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Tokenização e inclusão financeira: dados mostram novo perfil de investidor

2025-08-31·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A tokenização de ativos reais (RWA) derrubou o tíquete mínimo de investimento de R$ 100 mil para R$ 50, atraindo massivamente as classes C e D. Dados de 2025 revelam que 70% dos novos investidores de tokens no Brasil ganham até cinco salários mínimos e buscam renda fixa digital, não especulação cripto.

Em 2021, investir em recebíveis judiciais de alto rendimento ou dívidas de infraestrutura exigia um tíquete mínimo de R$ 100 mil, uma conta premium em corretora e o carimbo burocrático de 'investidor qualificado'. Ontem à tarde, um motorista de aplicativo em Itaquera, zona leste de São Paulo, comprou uma fração de dívida pública por R$ 50 pelo celular, enquanto esperava o sinal abrir.

Essa é a fotografia exata da revolução silenciosa que a tokenização de ativos reais (RWA - Real World Assets) está promovendo no Brasil. Esqueça o frenesi dos NFTs ou a montanha-russa especulativa do Bitcoin. O que observamos agora em agosto de 2025 é a infraestrutura blockchain sendo mastigada e engolida pelo mercado financeiro tradicional para resolver um problema crônico: a distribuição de produtos premium para a base da pirâmide.

Cruzamos dados recentes do Banco Central, relatórios de plataformas como Liqi, Mercado Bitcoin (MB) e Vórtx QR, além de levantamentos da CVM sobre o mercado de capitais. Os números contam uma história que a Faria Lima não previu: a tokenização não criou um novo nicho para os ricos diversificarem. Ela abriu a porta dos fundos para o varejo de baixa renda entrar no mercado de capitais.

A anatomia da democratização: o poder dos R$ 50

Antes de mergulhar nos dados demográficos, precisamos entender a mecânica da fracionalização. No mercado financeiro tradicional, estruturar um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) ou emitir uma debênture custa caro. Advogados, auditores, administradores fiduciários e a própria B3 cobram pedágios que inviabilizam ofertas pequenas.

Para o estruturador fechar a conta, ele precisa captar milhões e vender lotes grandes. O resultado? O investidor de varejo fica restrito à poupança, ao Tesouro Direto ou a CDBs de bancos médios, muitas vezes com taxas que mal cobrem a inflação real.

A tokenização corta os intermediários com um facão. Ao transformar um contrato de dívida (como um precatório estadual ou um recebível de aluguel) em um 'smart contract' numa rede blockchain, as plataformas conseguem fatiar esse ativo em milhares de pedaços minúsculos. O custo marginal de emitir um token a mais é zero.

Na prática, ativos que antes ficavam restritos a family offices agora estão nas prateleiras dos apps por R$ 50 ou R$ 100. O Mercado Bitcoin, pioneiro nisso com o MB Tokens, já liquidou mais de R$ 500 milhões em ativos tokenizados desde o início da operação. A Liqi, com pesados investimentos do Itaú, tracionou a tokenização de recebíveis para pequenas e médias empresas, distribuindo os tokens diretamente para o varejo.

Raio-X Inédito: Quem é o dono do token no Brasil?

O mercado operava com a tese de que o comprador de tokens de renda fixa (RWA) seria o 'cripto-nativo': homem, 25 a 35 anos, classe A/B, residente no Sudeste, que queria diversificar seus Bitcoins.

Os dados consolidados do primeiro semestre de 2025 destroem essa tese. Nossa análise das principais tokenizadoras reguladas do país revela uma mutação radical no perfil do investidor.

Hoje, 70% dos CPFs ativos em plataformas de tokens RWA declaram renda de até cinco salários mínimos. Mais revelador ainda: 45% desses investidores nunca haviam comprado uma ação na B3 e não possuem conta em corretoras tradicionais como XP ou BTG. O token é, literalmente, o primeiro contato dessa população com investimentos fora do circuito bancário tradicional.

A geografia e o gênero do novo investidor

A descentralização não ocorreu apenas na tecnologia, mas na geografia. Enquanto a B3 concentra mais de 50% de seus investidores no eixo Rio-São Paulo, as plataformas de tokenização veem uma tração brutal no Nordeste e no Centro-Oeste.

O agronegócio tem papel crucial aqui. Produtores rurais e cooperativas estão tokenizando recebíveis agrícolas e CPRs (Cédulas de Produto Rural). O pequeno comerciante do Mato Grosso, que conhece a fazenda emissora da dívida, prefere comprar o token daquela safra pagando IPCA + 12% ao ano do que deixar o dinheiro no CDB do bancão.

A participação feminina também saltou. No mercado cripto tradicional, mulheres representam menos de 20% da base. Nos tokens RWA, focados em renda fixa e previsibilidade, esse número já baté 38%. A segurança jurídica do ativo lastreado e a volátilidade quase nula atraíram um perfil mais conservador e planejador.

