Security tokens vs. útility tokens: a confusão regulatória que trava projetos brasileiros
Ponto-chave
A falta de uma fronteira clara entre útility e security tokens gera insegurança jurídica e afasta a inovação do Brasil. Startups gastam milhões tentando se adequar a regras analógicas, enquanto o mercado aguarda uma taxonomia definitiva inspirada no modelo europeu MiCA.
Você levanta R$ 5 milhões para sua startup Web3. Desenvolve um ecossistema brilhante. Lança um token que dá acesso a serviços premium na sua plataforma. Chama de 'útility token' no whitepaper. O marketing vai para a rua. A comunidade abraça a ideia.
Duas semanas depois, chega um ofício da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Uma 'stop order' bloqueando toda a sua operação. O seu suposto token de útilidade foi classificado como um valor mobiliário não registrado. A brincadeira vai custar multas pesadas, devolução de capital e o possível fim do seu negócio.
Essa cena não é roteiro de ficção. Acompanhamos casos idênticos nos bastidores da Faria Lima quase toda semana agora em 2025. A fronteira entre o que é um útility token e o que é um security token virou o maior gargalo da inovação financeira no Brasil.
Observamos que fundadores brilhantes estão paralisados. Investidores institucionais seguram o capital. O motivo? O limbo regulatório. Chamar um ativo digital de 'útility' não blinda ninguém contra a caneta da autarquia. Vamos destrinchar o que realmente está acontecendo no mercado brasileiro de tokenização.
A anatomia da confusão: O que a CVM realmente enxerga
Voltamos rápidamente no tempo. Em 2022, a CVM públicou o Parecer de Orientação 40. O mercado comemorou. Acreditávamos que teríamos regras cristalinas sobre criptoativos. O documento tentou consolidar o entendimento do regulador sobre a tokenização.
A regra de ouro da CVM baseia-se no conceito de Contrato de Investimento Coletivo (CIC). É a nossa versão tupiniquim do famoso 'Howey Test' americano (Lei 6.385/76). Se um ativo digital envolve investimento de dinheiro, em um empreendimento comum, com expectativa de lucro derivada do esforço de terceiros, ele é um valor mobiliário.
O problema mora na interpretação. Um token de desconto em uma rede de academias é claramente um útility. Você compra para usar. Mas e se a rede de academias criar um mercado secundário para esses tokens? E se o CEO tuitar que 'o token vai valorizar conforme abrirmos novas filiais'?
Pronto. A CVM enxerga um security token. A expectativa de lucro foi criada pelo esforço do emissor. O rótulo de 'útility token' no whitepaper não tem valor jurídico algum. O regulador olha para a essência econômica da oferta.
A armadilha do Utility Token no mercado brasileiro
Existe uma crença perigosa entre os empreendedores tech brasileiros. Muitos acham que classificar um ativo como útility token é um escudo mágico contra a regulação pesada do mercado de capitais. Essa ilusão já custou caro.
Vimos a explosão dos fan tokens há alguns anos. Vasco Token, Corinthians, Flamengo. Plataformas como Mercado Bitcoin e Chiliz surfaram essa onda. Eles operam em uma linha finíssima. O torcedor compra o token para votar na cor do ônibus do time (útilidade) ou porque espera que o token valorize se o time ganhar o campeonato (especulação)?
Quando uma startup tenta replicar esse modelo para financiar um projeto imobiliário, afirmando que o token dá 'acesso prioritário' ao prédio, o regulador não perdoa. A CVM morde rápido quando percebe que a verdadeira intenção é captação pública de recursos sem prospecto.
O Teste do Pato Regulatório
Na nossa análise, a CVM aplica o clássico teste do pato. Se anda como pato, nada como pato e grasna como pato, é um pato. Se o seu token promete rendimento, tem liquidez em exchanges e os compradores não usam o serviço atrelado a ele, é um security token.
Plataformas robustas como Liqi e Mercado Bitcoin aprenderam isso na prática. Elas gastam fortunas com escritórios de advocacia de primeira linha para estruturar cada emissão. Qualquer vírgula errada no material publicitário transforma um token de útilidade em um contrato de investimento coletivo irregular.
O custo invisível do limbo jurídico para as startups
Vamos falar de números reais. Estruturar o lançamento de um token no Brasil hoje exige pareceres legais complexos. Um memorando de entendimento de escritórios como Pinheiro Neto ou Mattos Filho não sai por menos de R$ 200 mil a R$ 400 mil.
