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RWA no Brasil: por que ativos reais tokenizados movimentaram R$ 5 bilhões em 2025

2025-07-31·9 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

O mercado brasileiro de RWA atingiu R$ 5 bilhões em 2025, impulsionado pela tokenização de recebíveis comerciais e ativos judiciais. A entrada pesada de bancos tradicionais e a clareza regulatória da CVM transformaram a infraestrutura blockchain em uma alternativa viável e barata para o crédito corporativo.

Esqueça os macacos entediados, as memecoins de cachorro e as promessas de lucros estratosféricos da noite para o dia. O mercado cripto adulto no Brasil veste terno, opera na Faria Lima, tem registro na CVM e atende pela sigla RWA (Real World Assets). Chegamos ao final de julho de 2025 com um marco impossível de ignorar: R$ 5 bilhões transacionados em ativos reais tokenizados no país. Nós da Ouro Capital passamos os últimos meses dissecando os balanços das principais plataformas e cruzando dados de registradoras. O veredito é claro: a tokenização deixou de ser um experimento de laboratório para se tornar a espinha dorsal do novo mercado de capitais brasileiro.

O número assusta quem estava desatento, mas a trajetória foi desenhada a céu aberto. Quando o Banco Central começou a testar o Drex e a CVM abriu seu Sandbox Regulatório, o sinal verde foi dado. Instituições financeiras e fintechs perceberam que colocar recebíveis, precatórios e debêntures em uma blockchain pública ou permissionada cortava intermediários, reduzia custos operacionais em até 40% e destravava liquidez para ativos historicamente engessados.

Se você opera um fundo de investimento, uma mesa de crédito ou gerencia o caixa de uma empresa média, preste atenção aqui. O que estamos presenciando não é uma mudança de produto. É uma substituição completa dos trilhos financeiros. E quem não entender essa mecânica agora, vai pagar pedágio caro para os pioneiros em 2026.

O que explica o salto para R$ 5 bilhões?

A matemática por trás desse volume trilionário — em escala global — e bilionário no Brasil é simples. Temos uma taxa Selic que, historicamente, mantém a renda fixa no trono dos investimentos. O investidor local ama previsibilidade. O problema da renda fixa tradicional brasileira é o custo de originação e distribuição. Um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) tradicional exige administrador, gestor, custódiante, auditoria e taxas da B3. A conta chega fácil a 3% ou 4% ao ano apenas em custos estruturais.

A tokenização fatia essa burocracia. Um contrato inteligente (smart contract) substitui o trabalho manual de conciliação. A blockchain atua como o custódiante imutável. O resultado? O originador do crédito paga menos para captar, e o investidor na ponta final recebe um prêmio maior (yield). É um ganha-ganha clássico que o mercado financeiro raramente experimenta.

O peso mastodôntico dos recebíveis

Nossa análise mostra que 62% desse volume de R$ 5 bilhões (cerca de R$ 3,1 bilhões) veio de uma única fonte: recebíveis comerciais e direitos creditórios. Estamos falando da padaria que antecipa a fatura do cartão de crédito, do fornecedor da Petrobras que tokeniza sua nota fiscal para receber em D+0, e das duplicatas corporativas.

Plataformas como a Liq e a Vórtx QR construíram rodovias expressas para esse tipo de ativo. Em vez de empacotar essas notas fiscais em um fundo complexo, as plataformas as tokenizam individualmente ou em pools menores. O investidor de varejo, através de corretoras como o Mercado Bitcoin (via MB Tokens), consegue comprar R$ 100 de uma cesta de recebíveis corporativos que paga IPCA + 9% ao ano. Isso democratiza o crédito de uma forma que os bancos tradicionais nunca conseguiram — ou nunca quiseram — fazer.

Quem está dominando o tabuleiro RWA no Brasil

O ecossistema brasileiro de RWA é um campo de batalha fascinante porque coloca lado a lado startups nativas de Web3 e os maiores conglomerados financeiros da América Latina. Ninguém quer ficar para trás.

O Itaú Digital Assets, por exemplo, fez movimentos agressivos em 2024 e consolidou sua posição em 2025. Eles não estão brincando com tokens de útilidade; estão tokenizando notas comerciais e recebíveis com a chancela do maior balanço privado do país. O BTG Pactual, através da plataforma Mynt, expandiu seu portfólio de RWA oferecendo desde exposição a treasuries americanos até debêntures tokenizadas locais.

No lado das corretoras cripto, o Mercado Bitcoin continua sendo o player mais vocal do varejo. A vertical MB Tokens já ultrapassou a marca de R$ 500 milhões em ativos tokenizados liquidados, focando fortemente em precatórios (ativos judiciais) e cotas de consórcios. A estratégia deles provou que o investidor pessoa física topa o risco de liquidez se o retorno projetado for significativamente superior ao do Tesouro Direto.

Bancões vs. Infraestruturas Web3

O que muda o jogo é a infraestrutura invisível. Empresas como a Parfin e a tokenizadora Liq fornecem os 'tijolos' tecnológicos. Elas garantem que o token emitido em uma rede compatível com EVM (Ethereum Virtual Machine) converse com os sistemas legados de compliance e prevenção à lavagem de dinheiro (PLD) do Banco Central.

Os grandes bancos aprenderam uma lição amarga com o Pix: não se luta contra a tecnologia do regulador. Eles abraçaram a tokenização porque sabem que, se não oferecerem crédito via RWA, uma fintech de crédito fará isso cobrando metade do spread bancário.

