ouro.capital
||
tokenizacao

O Mercado de Tokens Fora do Eixo SP-RJ: A Revolução Silenciosa das Cidades Secundárias

2025-10-27·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

A tokenização de ativos deixou de ser um monopólio da Faria Lima. Cidades do interior, puxadas pelo agronegócio e pelo mercado imobiliário regional, lideram uma nova onda de emissões digitais com taxas de retorno superiores ao eixo SP-RJ.

Na última terça-feira, uma cooperativa agrícola de Rio Verde, Goiás, levantou R$ 15 milhões em apenas três horas. O produto não era um fundo de investimento tradicional gerido por gestores engravatados. Eram tokens de recebíveis de soja. Nenhuma grande corretora do eixo Faria Lima-Leblon participou da estruturação principal. A operação rodou quase totalmente via infraestrutura em blockchain com coordenação de fintechs locais.

Se você ainda acha que a tokenização de ativos financeiros — os famosos RWAs (Real World Assets) — é um jogo restrito aos escritórios de vidro de São Paulo e do Rio de Janeiro, seus dados estão atrasados. O interior do Brasil assumiu a dianteira das emissões digitais.

Acompanhamos os balanços recentes da CVM, os registros das principais plataformas de emissão e os testes do piloto do Drex no Banco Central. Os números são claros. As capitais regionais e os polos industriais e do agronegócio estão abocanhando fatias agressivas do mercado de tokens. A lógica é implacável: onde a economia real pulsa forte, mas o crédito tradicional continua caro e burocrático, a tecnologia blockchain encontra seu caso de uso perfeito.

Historicamente, o mercado de capitais brasileiro sempre foi hipercentralizado. As emissões de debêntures, CRIs e CRAs exigiam (e ainda exigem no modelo tradicional) custos de estruturação que inviabilizam captações menores que R$ 50 milhões. A tokenização quebrou esse piso. Hoje em 2025, fatiar um ativo ilíquido e distribuí-lo digitalmente custa uma fração do que custava há cinco anos. E o interior percebeu isso antes.

O Agronegócio Puxa a Fila no Centro-Oeste e Sul

Nenhuma tese explica melhor a descentralização financeira do que o agronegócio. Cidades como Sorriso (MT), Londrina (PR) e Dourados (MS) viraram laboratórios a céu aberto para o mercado de capitais digital. Os produtores rurais sempre precisaram de capital de giro rápido para financiar safras. Os bancos tradicionais entregam esse capital, mas a um custo alto e com garantias travadas.

A tokenização da Cédula de Produto Rural (CPR) mudou o jogo. Apenas no primeiro semestre de 2025, mapeamos mais de R$ 350 milhões em CPRs tokenizadas originadas exclusivamente no Centro-Oeste, distribuídas em plataformas como MB Tokens, Liqi e Agrotoken.

O produtor de milho de Lucas do Rio Verde (MT) não precisa mais ir a São Paulo implorar por crédito em um banco de investimento. Ele emite uma CPR, uma tokenizadora transforma esse título em 10.000 frações digitais, e investidores de varejo do Brasil inteiro compram essas frações pagando via Pix.

A Mecânica da Tokenização de Safra

Como isso funciona na prática? Vamos abrir o capô de uma operação real. Uma fazenda precisa de R$ 5 milhões para comprar insumos. Ela emite uma CPR Financeira com vencimento para depois da colheita, prometendo IPCA + 9% ao ano. Uma taxa agressiva, mas ainda mais barata do que tomar crédito no balcão do banco comercial.

A fintech estruturadora registra essa CPR na B3 ou na Cerc para garantir a validade jurídica. Depois, emite os tokens correspondentes em uma rede blockchain pública (como a Polygon) ou na rede permissionada que conversa com os testes do Drex. Cada token representa, digamos, R$ 100 daquela dívida.

O investidor que compra o token tem a garantia legal da CPR registrada. A blockchain apenas fácilita a liquidação e o fracionamento. Essa engenharia financeira reduziu o custo de observação e auditoria, permitindo que ativos regionais acessem a liquidez de investidores espalhados pelo país.

Imóveis Tokenizados: O Boom Além das Capitais

Outro setor que explodiu no interior foi o imobiliário. O mercado de São Paulo está saturado, com yields (retornos de aluguel) cada vez mais comprimidos. Um prédio comercial de alto padrão na Faria Lima difícilmente entrega mais que 6% ou 7% ao ano em dividendos de aluguel.

Enquanto isso, cidades secundárias com forte crescimento demográfico e econômico oferecem prêmios muito maiores. Balneário Camboriú (SC), Ribeirão Preto (SP), Campinas (SP) e Uberlândia (MG) formam o novo cinturão de ouro dos tokens imobiliários.

