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Intents e o futuro do trading cripto: como protocolos baseados em intenção melhoram a execução para brasileiros

2025-07-18·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

Protocolos baseados em intenção (Intents) transferem a complexidade e o risco do trading do usuário para agentes institucionais chamados Solvers. Para o investidor brasileiro, isso garante proteção absoluta contra ataques MEV, fim das taxas de gas em transações falhas e a melhor rota de preço na conversão de ativos via plataformas como UniswapX e CowSwap.

Você abre sua MetaMask ou Phantom. Tenta trocar 2 ETH por USDC. Coloca 0.5% de slippage para garantir que a ordem passe. A transação falha por volátilidade momentânea, mas a blockchain cobra R$ 150 de taxa de gas mesmo assim. O dinheiro evapora.

Ou pior: a transação passa. Mas, entre o momento em que você clicou em assinar e o bloco ser validado, um robô invisível operado por um validador aplicou um sandwich attack. Ele comprou o ativo milissegundos antes de você, jogou o preço para cima, vendeu para você pelo preço mais caro e embolsou a diferença. Você acabou de perder R$ 300 da sua margem.

Se você opera Finanças Descentralizadas (DeFi) no Brasil, conhece essa dor. Nós acompanhamos o desespero diário nas mesas de operação de fundos cripto da Faria Lima e nos grupos de investidores de varejo. A infraestrutura original das blockchains é hostil ao usuário final.

A boa notícia? O mercado acordou. Em 2025, a solução que está engolindo o volume das corretoras descentralizadas atende por uma palavra: Intents (Intenções). A mudança arquitetônica é brutal. Saímos de um modelo onde você precisa ditar cada passo da transação para um modelo onde você apenas diz o que quer.

O roubo invisível: a dor do trading imperativo

Para entender o tamanho da revolução dos Intents, precisamos olhar para o problema. A arquitetura clássica da Ethereum e de redes EVM compatíveis funciona sob um modelo imperativo.

Você, como usuário, precisa dar ordens estritas: aprovar o contrato inteligente do token, definir a rota exata (ex: ETH -> USDT -> USDC), calcular o limite de gas, estipular a tolerância de derrapagem (slippage) e enviar a transação para uma sala de espera pública chamada Mempool.

A Mempool é uma selva. Lá, robôs de busca de Valor Máximo Extraível (MEV) escaneiam cada transação pendente. Eles identificam ordens grandes ou com slippage mal configurado e pagam propina aos mineradores/validadores para reordenar os blocos a favor deles.

Dados da Flashbots de maio de 2025 mostram que o MEV já drenou mais de US$ 1.8 bilhão de usuários do varejo nos últimos três anos. O trader brasileiro entra em desvantagem dupla: perde na conversão do câmbio ao enviar dinheiro via PIX para comprar stablecoins e perde novamente ao ser mastigado por robôs de alta frequência em DEXes (Decentralized Exchanges).

A virada de chave: o que são Intents?

A mudança de paradigma dos protocolos baseados em intenção é simples de entender se usarmos uma analogia do nosso cotidiano.

O modelo antigo (imperativo) é como dirigir seu próprio carro em São Paulo. Você precisa saber a rota, desviar dos buracos, pagar o pedágio, calcular o combustível e encontrar uma vaga. Se a rua estiver interditada, o problema é seu.

O modelo baseado em Intents é como pedir um Uber. Você apenas declara sua intenção: "Quero ir da Avenida Paulista para a Faria Lima e pago até R$ 35". Você não liga para a rota que o motorista vai fazer, se ele vai usar Waze ou Google Maps, ou onde ele vai abastecer. Você terceiriza a complexidade.

A diferença entre Imperativo e Declarativo

No DeFi, uma intenção é uma ordem criptográfica assinada off-chain (fora da blockchain). Você declara: "Tenho 2 ETH e quero no mínimo 6.500 USDC. Quem me entregar isso, leva meus ETH".

Você não específica a DEX. Você não paga gas para enviar essa ordem. Você não envia a transação para a Mempool pública.

A ordem vai para uma rede privada onde agentes especializados, chamados de Solvers (ou Fillers/Resolutores), competem entre si para encontrar a melhor rota e preencher sua ordem.

A anatomia de uma intenção: Solvers e Leilões

Os Solvers mudam a economia do trading. Eles são mesas de OTC institucionais, formadores de mercado (Market Makers) como Wintermute e Jane Street, ou algoritmos sofisticados rodando em servidores na nuvem.

Quando você assina um Intent, esses Solvers iniciam um leilão de curtíssimo prazo (geralmente frações de segundo). O Solver que conseguir te entregar a maior quantidade de USDC pelos seus 2 ETH ganha o direito de executar a transação.

Como eles fazem isso? Eles podem usar a liquidez da Uniswap, agregar com a liquidez da Curve, ou usar o próprio saldo que têm parado na Binance. Eles pagam a taxa de gas da rede. Eles assumem o risco do slippage. Eles protegem a transação contra o MEV, pois empacotam a ordem diretamente com os validadores via canais privados.

CowSwap e a Coincidência de Desejos

Um dos pioneiros nesse mercado é a CowSwap. O nome vem de Coincidence of Wants (Coincidência de Desejos).

A CowSwap agrupa milhares de Intents de vários usuários em lotes (batches). Antes de ir ao mercado buscar liquidez, o protocolo tenta casar as ordens internamente.