Startups em estágio inicial não têm esse caixa. O resultado? O tempo de lançamento de um produto passa de ágeis 3 meses para arrastados 18 meses. A inovação trava. O custo de conformidade (compliance) asfixia os pequenos players.
O impacto macroeconômico é severo. Acompanhamos uma fuga de cérebros e de CNPJs. Projetos brasileiros excelentes estão abrindo holdings nas Ilhas Cayman, nas Ilhas Virgens Britânicas (BVI) ou em jurisdições europeias amigáveis ao MiCA. O Brasil perde capital, perde recolhimento de impostos e perde a vanguarda tecnológica.
Renda Fixa Digital e o malabarismo via Instrução 88
Como o mercado brasileiro não desiste nunca, os players encontraram rotas alternativas. A principal delas é assumir logo que o ativo é um security token, mas usar vias expressas regulatórias. Nasceu assim o boom da 'Renda Fixa Digital'.
Tokens de recebíveis, cotas de consórcio e precatórios viraram o carro-chefe das corretoras cripto nacionais. Para emitir esses ativos sem fazer um IPO tradicional (que custaria dezenas de milhões), as plataformas útilizam a Instrução CVM 88, focada em crowdfunding de investimento.
Empresas como Foxbit, MB Tokens e Liqi usam essa esteira. O limite de captação é de R$ 15 milhões por ano por emissor. É um teto baixo para projetos grandes de infraestrutura, mas salva a vida de operações médias. O mercado pressiona constantemente a CVM para elevar esse limite.
Sandbox Regulatório: Um respiro temporário?
Não podemos esquecer os testes controlados. O Sandbox Regulatório da CVM permitiu o surgimento de inovações como a Vórtx QR Tokenizadora e a BEE4 (primeiro mercado balcão organizado para tokens de ações de PMEs).
Esses ambientes provaram que a infraestrutura blockchain funciona perfeitamente para o mercado de capitais. A liquidação é instantânea, a transparência é absoluta. O problema é que o Sandbox é um ambiente de exceção. Precisamos transformar as regras do Sandbox em regras definitivas para todo o mercado.
Implicações Práticas: O que você precisa saber antes de tokenizar
Se você opera um e-commerce, uma fintech ou uma construtora e está pensando em lançar um token, preste atenção aqui. A teoria é bonita, mas a prática não perdoa erros.
Primeira regra: Nunca, em hipótese alguma, prometa rendimento financeiro atrelado a um útility token. Nem mesmo de forma implícita no grupo do Telegram da sua empresa. A CVM monitora redes sociais.
Segunda regra: Controle o mercado secundário. Se o seu token serve para resgatar produtos na sua loja, por que ele precisa estar listado em uma exchange global com alta volátilidade? A liquidez especulativa é o principal gatilho para a classificação como valor mobiliário.
Terceira regra: O parecer jurídico não é opcional, é o coração do seu negócio. Não copie o whitepaper de projetos gringos. A legislação americana (SEC) tem nuances diferentes da legislação brasileira. O que passa ileso lá fora pode gerar um processo criminal aqui.
O futuro: Precisamos de um "MiCA" tupiniquim com urgência
A Lei do Marco Legal das Criptos (Lei 14.478/22) foi um passo gigante. Ela definiu que o Banco Central cuida das exchanges e da estabilidade financeira, enquanto a CVM continua mandando nos valores mobiliários. Mas ela não resolveu o problema da classificação dos tokens.
A Europa saiu na frente com o MiCA (Markets in Crypto-Assets). Eles criaram uma taxonomia clara. Definiram o que é e-money token, asset-referenced token e útility token, com regras específicas para cada caixinha.
O mercado brasileiro hoje precisa dessa clareza. Com a chegada do Drex (o Real Digital), os contratos inteligentes farão parte do sistema financeiro tradicional. Bancos e fintechs vão tokenizar tudo, do crédito imobiliário à fatura do cartão.
Manter a zona cinzenta entre útility e security tokens é o mesmo que colocar um motor de Ferrari em um chassi de Fusca com o freio de mão puxado. O Brasil tem a melhor infraestrutura de pagamentos do mundo com o Pix. Temos o regulador mais inovador do mundo com o BACEN. Só falta a CVM desenhar a linha final no chão para que as startups possam correr sem medo de tropeçar em interpretações jurídicas.
Perguntas Frequentes
Matheus Feijão
CEO & Fundador — ouro.capital
Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.