Galpões logísticos em Extrema (MG) — o maior polo de e-commerce do país — chegam a bater 11% ao ano de retorno. Loteamentos no interior de Santa Catarina oferecem prêmios de risco que atraem qualquer alocador institucional. O problema sempre foi o acesso. Como um dentista de Recife investe em um galpão no sul de Minas Gerais?

Os fundos imobiliários (FIIs) são a resposta clássica. Mas montar um FII exige tempo, taxas pesadas de administração e gestão, e escala. A tokenização permite o "crowdfunding imobiliário 2.0". Empresas como a Hurst Capital e a Vórtx QR têm estruturado operações onde um único empreendimento no interior é fracionado.

Se você opera no mercado imobiliário regional, preste atenção aqui. O construtor local não precisa mais depender apenas da poupança regional ou de linhas caras da Caixa Econômica Federal. Ele empacota as vendas na planta em tokens de recebíveis e acessa liquidez nacional. Vimos projetos em Passo Fundo (RS) levantarem R$ 10 milhões em semanas através de tokens de antecipação de recebíveis imobiliários.

Infraestrutura Local e as Fintechs Regionais

O ecossistema não é feito apenas de ativos do interior sendo vendidos por plataformas paulistas. A verdadeira revolução está na infraestrutura local. Novos hubs de tokenização estão nascendo longe da Avenida Paulista.

Pólos tecnológicos estabelecidos, como o Porto Digital no Recife, o San Pedro Valley em Belo Horizonte e o ecossistema de Florianópolis, estão gerando fintechs especializadas na tokenização de nicho. Essas empresas entendem a realidade do empresário local melhor do que qualquer banqueiro da capital.

Um movimento brutal que observamos nos últimos meses foi a entrada das cooperativas de crédito no mercado de tokens. Sistemas como Sicredi, Sicoob e Cresol possuem uma penetração capilar no interior do Brasil que nenhum grande banco alcança. Eles conhecem o dono do supermercado, o dono da frota de caminhões e o médio produtor rural pelo nome.

Essas cooperativas começaram a firmar parcerias com provedores de tecnologia blockchain (BaaS - Blockchain as a Service). O gerente da cooperativa em Chapecó (SC) identifica um bom ativo local — uma frota de caminhões que precisa de financiamento — e, em vez de usar os depósitos à vista da cooperativa, estrutura uma emissão de tokens fechada para os próprios cooperados da região. É o mercado de capitais hiperlocal operando com infraestrutura global.

Implicações Práticas: O Que Isso Significa Para Você

Se você é um investidor pessoa física, essa descentralização abre um leque de diversificação inédito. Você não precisa mais ficar refém das taxas de administração dos grandes fundos para acessar a economia real. Pode montar uma carteira contendo frações de uma safra no Mato Grosso, recebíveis de uma usina solar no Ceará e participação em um loteamento no interior de São Paulo.

Para o empresário do interior, a mensagem é ainda mais forte: o custo de capital vai cair. A tokenização quebra o monopólio geográfico do dinheiro. Se o seu negócio é bom, gera caixa e tem garantias sólidas, a distância física até um grande centro financeiro não é mais uma barreira.

Emitir um token hoje é quase tão simples quanto estruturar uma chave Pix complexa. O arcabouço regulatório evoluiu. A CVM, através do ofício circular sobre tokens de recebíveis (e o sandbox regulatório), deixou as regras do jogo muito claras. Ativos tokenizados que representam valores mobiliários precisam seguir regras de distribuição, mas o uso de plataformas de crowdfunding (Instrução CVM 88) criou uma via expressa para captações de até R$ 15 milhões — um limite que atende perfeitamente 90% dos projetos em cidades secundárias.

O Futuro da Descentralização Financeira

A ponte definitiva entre esses dois mundos já tem nome: Drex. O real digital, cuja infraestrutura avança rápidamente nas mesas de teste do Banco Central, foi desenhado exatamente para liquidar operações de ativos tokenizados de forma atômica.

Na prática, quando o Drex estiver rodando no varejo, o risco de contraparte vai a zero. O investidor de Manaus vai transferir seus Drex, o contrato inteligente vai verificar o saldo, e a transferência do token da fazenda no Rio Grande do Sul acontecerá no mesmo milissegundo. Entrega contra pagamento (DvP) automatizada, sem necessidade de uma câmara de compensação centralizada cobrando pedágio.

O mercado de tokens nas cidades secundárias não é uma tendência passageira. É a correção de uma anomalia histórica. O Brasil é um país continental com riquezas pulverizadas, mas sempre operou com um sistema financeiro concentrado em dois CEPs. A tecnologia blockchain, silenciosamente, está reescrevendo essa geografia. E quem continuar olhando apenas para os painéis da Faria Lima vai perder a maior transferência de liquidez da nossa década.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.