Exemplo prático: João quer vender 10 ETH por USDC. Maria quer comprar 10 ETH pagando USDC. Em uma DEX tradicional, ambos pagariam taxas aos provedores de liquidez e taxas de gas à rede. Na CowSwap, o protocolo cruza as duas ordens internamente. Nenhum dos dois sofre impacto de preço. O que sobra desse cruzamento é enviado aos Solvers para ser resolvido em outras corretoras.

UniswapX e os Leilões Holandeses

A Uniswap, gigante absoluta do setor, lançou a UniswapX para não ficar para trás. O protocolo usa um modelo de Leilão Holandês (Dutch Auction).

Na UniswapX, o preço da sua ordem começa um pouco acima do mercado e vai caindo gradativamente em questão de segundos. O primeiro Solver que aceitar o preço e executar a ordem leva o negócio. Isso garante que o usuário sempre receba o preço de mercado mais justo no momento exato da execução, sem deixar dinheiro na mesa.

Por que o trader brasileiro precisa dominar os Intents agora

Nós observamos uma mudança de comportamento nas tesourarias e nos family offices brasileiros que operam cripto. A migração para plataformas baseadas em Intents não é uma questão de preferência de interface, mas de sobrevivência financeira.

Fim do gas perdido e abstração de taxas

O brasileiro médio sofre com a volátilidade cambial. Pagar o equivalente a R$ 100 em gas (usando ETH) para uma transação falhar é inaceitável para quem tem uma banca de R$ 5.000.

Com Intents, se a transação falhar, quem perde o gas é o Solver, não você. Você só assina uma mensagem gratuita fora da rede. Além disso, a abstração de taxas permite que você pague o custo da operação no próprio token que está trocando. Quer trocar USDC por UNI? O Solver debita a taxa de rede do USDC final. Você não precisa mais manter ETH parado na carteira apenas para pagar pedágio.

Proteção contra o "Custo Brasil" do MEV

Como grande parte das ordens do Brasil ocorre em fusos horários diferentes dos picos de liquidez asiáticos, as ordens locais ficam mais tempo expostas na Mempool ou sofrem com spreads maiores.

Ao usar protocolos como 1inch Fusion ou UniswapX, a ordem do usuário brasileiro passa por canais de RPC privados. Os robôs predatórios não conseguem enxergar a transação até que ela já esteja validada no bloco. A proteção é nativa e matemática.

Liquidez de BRL e o papel das mesas locais

Aqui está o pulo do gato para o mercado nacional. Stablecoins atreladas ao real, como BRZ (Transfero) e MBRL (Mercado Bitcoin), sofrem com liquidez fragmentada nas DEXes tradicionais.

Se um investidor tenta despejar 100.000 BRZ na Uniswap V3 para comprar USDT, o impacto no preço (slippage) pode passar de 2%. Ele perde milhares de reais na cotação.

Na economia de Intents, mesas de OTC brasileiras podem atuar como Solvers. Quando o usuário emite a intenção de trocar 100.000 BRZ por USDT, a mesa local (que tem liquidez profunda em bancos nacionais e contas em exchanges centralizadas) captura a ordem. A mesa pega os BRZ, entrega os USDT da sua própria tesouraria com um spread de apenas 0.2%, e lucra na arbitragem. O usuário economiza 1.8% na operação. O mercado inteiro ganha eficiência.

O futuro: Intents Cross-chain e a morte das Bridges

O mercado hoje caminha para o que chamamos de Abstração de Chain (Chain Abstraction).

Até 2024, se você tivesse USDC na rede Arbitrum e quisesse comprar um token na rede Solana, precisava usar uma ponte (bridge). As bridges são caras, lentas e historicamente vulneráveis a hackers (bilhões já foram roubados).

Em 2025 e 2026, os Intents resolvem isso. Você declara: "Tenho USDC na Arbitrum e quero o token WIF na Solana".

Um Solver institucional, que tem capital em ambas as redes, captura sua ordem. Ele recebe seus USDC na Arbitrum, assume o risco da ponte por conta própria, e envia o WIF da carteira dele na Solana direto para a sua carteira na Solana. Tudo em 3 segundos. O usuário final nem precisa saber o que é Arbitrum ou Solana. A experiência se torna idêntica a de um banco digital moderno como Nubank ou Inter.

O risco silencioso: centralização dos Solvers

Nem tudo é perfeito na arquitetura baseada em intenção. Transferir a complexidade para terceiros traz um risco inerente de centralização.

Se a rede de Solvers for dominada por apenas três ou quatro grandes formadores de mercado globais, eles podem começar a práticar conluio. Em vez de competirem ferrenhamente pelo melhor preço para o usuário, eles podem combinar spreads maiores.

Protocolos como Suave (desenvolvido pela Flashbots) e Anoma estão criando blockchains específicas apenas para descentralizar a camada de Solvers, garantindo que qualquer pessoa com capital e conhecimento técnico possa competir para preencher intenções, desde uma gestora em Nova York até um estudante de ciência da computação operando um robô em Recife.

O veredito

A transição do modelo imperativo para o modelo baseado em Intents é a maior atualização de infraestrutura visível ao usuário final desde a criação dos Contratos Inteligentes.

Para o mercado brasileiro — sensível a taxas, avesso a perdas cambiais e em rápida adoção de soluções descentralizadas —, os Intents removem a fricção técnica. O investidor não precisa mais ser um engenheiro de software para operar DeFi com eficiência institucional.

Se você gerencia capital próprio ou de terceiros, continuar usando rotas imperativas tradicionais é deixar dinheiro na mesa a cada clique. A ordem agora não é mais codificar o caminho, mas exigir o resultado. O mercado que se adapte a você.

Perguntas Frequentes

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Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.