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O Perfil do Emissor de Tokens no Brasil: Quem São e o Que Buscam de Fato

2025-09-25·8 min read·Matheus Feijão

Ponto-chave

Empresas de médio porte do agronegócio e do setor imobiliário dominam a emissão de tokens no Brasil. Nossa pesquisa exclusiva com 50 emissores revela que a busca por crédito mais barato e rápido é a principal motivação, superando a inovação tecnológica.

A tokenização de ativos no Brasil deixou de ser um experimento de laboratório para se tornar uma linha de receita consolidada. Fechamos o primeiro semestre de 2025 com mais de R$ 8 bilhões em ativos reais tokenizados (os famosos RWAs), segundo mapeamento interno que cruzou dados da CVM e das principais infraestruturas de mercado. Mas uma pergunta continuava sem resposta clara nas mesas de operação: quem está, de fato, do outro lado do balcão emitindo esses tokens?

Para descobrir, a equipe da Ouro Capital foi a campo. Entrevistamos diretores financeiros (CFOs) e CEOs de 50 empresas brasileiras que realizaram ofertas públicas ou privadas de tokens nos últimos 18 meses. O resultado quebra alguns mitos fundadores do mercado cripto nacional e desenha um mapa claro de onde o dinheiro está circulando.

Esqueça a imagem do programador visionário lançando tokens de governança em uma garagem. O emissor brasileiro de 2025 veste camisa social, lida com planilhas de fluxo de caixa e está exausto das taxas cobradas pelos bancos tradicionais.

Se você é diretor financeiro de uma empresa de médio porte ou atua no mercado de capitais, preste atenção aqui. Os dados a seguir mostram exatamente como seus concorrentes estão burlando as vias tradicionais de captação de recursos.

Quem são os emissores na prática

A primeira revelação da nossa pesquisa diz respeito ao tamanho e ao setor dessas empresas. O mercado de tokenização brasileiro encontrou seu product-market fit no que chamamos de "middle market" — empresas com faturamento anual entre R$ 50 milhões e R$ 300 milhões.

Por que essa faixa específica? Uma empresa que fatura R$ 1 bilhão tem acesso fácil a debêntures, CRIs, CRAs e FIDCs. Os grandes bancos de investimento brigam por essas contas. Já a empresa que fatura R$ 5 milhões depende de linhas de crédito bancário tradicionais, como capital de giro ou antecipação de recebíveis, com taxas punitivas.

A empresa de R$ 150 milhões de faturamento está no purgatório. Ela é grande demais para as taxas de varejo do gerente do banco, mas pequena demais para justificar os custos fixos da estruturação de um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC). É aqui que o token entra matando.

O Domínio do Agronegócio e do Setor Imobiliário

Entre os 50 emissores que entrevistamos, a divisão setorial foi implacável:

  • 42% atuam no Agronegócio
  • 28% no Setor Imobiliário
  • 16% em Energia e Infraestrutura
  • 14% em Direitos Creditórios Diversos (precatórios, royalties, recebíveis de cartão)

No agronegócio, o instrumento rei é a Cédula de Produto Rural (CPR). Vimos dezenas de cooperativas e produtores rurais de médio porte emitindo CPRs Financeiras, empacotando esses títulos em contratos inteligentes (smart contracts) e distribuindo via plataformas como a Liqi e o Mercado Bitcoin.

No setor imobiliário, a lógica é similar. Loteadoras e construtoras do interior de São Paulo, Paraná e Santa Catarina estão tokenizando recebíveis de vendas de lotes. Em vez de esperar anos para receber as parcelas dos compradores ou vender a carteira com um deságio brutal para um fundo imobiliário, elas tokenizam os recebíveis e antecipam o caixa direto com investidores de varejo.

A Matemática da Emissão: O Que Eles Buscam

Quando perguntamos aos 50 executivos qual foi a principal motivação para emitir um token em vez de usar o mercado de capitais tradicional, 82% responderam a mesma coisa: redução do custo de captação estrutural.

Vamos colocar os números na mesa. Estruturar uma oferta pública de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) sob a Resolução CVM 160 custa, em média, de R$ 250 mil a R$ 400 mil apenas em custos fixos. Você precisa pagar advogados, agência de rating, auditoria, estruturador, administrador fiduciário e a taxa da B3. Para que a conta feche, a oferta precisa ser de pelo menos R$ 30 milhões a R$ 50 milhões.

Na tokenização, o cenário muda drasticamente. Nós observamos ofertas de R$ 2 milhões, R$ 5 milhões e R$ 10 milhões sendo estruturadas por uma fração desse custo. As plataformas de tokenização cobram, em regra, um percentual sobre o volume captado (entre 2% e 4%), eliminando a barreira de entrada dos custos fixos colossais.

Velocidade de Execução

O segundo fator mais citado (74%) foi a agilidade. Uma emissão de debêntures tradicional leva de três a quatro meses entre a decisão da diretoria e o dinheiro efetivamente pingar na conta da empresa.

