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Estratégia Multichain: Por Que os Emissores de Tokens no Brasil Abandonaram a Monogamia de Rede

2025-09-20·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

Emissores brasileiros de tokens adotaram a estratégia multichain para equilibrar custos de transação, liquidez e segurança institucional. A escolha da blockchain hoje depende diretamente do ticket médio do ativo e das exigências de liquidação regulatória do Banco Central e da CVM.

O mercado financeiro brasileiro consolidou a marca de bilhões de reais em ativos do mundo real (RWA) tokenizados neste ano de 2025. Mas quem levanta o capô dessas operações corporativas encontra um motor híbrido. A monogamia de rede acabou. Nenhuma tokenizadora séria no país — seja Mercado Bitcoin (MB), Liqi, Vórtx QR ou o próprio Itaú Digital Assets — opera hoje amarrada a uma única blockchain.

Na nossa análise, a adoção de uma estratégia multichain não é um capricho tecnológico de engenheiros de software. É uma questão de sobrevivência comercial. Trata-se de matemática pura aplicada à margem de lucro estrutural de cada ativo lançado e às exigências regulatórias do nosso mercado local.

Há cinco anos, a resposta padrão para qualquer projeto de tokenização no Brasil era usar o padrão ERC-20 na rede principal do Ethereum. Parecia seguro, lógico e definitivo. O problema esbarrou na economia real brasileira e na volátilidade das taxas operacionais globais.

A Matemática Fria das Taxas de Rede

Operar exclusivamente no Ethereum virou um luxo insustentável para operações de varejo. O custo de registrar uma transação (gas fee) na rede principal oscila de forma imprevisível. Em dias de congestionamento global, movimentar um token pode custar R$ 50, R$ 100 ou até mais.

Quando a Liqi ou o MB Tokens estruturam a tokenização de um mecanismo de solidariedade da FIFA (como os direitos de formação de jogadores de futebol) ou fracionam precatórios do governo de São Paulo, o objetivo é democratizar o acesso. Eles emitem cotas de R$ 50 ou R$ 100 para o investidor pessoa física.

A conta simplesmente não fecha. Pagar R$ 30 de taxa de rede para transferir um token de R$ 50 destrói qualquer margem de lucro do emissor e inviabiliza o mercado secundário. O investidor ficaria preso ao ativo. O resultado? O mercado brasileiro precisou buscar alternativas mais baratas, rápidas e escaláveis, sem abrir mão da segurança criptográfica.

A Tríade da Tokenização Brasileira: Polygon, Ethereum e Stellar

Observamos que o mercado nacional se dividiu em casos de uso muito específicos. As redes deixaram de ser concorrentes diretas para se tornarem ferramentas especializadas dentro do portfólio das instituições financeiras.

Polygon: A Máquina de Processamento do Varejo

A Polygon se tornou a queridinha absoluta das fintechs brasileiras. Redes de segunda camada (Layer 2) ou sidechains que rodam em paralelo ao Ethereum oferecem o melhor dos dois mundos. As taxas custam frações de centavo de real e a velocidade de processamento atinge milhares de transações por segundo.

O grande trunfo da Polygon no Brasil é a sua compatibilidade total com a Ethereum Virtual Machine (EVM). Isso muda o jogo. Os mesmos desenvolvedores que criam contratos inteligentes ultra-seguros no Ethereum conseguem portar o código para a Polygon quase sem atrito ou necessidade de reescrever a lógica do zero. Hoje, a esmagadora maioria dos tokens de recebíveis de cartão de crédito, duplicatas e consórcios roda nesta rede.

Ethereum: O Cofre-Forte Institucional

Ninguém abandonou o Ethereum. Ele apenas mudou de função. Deixou de ser a rede de transações diárias para se tornar a camada de liquidação de alto valor. O cofre-forte.

Quando a Vórtx QR Tokenizadora ou o BTG Pactual estruturam fundos de investimento tokenizados sob as regras da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o foco muda. Estamos falando de cotas de R$ 100 mil, R$ 1 milhão, voltadas para investidores qualificados ou profissionais. Nesse cenário, uma taxa de R$ 100 vira pó na planilha de custos.

O que importa aqui é a resiliência da rede. O Ethereum possui a maior descentralização, o maior volume de capital travado (TVL) e a segurança testada por uma década de ataques hackers frustrados. Para ativos pesados e regulados, o mercado ainda confia cegamente na rede criada por Vitalik Buterin.

Stellar e Solana: Velocidade Pura para Pagamentos

A Stellar sempre manteve forte tração em operações transfronteiriças e remessas. Agora em 2025, vemos a rede sendo amplamente útilizada para infraestrutura de stablecoins pareadas ao real e liquidações rápidas entre mesas de operação (OTC). A velocidade de confirmação de blocos atrai players que não podem esperar os tradicionais 12 segundos do Ethereum.