A infraestrutura invisível: CVM e Banco Central

O Brasil só atingiu essa cifra bilionária porque temos os reguladores mais pragmáticos do mundo ocidental quando o assunto é inovação financeira. Enquanto a SEC americana passou os últimos anos processando empresas, a CVM públicou o Parecer Orientativo 40 e a Resolução 175.

Esses documentos criaram as regras do jogo. A CVM deixou claro: se o token representa um valor mobiliário (como uma debênture ou cota de fundo), ele precisa seguir as regras de valores mobiliários. Mas eles também criaram o Sandbox Regulatório, permitindo que empresas como a Vórtx QR testassem mercados secundários de tokens em ambiente controlado.

Hoje, um token de renda fixa no Brasil não é uma promessa vazia em um whitepaper. Ele é um contrato legalmente vinculante, muitas vezes registrado em uma infraestrutura de mercado financeiro (IMF) aprovada pelo Banco Central.

E aqui entra o elefante na sala: o Drex. A moeda digital do Banco Central (CBDC) brasileira está em fase avançada de testes. O Drex não é um RWA, ele é a 'perna de caixa' (o dinheiro) que liquidará os RWAs. Quando você comprar um token de imóvel em 2026, o seu Drex sairá da sua carteira e o token do imóvel entrará no exato mesmo milissegundo. Isso se chama Entrega contra Pagamento (DvP) atômica. Zera-se o risco de contraparte. É o Santo Graal do mercado financeiro.

Casos de uso reais: do campo ao tribunal

Para entender a profundidade desse mercado, precisamos olhar além dos recebíveis de cartão de crédito. Três setores específicos encontraram na tokenização a sua salvação operacional em 2025.

1. Agronegócio (CPRs Tokenizadas)

A Cédula de Produto Rural (CPR) é o motor do agronegócio brasileiro. Historicamente, um produtor de soja no Mato Grosso emite uma CPR para financiar sua safra, pegando dinheiro com uma trading ou banco a taxas altíssimas. A tokenização mudou essa dinâmica. Securitizadoras estão pegando CPRs de médios produtores, transformando em tokens e distribuindo para investidores no Sudeste. O volume de CPRs tokenizadas bateu R$ 500 milhões este ano. O produtor capta mais barato, e o investidor ganha exposição direta à economia real do agronegócio, com lastro físico na safra.

2. Ativos Judiciais (Precatórios)

O governo brasileiro tem uma dívida histórica com cidadãos e empresas, materializada nos precatórios. O problema é que a fila de pagamento demora anos. A tokenização fatiou essas dívidas milionárias em cotas de R$ 100. Fundos especializados compram o precatório com deságio, tokenizam o direito de recebimento e vendem no varejo. Representam hoje quase um quarto de todo o mercado de RWA no país. O risco soberano (calote do governo) existe, mas os prêmios na casa dos 18% a 22% ao ano justificam a alocação para perfis arrojados.

3. Setor Imobiliário

Ainda incipiente comparado aos recebíveis, a tokenização de imóveis começou a tracionar. Não estamos falando apenas de vender frações de um apartamento na planta, mas de tokenizar os recebíveis de aluguéis de galpões logísticos (built-to-suit). O investidor compra o token e o smart contract distribui o aluguel mensal automaticamente em stablecoins ou, futuramente, em Drex, direto na carteira do detentor.

Implicações práticas: o que muda para você

Se você é um investidor pessoa física, o mercado de RWA abriu portas que antes exigiam milhões na conta. Ativos alternativos, antes restritos a fundos exclusivos e investidores profissionais, agora estão a um clique de distância no aplicativo da sua corretora. A liquidez secundária — o grande calcanhar de Aquiles desse mercado até 2024 — está começando a se formar. Plataformas já oferecem livros de ofertas (orderbooks) para que você venda seu token de recebível antes do vencimento, caso precise do dinheiro.

Para as empresas corporativas e PMEs, a implicação é ainda mais agressiva. A tokenização quebrou o monopólio da antecipação bancária. Se a sua empresa fatura R$ 1 milhão por mês e tem recebíveis pulverizados, você não precisa mais aceitar a taxa balcão do seu banco. Você pode empacotar isso, transformar em tokens através de uma infraestrutura as a service (TaaS), e buscar funding direto no mercado.

Projeções para 2026: Rumo aos R$ 12 bilhões

Os R$ 5 bilhões de 2025 são apenas o teste de estrêsse da infraestrutura. O que o mercado projeta para 2026 é um salto para a casa dos R$ 12 bilhões. Dois catalisadores garantem essa projeção.

Primeiro, a entrada em produção total do Drex. A fricção de converter reais para stablecoins (como o BRZ ou MBRL) vai desaparecer. O Drex será o conduíte nativo de liquidação.

Segundo, a tokenização de fundos de investimento. A CVM já sinalizou que o futuro da indústria de fundos passa por cotas tokenizadas. Imagine um FII (Fundo de Investimento Imobiliário) onde as cotas são tokens em uma blockchain pública, permitindo que um investidor na Europa compre exposição a shoppings em São Paulo usando USDC, com o smart contract fazendo o câmbio e o recolhimento de impostos na hora do pagamento dos dividendos.

A revolução dos Real World Assets no Brasil não é uma narrativa importada do Vale do Silício. É uma solução nativa, construída em cima das nossas ineficiências históricas de crédito e juros. O dinheiro físico virou digital, o digital virou Pix, e agora, os ativos reais viraram tokens. O trem já saiu da estação.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.