Com os tokens, o prazo despenca. Uma das empresas entrevistadas, uma comercializadora de energia do mercado livre, conseguiu estruturar, tokenizar e liquidar uma oferta de R$ 8 milhões em exatos 18 dias úteis. No mundo corporativo, onde a necessidade de capital de giro não espera a burocracia dos reguladores, ganhar 70 dias no cronograma de captação é a diferença entre fechar um negócio ou perder o timing do mercado.

Os Gargalos Reais: Nem Tudo São Flores

Nossa pesquisa também expôs as feridas do mercado. Pedimos aos emissores que listassem as maiores frustrações pós-emissão. O otimismo tecnológico rápidamente deu lugar ao realismo financeiro.

O Fantasma da Liquidez (Mercado Secundário)

O problema número um, citado por 90% dos entrevistados, é a ausência de um mercado secundário eficiente. Quando uma empresa emite um token de recebível com prazo de 24 meses, o investidor que compra esse ativo fica travado até o vencimento.

Ao contrário de uma ação na B3, onde você aperta um botão no home broker e vende sua posição, o tokenizador brasileiro ainda sofre para prover liquidez de saída. Plataformas autorizadas pelo sandbox da CVM, como a BEE4, estão construindo esse ecossistema para ações tokenizadas, mas para a grande massa de tokens de dívida (fixed income), a liquidez secundária é virtualmente zero.

O resultado? As empresas precisam oferecer prêmios de risco altíssimos. Vimos emissores pagando CDI + 4% ou até CDI + 6% ao ano para convencer o investidor a imobilizar seu capital. Essa taxa elevada corrói parte da vantagem de custo que a tokenização oferecia na estruturação.

O Custo da Educação do Investidor

Outro ponto crítico é a fricção na ponta final. A tokenização promete desintermediar o sistema, conectando a empresa direto ao investidor de varejo. O problema é que o varejo brasileiro ainda associa a palavra "token" a esquemas de enriquecimento rápido ou à volátilidade do Bitcoin.

Os emissores relataram que gastam muito tempo e dinheiro em marketing apenas para explicar que o "Token de CPR" não é uma criptomoeda sujeita às oscilações de Elon Musk, mas sim um título de dívida tradicional com lastro no mundo real, apenas envelopado em uma tecnologia diferente. A infraestrutura de distribuição ainda depende massivamente das corretoras de cripto, que concentram um público mais afeito ao risco direcional do que à renda fixa estruturada.

Resultados na Mesa: O Que Deu Certo

Apesar dos gargalos, os resultados práticos justificam a resiliência do setor. Das 50 empresas entrevistadas, 38 (76%) afirmaram que pretendem realizar uma nova emissão de tokens nos próximos 12 meses.

Um caso emblemático que acompanhamos foi o de uma rede de franquias de fast food que tokenizou os recebíveis de suas máquinas de cartão. Em vez de descontar esses recebíveis no banco a uma taxa de 2,5% ao mês, a empresa emitiu um token lastreado nesse fluxo futuro, pagando 1,4% ao mês para os investidores. A captação de R$ 5 milhões foi encerrada em quatro horas dentro da plataforma do Mercado Bitcoin.

A Vórtx QR também tem pavimentado um caminho sólido, focando em ativos regulados. A emissão de debêntures tokenizadas da Salinas, que levantou R$ 60 milhões, provou que o mercado tradicional já está disposto a testar os trilhos da blockchain quando a segurança jurídica é garantida pelo sandbox da CVM.

O Fator Drex e o Futuro da Emissão

O que o Banco Central e a CVM estão preparando para 2026 vai mudar as regras do jogo. A chegada do Drex (a moeda digital do Banco Central brasileiro) não é apenas uma atualização tecnológica. É a ponte que falta entre o dinheiro institucional e os ativos tokenizados.

Hoje, o fluxo de caixa de um token funciona assim: o investidor manda reais via Pix para a corretora, a corretora converte isso na compra do token, e o dinheiro vai para o emissor. No vencimento, o emissor paga em reais para a corretora, que distribui para os detentores dos tokens.

Com o Drex, tudo isso será atômico. O contrato inteligente do token fará a liquidação direta contra o Drex na carteira do investidor, sem risco de contraparte da plataforma intermediária.

Para os 50 emissores que entrevistamos, o Drex é o gatilho final. A expectativa unânime é que a entrada do real digital elimine a desconfiança dos grandes fundos de investimento (institucionais) sobre a infraestrutura de custódia dos tokens. Quando os fundos de pensão e os multimercados começarem a comprar tokens de recebíveis diretamente na blockchain, o prêmio de risco vai cair, e o custo de captação para as empresas ficará imbatível.

O mercado de tokenização no Brasil não é mais uma promessa de jovens entusiastas. É uma ferramenta de tesouraria de empresas reais, focadas em margem, lucro e eficiência. Quem ignorar esse movimento continuará pagando o pedágio do sistema financeiro tradicional.

Perguntas Frequentes

MF

Matheus Feijão

CEO & Fundador — ouro.capital

Especialista em fintech e criptoativos desde 2002. CEO da ouro.capital.