Tokenização de ativos no Brasil: 90% dos projetos vão falhar (e por quê)
Ponto-chave
Análise brutal do mercado de tokenização sob a CVM 88 — projetos sem compliance, sem liquidez, sem governança. O que separa os 10% que sobrevivem.
A febre da tokenização encontrou a realidade
Entre 2023 e 2025, mais de 300 projetos de tokenização de ativos foram anunciados no Brasil. Precatórios, imóveis, recebíveis, obras de arte, safras de café, cotas de consórcio — se existe um ativo, alguém tentou tokenizá-lo. A promessa era sempre a mesma: democratizar o acesso, criar liquidez instantânea, eliminar intermediários.
Dois anos depois, o cenário é desolador. A maioria desses projetos está morta, moribunda ou operando numa zona cinzenta regulatória que é apenas uma questão de tempo até gerar problemas sérios. A estimativa de que 90% vai falhar não é pessimismo — é análise fria dos fundamentos.
Este artigo não é para quem quer ouvir que tokenização é o futuro e tudo vai dar certo. É para quem quer entender por que a maioria fracassa e o que diferencia os poucos que constroem algo real.
O que a CVM 88 realmente exige (e quase ninguém cumpre)
A Resolução CVM 88, públicada em abril de 2022 e atualizada em 2024, estabeleceu o framework regulatório para ofertas públicas de tokens de renda fixa com dispensa de registro. Parece simples. Não é.
Os requisitos que 90% ignora:
1. Limite de captação e investidor
- Captação máxima de R$15 milhões por oferta (ampliado de R$5M em 2024)
- Investidor pessoa física limitado a R$20.000 por oferta (a menos que seja qualificado)
- Prazo máximo de captação de 180 dias
2. Plataforma autorizada
- A oferta DEVE ser realizada por plataforma de crowdfunding autorizada pela CVM
- A plataforma responde solidariamente pela veracidade das informações
- Exige capital mínimo, compliance officer, e estrutura de governança
3. Documentação obrigatória
- Lâmina de oferta com informações padronizadas
- Demonstrações financeiras auditadas (para captações acima de R$10M)
- Material de divulgação previamente aprovado
- Relatório de riscos claro e objetivo
4. Mercado secundário regulado
- Negociação secundária apenas em ambientes autorizados
- Obrigatoriedade de formador de mercado em certos casos
- Regras de transparência de preços
O que acontece na prática:
A maioria dos projetos de tokenização no Brasil opera de uma das seguintes formas:
- Sem plataforma autorizada: Vendem tokens diretamente via site próprio, WhatsApp ou Telegram
- Sem estrutura jurídica adequada: O token não tem lastro legalmente vinculante — é um "contrato de investimento coletivo" disfarçado
- Sem segregação patrimonial: Se a empresa emissora quebra, o investidor perde tudo
- Com marketing enganoso: Prometem "rentabilidade garantida" de 2% ao mês sem explicar os riscos
Os 5 padrões de fracasso mais comuns
Padrão 1: O token sem lastro jurídico real
Este é o mais perigoso e mais comum. O projeto cria um token ERC-20 ou similar, emite um whitepaper bonito, e diz que cada token "representa" uma fração de um imóvel, precatório ou recebível.
O problema: Representação no blockchain não é propriedade legal. Sem uma estrutura jurídica que vincule legalmente o token ao ativo subjacente (SPE, cessão fiduciária, alienação fiduciária), o investidor tem um token que aponta para algo que ele não possui de fato.
Quando o emissor entra em recuperação judicial, o credor descobre que seu "token imobiliário" não lhe dá direito real sobre nada.
Padrão 2: O mercado secundário inexistente
Tokenização sem liquidez é apenas um PDF com mais passos. A promessa central — "compre e venda a qualquer momento" — depende de um mercado secundário funcional.
A realidade:
- A maioria dos tokens de RWA no Brasil tem volume diário de negociação zero
- Sem formador de mercado, o spread é de 10-30% (quando há contraparte)
- O investidor compra por R$1.000 e descobre que só consegue vender por R$700, se conseguir
Liquidez não surge magicamente. Exige market makers capitalizados, base de investidores diversificada, e infraestrutura de negociação robusta. Isso custa dinheiro — dinheiro que a maioria dos projetos não tem e não sabe como levantar.
Padrão 3: O compliance teatro
Projetos que fazem o mínimo absoluto para parecerem regulados sem realmente estarem:
- KYC via selfie sem verificação real de documentos
- AML "implementado" mas sem monitoramento contínuo de transações
- Termos de uso que transferem todo risco ao investidor com cláusulas abusivas
- "Assessoria jurídica" que consiste em um parecer genérico de um escritório desconhecido
A CVM já multou e suspendeu ofertas por compliance insuficiente. Em 2025, foram 47 stop orders relacionadas a tokens — quase uma por semana.
Padrão 4: O modelo de negócio insustentável
Muitos projetos tokenizam ativos que simplesmente não fazem sentido econômico quando fracionados:
- Precatórios de R$50.000: Depois de custos de estruturação, custódia, plataforma e compliance, não sobra rentabilidade para o investidor
- Imóveis de baixo valor: O custo da SPE + administração fiduciária + compliance + plataforma consome toda a rentabilidade do aluguel
- Recebíveis de curto prazo: O tempo para estruturar a oferta é maior que o prazo do recebível
A regra é simples: se o ativo subjacente não gera retorno suficiente para pagar a infraestrutura de tokenização E remunerar o investidor, o projeto é inviável.
