O mercado de tokenização em números: raio-x de 2025 e projeções para 2026
Ponto-chave
O mercado brasileiro de tokenização ultrapassou a marca de R$ 46 bilhões em 2025, dominado por recebíveis e crédito agrícola. Para 2026, a entrada definitiva do Drex e a regulação do mercado secundário prometem transformar a liquidez desses ativos, consolidando o Brasil como líder global em infraestrutura financeira tokenizada.
Esqueça as promessas utópicas de 2021. O ano de 2025 marcou o momento exato em que a tokenização de ativos no Brasil deixou de ser um slide de PowerPoint em hackathons da Faria Lima e virou linha de balanço nos grandes bancos. Estamos falando de dinheiro institucional pesado, movendo-se em trilhos blockchain regulados, com o aval da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central (BACEN).\n\nSe você opera um FIDC, estrutura crédito corporativo ou gerencia tesouraria, preste atenção aqui. A infraestrutura mudou. Nós acompanhamos essa evolução de perto na Ouro Capital, conversando com estruturadores, reguladores e executivos das mesas de operação. O que vemos hoje não é apenas uma digitalização de processos; é a reescrita do motor de liquidação do sistema financeiro nacional. Os tokens deixaram de ser um produto de nicho para se tornarem o padrão de empacotamento de ativos financeiros.\n\nNeste raio-x completo, abrimos os números reais do mercado em setembro de 2025, analisamos quem está ganhando dinheiro de verdade com Real World Assets (RWA) e traçamos o que o mercado secundário e a segunda fase do Drex reservam para 2026. Prepare-se para uma imersão em dados concretos, sem jargões vazios.\n\n## O tamanho real do mercado de tokenização no Brasil hoje\n\nOs números consolidados até o final do terceiro trimestre de 2025 mostram um mercado que cruzou a linha da maturidade. O volume total de ativos financeiros tokenizados no Brasil atingiu impressionantes R$ 46,5 bilhões. Para colocar em perspectiva, isso representa um salto de mais de 300% em relação aos R$ 11 bilhões registrados no final de 2023.\n\nQuem está liderando essa corrida? Os bancões e as corretoras especializadas. O Itaú Digital Assets, por exemplo, ultrapassou a marca de R$ 15 bilhões em ativos tokenizados, focando brutalmente em crédito corporativo e recebíveis. O Mercado Bitcoin (MB Tokens), pioneiro na estruturação de renda fixa digital no varejo, consolidou uma carteira de R$ 9 bilhões, girando principalmente consórcios, precatórios e recebíveis de energia.\n\nPlataformas de infraestrutura como a Liqi e a Vórtx QR Tokenizadora processaram, juntas, mais de R$ 12 bilhões em emissões primárias apenas nos últimos doze meses. A BEE4, operando no ambiente de sandbox da CVM, provou que a tokenização de ações de pequenas e médias empresas (PMEs) tem demanda real, movimentando volumes crescentes no mercado de balcão organizado.\n\nA distribuição desse bolo revela a preferência nacional: o brasileiro ama renda fixa. Mais de 65% de todo o volume tokenizado no país está atrelado a instrumentos de dívida e recebíveis (CCBs, Duplicatas, Notas Comerciais). O agronegócio vem logo atrás, representando 25% do mercado, impulsionado pelas CPRs (Cédulas de Produto Rural). O restante se divide entre fundos de investimento tokenizados (uma tendência acelerada pela Resolução CVM 175) e ativos alternativos como royalties musicais e créditos de carbono.\n\n## Renda Fixa e Recebíveis: O motor da adoção institucional\n\nA tokenização resolveu um problema histórico do crédito estruturado no Brasil: a ineficiência operacional. Antes, emitir uma Cédula de Crédito Bancário (CCB) para uma empresa de médio porte envolvia cartórios, custódiantes, registradoras e uma montanha de papelada digital (ou física). O custo de observação e monitoramento comia a margem do originador.\n\nAgora em 2025, a emissão nasce on-chain. O contrato inteligente (smart contract) não apenas representa a dívida; ele executa as regras de negócio. Se o devedor faz o pagamento na ponta, o contrato distribui os juros automaticamente para as centenas de carteiras dos investidores em frações de segundo. Isso derrubou o custo de estruturação em até 40% nas operações abaixo de R$ 50 milhões.\n\nO agronegócio entendeu isso mais rápido que qualquer outro setor. As CPRs Financeiras tokenizadas explodiram. Observamos tradings e cooperativas emitindo tokens de CPR atrelados à safra de soja e milho, oferecendo taxas de CDI + 3% ao ano para investidores da Faria Lima. O lastro é claro, o registro é feito em entidades credenciadas pelo Banco Central (como a Cerc ou a B3), e o token flui em blockchains permissionadas. É o encontro perfeito entre a economia real do interior do Brasil e a liquidez dos centros financeiros.\n\n## O Efeito Drex: Infraestrutura como serviço (BaaS encontra TaaS)\n\nVocê não pode analisar os números de 2025 sem entender o impacto da fase 2 de testes do Drex. A moeda digital do Banco Central (CBDC) brasileira não foi criada para o varejo comprar pão na padaria — para isso temos o Pix. O Drex foi desenhado para o atacado financeiro, específicamente para viabilizar a Entrega contra Pagamento (DvP - Delivery versus Payment) atômica.