A Solana também ganha espaço silencioso nos back-offices brasileiros. A latência mínima da rede atrai fundos quantitativos e formadores de mercado (market makers) que precisam arbitrar preços de tokens em milissegundos.

O Fator CVM e o Banco Central na Escolha da Infraestrutura

A regulação brasileira puxa a inovação tecnológica. O arcabouço criado pela CVM, especialmente com as resoluções sobre fundos de investimento e o Sandbox Regulatório, forçou as empresas a amadurecerem suas pilhas de tecnologia.

A autarquia exige auditoria rigorosa de smart contracts e capacidade de reversão de transações em caso de fraudes ou ordens judiciais. Redes obscuras, sem liquidez ou governança clara, simplesmente não passam no crivo dos reguladores locais. As tokenizadoras precisam provar que a blockchain escolhida possui ferramentas de monitoramento on-chain robustas.

Paralelamente, o Banco Central do Brasil desenhou o Drex (o nosso real digital) útilizando o Hyperledger Besu, uma rede permissionada compatível com EVM. Isso obrigou todos os players do mercado a garantirem que seus sistemas internos conversem nativamente com arquiteturas baseadas em Ethereum. O Drex não veio para substituir as redes públicas como Polygon ou Stellar. Ele atua como a camada de liquidação financeira definitiva, garantindo a entrega contra pagamento (DvP - Delivery versus Payment) de forma atômica.

Infraestrutura de Custódia Multichain

Operar em cinco blockchains diferentes cria um pesadelo operacional e de segurança. Como você guarda as chaves privadas de ativos espalhados por tantas redes? É aqui que empresas de infraestrutura brilham.

Players como a brasileira Parfin, além de gigantes globais como Fireblocks e BitGo, fornecem a cola que une essa estratégia. Eles oferecem carteiras digitais baseadas em computação multipartida (MPC - Multi-Party Computation) que suportam dezenas de blockchains na mesma interface.

Na prática, o operador da mesa de tesouraria de um banco não precisa saber de cor os comandos da rede Stellar ou da Polygon. Ele usa um painel unificado que abstrai a complexidade técnica, enquanto as regras de governança (quem aprova qual transação) são aplicadas uniformemente, independentemente de onde o token reside.

Interoperabilidade: O Santo Graal do Mercado

O maior risco da estratégia multichain é a fragmentação da liquidez. Se você tem R$ 10 milhões do mesmo ativo emitidos metade na Polygon e metade no Ethereum, os compradores de uma rede não conseguem interagir com os vendedores da outra. O spread aumenta e o preço perde eficiência.

Para resolver isso, o mercado brasileiro está adotando pesadamente protocolos de interoperabilidade, como o CCIP (Cross-Chain Interoperability Protocol) da Chainlink. Essas pontes tecnológicas permitem a transferência segura de mensagens e valores entre blockchains diferentes.

Se você opera um e-commerce corporativo ou uma originadora de crédito rural, preste atenção aqui. No futuro próximo, um recebível agrícola tokenizado na rede Polygon poderá ser travado como garantia em um contrato inteligente no Drex para liberar um empréstimo instantâneo em reais digitais. A interoperabilidade destrói os silos de liquidez.

Implicações Práticas para o seu Negócio

Adotar uma estratégia multichain deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar o padrão ouro da indústria financeira nacional. Se a sua empresa planeja emitir tokens de ativos reais, a escolha da infraestrutura deve seguir uma matriz de decisão rigorosa:

  1. Qual é o ticket médio da operação?
  2. Quem é o comprador final (Varejo ou Institucional)?
  3. Qual o nível de integração necessário com o Drex no curto prazo?
  4. O ativo exige negociação em alta frequência no mercado secundário?

Escolher a rede errada significa queimar caixa da empresa pagando taxas desnecessárias ou limitar o seu público-alvo por falta de liquidez. A monogamia tecnológica no mercado cripto penaliza a rentabilidade.

Visão de Futuro: A Morte da Guerra das Chains

Nossa projeção para os próximos anos é contundente: a blockchain vai sumir da vista do usuário. Assim como ninguém sabe ou se importa se o aplicativo do seu banco roda em servidores da Amazon Web Services (AWS) ou do Google Cloud, o investidor brasileiro não fará ideia de qual rede sustenta o seu token de precatório.

A guerra das blockchains, onde cada rede tentava ser a única vencedora para todos os casos de uso, acabou. O que emerge agora é um ecossistema colaborativo. O Drex cuidará da liquidação segura do dinheiro institucional. O Ethereum garantirá o registro de ativos de altíssimo valor agregado. A Polygon e outras L2s farão o trabalho sujo de processar milhões de microtransações do varejo brasileiro. A estratégia multichain venceu pela força da eficiência econômica.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.