Padrão 5: O fundador técnico sem conhecimento regulatório
O perfil mais comum no mercado brasileiro de tokenização: desenvolvedor ou entusiasta de crypto que sabe criar um smart contract mas não entende nada de:
- Direito societário brasileiro
- Regulação do mercado de capitais
- Estruturação de operações de crédito
- Governança corporativa
- Contabilidade e auditoria
O resultado são projetos técnicamente funcionais mas juridicamente frágeis, comercialmente inviáveis e regulatoriamente vulneráveis.
O que os 10% que sobrevivem fazem diferente
1. Estrutura jurídica antes do código
Os projetos sérios começam pelo advogado, não pelo desenvolvedor. A estrutura legal precede a tecnologia:
- SPE (Sociedade de Propósito Específico) constituída para cada operação
- Cessão fiduciária do ativo para a SPE
- Contrato de investimento coletivo devidamente registrado
- Segregação patrimonial completa entre emissor e ativos
- Agente fiduciário independente representando os investidores
2. Plataforma autorizada pela CVM
Não existe atalho. A distribuição deve ser feita por plataforma de crowdfunding devidamente autorizada, com:
- Registro ativo na CVM
- Compliance officer dedicado
- Comitê de análise de ofertas independente
- Infraestrutura tecnológica auditada
- Capital mínimo exigido
3. Liquidez planejada desde o dia zero
Projetos sérios não esperam a liquidez aparecer — planejam ela:
- Acordo com market maker antes do lançamento
- Reserva de capital para formação de mercado (tipicamente 5-10% da captação)
- Integração com ambientes de negociação autorizados
- Base mínima de investidores qualificados como "âncoras"
- Mecanismos de resgaté programado para quem não encontra contraparte
4. Due diligence real do ativo subjacente
- Avaliação independente por empresa credenciada
- Auditoria jurídica completa (matrícula, certidões, ônus)
- Análise de risco de crédito quando aplicável
- Seguro quando possível
- Strêss test de cenários adversos
5. Transparência radical
Os 10% que sobrevivem práticam transparência que vai além do mínimo regulatório:
- Relatórios mensais de performance do ativo
- Dashboard público com métricas em tempo real
- Comúnicação proativa de riscos e problemas
- Auditoria externa periódica
- Governança com representação dos investidores
Os ativos que realmente fazem sentido tokenizar
Nem todo ativo deveria ser tokenizado. Os que funcionam têm características específicas:
Alta viabilidade:
- Recebíveis de grandes empresas (duplicatas, CCBs) — volume alto, risco mensurável, prazo definido
- CRIs e CRAs — já regulados, infraestrutura existente, demanda comprovada
- Precatórios federais de grande valor (acima de R$5M) — desconto atrativo, pagamento certo (questão de quando)
Viabilidade média:
- Imóveis comerciais de alto valor — renda previsível, avaliação padronizada
- Safras com seguro agrícola — risco mitigado, ciclo definido
- Cotas de fundos fechados — democratização real de acesso
Baixa viabilidade (a maioria dos projetos):
- Imóveis residenciais de baixo valor — custo de estruturação proibitivo
- Obras de arte — avaliação subjetiva, sem renda, sem liquidez
- "Tokens de experiência" — na maioria dos casos, não são valores mobiliários e não deveriam ser vendidos como investimento
O papel do DREX na tokenização
O DREX (Real Digital) pode ser um catalisador importante para a tokenização de ativos no Brasil, mas de uma forma que muitos projetos atuais não antecipam:
O que o DREX muda:
- Settlement instantâneo em moeda digital do banco central (DvP atômico)
- Eliminação de risco de contraparte no settlement
- Interoperabilidade nativa entre ativos tokenizados e moeda
O que o DREX NÃO muda:
- A necessidade de compliance regulatório
- A necessidade de estrutura jurídica adequada
- A necessidade de governança e transparência
- O problema de liquidez no mercado secundário
Projetos que apostam que "o DREX vai resolver tudo" estão cometendo o mesmo erro de quem achou que "o blockchain resolve tudo" em 2017.
Previsões para 2026-2028
O que vai acontecer:
- Consolidação brutal: De 300+ projetos, restarão menos de 30 operando em 2028
- Regulação mais rígida: A CVM vai apertar as regras conforme os problemas aparecem
- Entrada dos incumbentes: Bancos e assets vão lançar plataformas próprias com infraestrutura real
- Profissionalização: Os sobreviventes terão equipes de compliance maiores que equipes de desenvolvimento
- Especialização: Cada plataforma vai se especializar em 1-2 classes de ativos ao invés de tentar tokenizar tudo
O que vai desaparecer:
- Tokens de "participação em lucros" sem estrutura societária
- Plataformas sem autorização da CVM
- Projetos que prometem "rentabilidade garantida"
- Tokens sem mercado secundário funcional
- Marketing que compara retorno de tokenização com CDI sem ajustar por risco
Conclusão: A tokenização vai vencer — mas não assim
A tese fundamental da tokenização está correta: ativos do mundo real podem se beneficiar enormemente da infraestrutura blockchain — fracionamento, settlement instantâneo, transparência, programabilidade.
Mas a execução atual no Brasil é, em grande parte, amadora, irregular e destinada ao fracasso.
Os 10% que vão sobreviver não são necessáriamente os mais tecnológicos. São os que entenderam que tokenização é, antes de tudo, um problema de estruturação financeira e compliance regulatório — com tecnologia blockchain como ferramenta, não como produto final.
Se você está investindo em tokens de ativos reais, as perguntas certas são:
- A plataforma é autorizada pela CVM?
- Existe SPE com segregação patrimonial?
- O ativo foi avaliado por empresa independente?
- Existe mercado secundário funcional?
- Quem é o agente fiduciário?
Se a resposta para qualquer uma dessas perguntas for "não" ou "não sei" — você não está investindo. Está apostando.
E na tokenização brasileira de 2026, a casa quase sempre ganha.
Matheus Feijão
CEO & Fundador — ouro.capital
Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.