana sob constante escrutínio político e regulatório?

Anatomia de um Risco Sistêmico

Vamos destrinchar a mecânica dos títulos do Tesouro. Quando a Tether compra T-bills via Cantor, esses títulos são registrados no sistema financeiro através de um número CUSIP e custódiados em câmaras de compensação (clearing houses).

O problema não é o lastro em si. Títulos do Tesouro americano são o ativo mais seguro e líquido do mundo. O gargalo é a infraestrutura de liquidação. Se o Departamento de Justiça dos EUA (DoJ) decidir investigar a Tether por fácilitar transações de entidades sancionadas (um boato que assombra a empresa há anos) e emitir uma ordem de congelamento, a Cantor Fitzgerald seria obrigada a travar os ativos imediatamente.

Diferente de um banco offshore nas Bahamas que poderia tentar ignorar ou atrasar uma ordem americana, a Cantor Fitzgerald é uma entidade central do sistema financeiro dos EUA. Eles congelariam os US$ 110 bilhões da Tether em questão de minutos para proteger sua própria licença de operação.

O mercado de criptomoedas tem um "FGC gigante" (Fundo Garantidor de Créditos) que só existe na teoria. Na prática, a dependência do mercado em relação ao USDT transforma a Cantor Fitzgerald no calcanhar de Aquiles do Bitcoin.

O Veredito: Uma Aliança Necessária, mas Perigosa

A parceria entre a Tether e a Cantor Fitzgerald resolveu o maior problema da história das criptomoedas: provar que os bilhões que lastreiam a maior stablecoin do mundo realmente existem e estão investidos em ativos seguros. Tirou a Tether das sombras dos paraísos fiscais e a colocou no centro de Wall Street.

No entanto, essa solução criou um novo problema de mesma magnitude. Substituímos o risco de fraude (o dinheiro não existir) pelo risco de concentração (o dinheiro estar preso em um único gargalo regulatório e operacional).

Enquanto o mercado operar em dias de sol, com o Bitcoin em alta e os reguladores calmos, a Cantor Fitzgerald continuará lucrando suas taxas milionárias e a Tether continuará imprimindo seus dólares sintéticos. Mas, no mercado financeiro, a tempestade nunca avisa quando vai chegar. E quando os raios começarem a cair, o mundo inteiro vai descobrir se a caixa-forte de Howard Lutnick é realmente à prova de balas.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.