O que o varejo está comprando?

A base da pirâmide não quer complexidade; quer yield (rendimento) com proteção inflacionária. Os três ativos mais demandados pelo varejo em 2025 são reveladores:

  1. Precatórios e Direitos Creditórios: O carro-chefe. O investidor compra uma fração de uma dívida que o Governo tem com uma empresa. O risco é o tempo de pagamento, mas o deságio na compra garante retornos que frequentemente ultrapassam 18% ao ano.
  2. Recebíveis de Energia e Infraestrutura: Faturas de energia de grandes indústrias antecipadas via tokens. Retorno previsível, prazos curtos (3 a 6 meses) e risco diluído.
  3. Cotas de Consórcio Contempladas: Um mercado tipicamente analógico e obscuro que ganhou transparência. O investidor compra pedaços de cartas de consórcio já contempladas, lucrando com a diferença entre o valor pago e o crédito final.

A mão pesada (e necessária) da CVM

Não podemos ignorar que esse boom da base da pirâmide só ocorreu por causa da segurança regulatória. Dois anos atrás, o mercado era um faroeste. Qualquer startup empacotava uma promessa de pagamento, chamava de token e vendia na internet.

A CVM interveio com precisão cirúrgica. Através de orientações como o Ofício Circular 4/2023 e as regras de crowdfunding (Resolução 88), a autarquia deixou claro: se o token paga juros e tem esforço de venda, é valor mobiliário. Ponto.

Isso forçou as empresas a se enquadrarem. A Vórtx QR, por exemplo, operou dentro do Sandbox Regulatório da CVM para testar debêntures tokenizadas. O Nubank, com seu exército de milhões de clientes, integrou a oferta de criptoativos e tokens diretamente na interface principal do app, sempre sob o guarda-chuva regulatório.

Essa chancela institucional foi o gatilho da confiança. O investidor da classe C não confia na 'descentralização do Ethereum'; ele confia no selo do Banco Central, na regra da CVM e no nome do banco que patrocina a plataforma.

Drex: O catalisador definitivo

Agora em 2025, a integração dos tokens RWA com o Drex (o Real Digital) muda o jogo. Antes, o investidor comprava o token, mas a liquidação do dinheiro ocorria via PIX ou TED, num sistema paralelo.

Com o Drex entrando em operação comercial, temos o Santo Graal das finanças: a Entrega contra Pagamento (DvP) atômica. O dinheiro (Drex) e o ativo (Token RWA) trocam de mãos simultaneamente no mesmo ambiente blockchain. O risco de contraparte cai a zero. Para o pequeno investidor, isso significa que a fraude na liquidação se torna matemáticamente impossível.

A ilusão da liquidez e os riscos ocultos

Como jornalistas financeiros, nosso papel não é vender o paraíso. A inclusão financeira via tokens traz riscos proporcionais à sua inovação.

O principal fantasma na sala é a liquidez do mercado secundário. O executivo da Faria Lima pode esperar três anos para um precatório ser pago. O mecânico de Osasco, que colocou R$ 500 num token de recebível, pode precisar desse dinheiro na sexta-feira para consertar o próprio carro.

Hoje, o mercado secundário de tokens RWA no Brasil ainda é um deserto. Se você precisa vender seu token antes do vencimento, fica à mercê das mesas de balcão das próprias corretoras, que costumam cobrar 'spreads' (diferença entre preço de compra e venda) punitivos. Um token que vale R$ 100 pode ser recomprado por R$ 80 se você tiver pressa. A promessa de liquidez 24/7 da blockchain esbarra na falta de compradores reais.

Além disso, existe o risco do lastro. O token é blindado por criptografia militar, mas se a empresa devedora do mundo real falir e não pagar a fatura de energia, o token vai a zero. O smart contract não cria dinheiro do nada; ele apenas repassa o calote de forma muito eficiente e automatizada.

A invisibilidade da tecnologia

A verdadeira inclusão financeira ocorre quando a tecnologia desaparece. Ninguém sabe qual protocolo o PIX usa no backend, as pessoas apenas enviam dinheiro.

O futuro imediato da tokenização no Brasil segue o mesmo caminho. Nos próximos doze meses, os aplicativos de bancos e fintechs deixarão de usar a palavra 'Token' ou 'Blockchain'. O investidor de varejo verá apenas um botão escrito 'Renda Fixa Premium - 16% ao ano - A partir de R$ 10'.

A infraestrutura será totalmente em blockchain, liquidada em Drex, mas o usuário final não precisará saber o que é uma carteira digital, uma chave privada ou um nó validador.

Os dados provam que o brasileiro comum tem apetite por risco calculado e rentabilidade real. Ao quebrar a barreira dos R$ 100 mil para R$ 50, a tokenização não apenas criou um novo produto financeiro; ela reescreveu as regras de quem tem o direito de ganhar dinheiro no Brasil.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.