\n\nAté o ano passado, o risco de contraparte ainda assombrava as operações tokenizadas. Um investidor queria comprar um token de R$ 100 mil. Ele enviava o Pix para a corretora, e a corretora transferia o token. Havia um hiato de confiança. Com a integração da infraestrutura de tokenização ao Drex, o dinheiro (Real Digital) e o ativo (Token) trocam de mãos no mesmo milissegundo. Se uma das pontas falha, a transação inteira é revertida. Zero risco de liquidação.\n\nO Banco Central, útilizando a rede Hyperledger Besu, padronizou a forma como os nós das instituições financeiras se comúnicam. Isso transformou a tokenização de um produto isolado em Tokenization as a Service (TaaS). Bancos médios que não tinham orçamento para desenvolver áreas de blockchain do zero agora plugam suas APIs na rede do Drex e começam a tokenizar suas carteiras de crédito. A padronização regulatória trouxe a segurança jurídica que os comitês de risco dos grandes fundos exigiam para alocar capital nesses ativos.\n\n## Projeções para 2026: A virada do varejo e o mercado secundário\n\nSe 2024 foi o ano das provas de conceito e 2025 o ano do volume institucional, 2026 será o ano da liquidez. O maior calcanhar de Aquiles do mercado de tokens hoje é o mercado secundário. Você compra um token de recebível pagando 18% ao ano com vencimento para 36 meses. Se precisar sair da posição no mês 12, para quem você vende?\n\nNa nossa análise, 2026 trará a solução definitiva para esse gargalo. A CVM deve consolidar as regras definitivas pós-sandbox para os mercados de balcão organizado de tokens. Isso permitirá que plataformas como MB, BTG (via Mynt) e Nubank criem pools de liquidez automatizados (AMMs - Automated Market Makers) adaptados para ativos regulados. O investidor de varejo poderá negociar frações de dívida corporativa pelo aplicativo do celular com a mesma fácilidade com que compra um ETF na B3.\n\nOutra projeção agressiva, mas embasada em nossos levantamentos com gestoras: o volume de fundos de investimento tokenizados (cotas de fundos representadas em blockchain) deve saltar de R$ 2 bilhões em 2025 para mais de R$ 15 bilhões em 2026. A tokenização das cotas permite transferências 24/7 entre investidores qualificados, sem depender das janelas de fechamento dos administradores fiduciários tradicionais. Isso muda o jogo para os fundos ilíquidos, como FIPs e FIDCs.\n\n## Os gargalos que ninguém quer admitir\n\nApesar do otimismo justificado pelos números, o mercado lida com fricções severas. A primeira é a execução judicial. Um contrato inteligente executa regras on-chain perfeitamente, mas e se o emissor der calote no mundo real? Como um juiz de uma vara cível no interior de São Paulo penhora um ativo cujo lastro original foi fracionado em 10.000 tokens espalhados por carteiras digitais blindadas por criptografia?\n\nA jurisprudência brasileira está engatinhando nesse aspecto. Os advogados especialistas em mercado de capitais estão tendo que criar teses do zero para garantir que o detentor do token tenha o mesmo privilégio creditício de um detentor de uma debênture tradicional registrada na B3. A conexão entre o registro na blockchain e a averbação no cartório de registro de imóveis (no caso de recebíveis imobiliários) ainda exige processos manuais que quebram a magia da automação total.\n\n### A barreira da interoperabilidade\n\nO segundo gargalo é tecnológico. O Brasil está criando ilhas de liquidez. O Itaú tem sua rede, o BTG tem a sua, o MB opera em blockchains públicas (como Polygon e Ethereum) e o Banco Central foca no Hyperledger. Fazer um token emitido na rede privada de um banco ser aceito como garantia (colateral) em uma operação de crédito em outro banco ainda é um pesadelo de integração de sistemas (cross-chain bridges). O Drex promete ser a ponte definitiva, mas a arquitetura técnica para suportar milhares de transações por segundo (TPS) mantendo a privacidade (zero-knowledge proofs) imposta pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) ainda consome noites de sono dos engenheiros do BACEN.\n\n## A nova arquitetura do dinheiro\n\nOs R$ 46,5 bilhões tokenizados em 2025 provam que a tecnologia blockchain encontrou seu verdadeiro product-market fit no Brasil: a infraestrutura de backoffice. O investidor final, em pouco tempo, nem saberá que está comprando um token. Ele apenas verá um investimento rendendo juros na sua tela, com liquidação instantânea e custos menores.\n\nO Brasil lidera o mundo nesse quesito, combinando um Banco Central pró-inovação, uma CVM que entende o balanço entre proteção e experimentação, e um sistema financeiro altamente digitalizado. Para 2026, a meta não é mais provar que a tokenização funciona. A meta é garantir que ela se torne tão invisível e essencial quanto o protocolo TCP/IP é para a internet. Quem não adaptar suas tesourarias e esteiras de crédito para essa realidade não perderá apenas competitividade; perderá a licença social para operar no novo mercado financeiro brasileiro.
Perguntas Frequentes
Matheus Feijão
CEO & Fundador — ouro.capital
Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.